quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

ROSEANA MURRAY (1950- )

Roseana Murray é formada em Lingua e Literatura Francesa, pela Aliança Francesa, Universidade de Nancy. Mora em Saquarema, cidade de que é cidadã honorária. É casada com Juan Arias, jornalista e escritor espanhol, correspondente, no Brasil, do jornal El País, de Madrid. Começou a escrever poesia para crianças em 1980, com o livro Fardo de Carinho, influência direta de Ou isto ou aquilo, de Cecília Meireles. A autora publicou mais de cinqüenta livros , entre eles Classificados Poéticos (Ed. Miguilim, 1984), Falando de Pássaros e Gatos (Edições Paulus, 1987) e Receitas de Olhar (Ed. F.T.D, 1992). Recebeu por três vezes o Prêmio de Melhor de Poesia pela Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil, o Prêmio APCA, o Prêmio da Academia Brasileira de Letras de melhor livro infantil e faz parte da Lista de Honra do I.B.B.Y.




GENEALOGIA

morro ao contrário e viro minha mãe
ela vinha da Polônia
sem adivinhar que me carregava
em seu destino
que me carregava em suas unhas
em sua voz
eu a vejo no convés do navio
era criança e não sabia os terríveis
peixes que o oceano esconde
ainda trazia nos cabelos o cheiro do feno
as vozes da aldeia
eu era ela seus olhos espreitando o céu imenso
e já fazia parte do seu silêncio
morro mais um pouco e viro minha avó
limoando a casa para o sabat
ela era jovem tinha longas tranças
e um coração assustado feito vento
na próxima semana ela casaria
e nem tinha visto o noivo ainda
se Deus ajudasse ele seria calmo
e protegeria sua vida
como com as mãos ela protege
a chama das velas
eu estou dentro dela embutida em seus desvelos
eu a vejo com os olhos de quem só vai nascer
milhares de horas depois
atravessando os escombros que separam
os avós dos seus netos
morro mais um pouco ainda
e não consigo vê-la
a mãe da minha avó
nem sei seu nome
ela é uma sombra tão longe
e quando fala não consigo escutar
embora me esforce tanto que me doem os ossos
eu já estava escrita na trilha
dos seus olhos tristes?


***



PARTIDA

Hoje arrumo as flores
em cima da mesa
as frutas na memória
quero um dia bem simples
alguma luz pousada
na superfície da água

hoje chamo para mim
amorosas palavras
que vivam um dia
perto do meu coração
que corram pela casa
com sua mistura de mel e espanto
alguém parte com um ruído seco
alguém sempre está partindo

***

A LUA

A lua pinta a rua de prata
e na mata a lua parece
um biscoito de nata.

Quem será que esqueceu
a lua acesa no céu?





DANTE MILANO (1899-1991)*

Dante Milano nasceu no Rio de Janeiro, filho do maestro Nicolino Milano e de Corina Milano. Trabalhou como conferente de textos na Gazeta de Notícias (Rio de Janeiro) a partir de 1913. Foi também funcionário do Juizado de Menores, no Ministério da Justiça. Publicou seu primeiro poema, "Lágrima Negra", em 1920, na revista carioca Selecta. Na época trabalhava como empregado na contabilidade da Ilha das Cobras, no Rio de Janeiro. Nos anos de 1930 foi colaborador do suplemento Autores e Livros, de A Manhã e do Boletim de Ariel. Em 1935 organizou a Antologia dos Poetas Modernos, primeira antologia de poetas dessa fase. Casa-se com Alda em 1947. Seu primeiro livro, Poesias, foi publicado em 1948, e recebeu o Prêmio Felipe d'Oliveira de melhor livro de poesia do ano. Nos anos seguintes trabalhou como tradutor, lançando, em 1953, Três Cantos do Inferno, de Dante Alighieri. Em 1979 foi publicado seu livro "Poesia e Prosa". Publicou em 1988 Poemas Traduzidos de Baudelaire e Mallarmé. No mesmo ano recebeu o Prêmio Machado de Assis, concedido pela Academia Brasileira de Letras. Dante Milano é um dos poetas representativos da terceira geração do Modernismo. Para o crítico David Arrigucci Jr., Milano, "como o amigo Bandeira, refletiu muito sobre a morte, casando o pensamento à forma enxuta de seus versos - lírica seca e meditativa, avessa ao fácil artifício, onde o ritmo interior persegue em poemas curtos, com justeza e sem alarde, o sentido".




O rio

A paisagem submersa, a água morta, e eu no fundo.
Mortal, sombra ou clarão, reflexo oculto 

N’água como no espaço em que estou submergido,
Eu, náufrago do sonho universal, 

Afundado em mim mesmo, como minha sombra no rio.
Dentro ou fora, qual é  o verdadeiro afogado? 

A água lívida como uma lâmina de aço,
Com lampejos cruéis e ameaças de morte, 

Passa sobre mim cortando a minha figura em pedaços.
Mas ao passo que num espelho duro o meu outro eu
                                                                     [me olha com ódio 

Aqui a água trêmula me fita com um olhar de mágoa
E o meu outro eu me sorri do fundo da água, 

Mole, maleável como coleante ofídio.
Esse corpo sem luz como uma alma com frio 

Me chama e por entre a água enganosa do rio
Se insinua a insidiosa idéia do suicídio. 

***


Pietá

Essa Mulher causa piedade
Com o filho morto no regaço
Como se ainda o embalasse.
Não ergue os olhos para o céu
À espera de algum milagre
Mas baixa as pálpebras pesadas
Sobre o adorado cadáver.
Ressuscitá-lo ela não pode,
Ressuscitá-lo ela não sabe.
Curva-se toda sobre o filho
Para no seio guardá-lo,
Apertando-o contra o ventre
Com dor maior que a do parto.
Mãe, de Dor te vejo grávida,
Oh, mãe do filho morto!


 ***
  
Tocata e fuga

É tudo aquilo que só existe no ar,
O que de nós, além de nós, se expande.
É a vertigem para o alto, igual à grande
Tocata e fuga em ré menor de Bach.
É o delírio de um bêbedo num bar...
É um não sair do chão por mais que se ande... 

Tudo que em mim, somente em mim existe,
Me transporta, me absorve, me suspende,
Me faz sorrir embora eu esteja triste,
Triste naquele universal sentido
Que a música interpreta e se compreende
Sem que em palavras seja traduzido



* Os poemas aqui publicados foram gentilmente propostos e selecionados pelo poeta, contista e crítico de cinema e de literatura, Henrique Passos Wagner.

MACHADO DE ASSIS (1939-1908)

Joaquim Maria Machado de Assis, cronista, contista, dramaturgo, jornalista, poeta, novelista, romancista, crítico e ensaísta, nasceu na cidade do Rio de Janeiro em 21 de junho de 1839. Filho de um operário mestiço de negro e português, Francisco José de Assis, e de D. Maria Leopoldina Machado de Assis, aquele que viria a tornar-se o maior escritor do país e um mestre da língua, perde a mãe muito cedo e é criado pela madrasta, Maria Inês, também mulata, que se dedica ao menino e o matricula na escola pública, única que freqüentará o autodidata Machado de Assis. De saúde frágil, epilético, gago, sabe-se pouco de sua infância e início da juventude. Criado no morro do Livramento, consta que ajudava a missa na igreja da Lampadosa. Com a morte do pai, em 1851, Maria Inês, à época morando em São Cristóvão, emprega-se como doceira num colégio do bairro, e Machadinho, como era chamado, torna-se vendedor de doces. No colégio tem contato com professores e alunos e é até provável que assistisse às aulas nas ocasiões em que não estava trabalhando. Mesmo sem ter acesso a cursos regulares, empenhou-se em aprender.  Consta que, em São Cristóvão, conheceu uma senhora francesa, proprietária de uma padaria, cujo forneiro lhe deu as primeiras lições de Francês. Contava, também, com a proteção da madrinha D. Maria José de Mendonça Barroso, viúva do Brigadeiro e Senador do Império Bento Barroso Pereira, proprietária da Quinta do Livramento, onde foram agregados seus pais. Aos 16 anos, publica em 12-01-1855 seu primeiro trabalho literário, o poema "Ela", na revista Marmota Fluminense, de Francisco de Paula Brito. A Livraria Paula Brito acolhia novos talentos da época, tendo publicado o citado poema e feito de Machado de Assis seu colaborador efetivo. Com 17 anos, consegue emprego como aprendiz de tipógrafo na Imprensa Nacional, e começa a escrever durante o tempo livre.  Conhece o então diretor do órgão, Manuel Antônio de Almeida, autor de Memórias de um sargento de milícias, que se torna seu protetor. Em 1858 volta à Livraria Paula Brito, como revisor e colaborador da Marmota, e ali integra-se à sociedade lítero-humorística Petalógica, fundada por Paula Brito. Lá constrói o seu círculo de amigos, do qual faziam parte Joaquim Manoel de Macedo, Manoel Antônio de Almeida, José de Alencar e Gonçalves Dias. Começa a publicar obras românticas e, em 1859, era revisor e colaborava com o jornal Correio Mercantil. Em 1860, a convite de Quintino Bocaiúva, passa a fazer parte da redação do jornal Diário do Rio de Janeiro. Além desse, escrevia também para a revista O Espelho (como crítico teatral, inicialmente), A Semana Ilustrada(onde, além do nome, usava o pseudônimo de Dr. Semana) eJornal das Famílias. Seu primeiro livro foi impresso em 1861, com o título Queda que as mulheres têm para os tolos, onde aparece como tradutor.  No ano de 1862 era censor teatral, cargo que não rendia qualquer remuneração, mas o possibilitava a ter acesso livre aos teatros. Nessa época, passa a colaborar em O Futuro, órgão sob a direção do irmão de sua futura esposa, Faustino Xavier de Novais. Publica seu primeiro livro de poesias em 1864, sob o título de Crisálidas. Em 1867, é nomeado ajudante do diretor de publicação do Diário Oficial. Agosto de 1869 marca a data da morte de seu amigo Faustino Xavier de Novais, e, menos de três meses depois, em 12 de novembro de 1869, casa-se com Carolina Augusta Xavier de Novais. Nessa época, o escritor era um típico homem de letras brasileiro bem sucedido, confortavelmente amparado por um cargo público e por um  casamento feliz que durou 35 anos. D. Carolina, mulher culta, apresenta Machado aos clássicos portugueses e a vários autores da língua inglesa. Sua união foi feliz, mas sem filhos. A morte de sua esposa, em 1904, é uma sentida perda, tendo o marido dedicado à falecida o soneto Carolina, que a celebrizou. Seu primeiro romance, Ressurreição, foi publicado em 1872.  Com a nomeação para o cargo de primeiro oficial da Secretaria de Estado do Ministério da Agricultura, Comércio e Obras Públicas, estabiliza-se na carreira burocrática que seria o seu principal meio de subsistência durante toda sua vida. No O Globo de então (1874), jornal de Quintino Bocaiúva, começa a publicar em folhetins o romance A mão e a luva. Escreveu crônicas, contos, poesias e romances para as revistas O Cruzeiro, A Estação e Revista Brasileira. Sua primeira peça teatral é encenada no Imperial Teatro Dom Pedro II em junho de 1880, escrita especialmente para a comemoração do tricentenário de Camões, em festividades programadas pelo Real Gabinete Português de Leitura. Na Gazeta de Notícias, no período de 1881 a 1897, publica aquelas que foram consideradas suas melhores crônicas. Em 1881, com a posse como ministro interino da Agricultura, Comércio Obras Públicas do poeta Pedro Luís Pereira de Sousa, Machado assume o cargo de oficial de gabinete. Publica, nesse ano, um livro extremamente original , pouco convencional para o estilo da época: Memórias Póstumas de Brás Cubas -- que foi considerado, juntamente com O Mulato, de Aluísio de Azevedo, o marco do realismo na literatura brasileira. Extraordinário contista, publica Papéis Avulsos em 1882, Histórias sem data(1884), Vária Histórias (1896), Páginas Recolhidas (1889), e Relíquias da casa velha (1906). Torna-se diretor da Diretoria do Comércio no Ministério em que servia, no ano de 1889. Grande amigo do escritor paraense José Veríssimo, que dirigia a Revista Brasileira, em sua redação promoviam reuniões os intelectuais que se identificaram com a idéia de Lúcio de Mendonça de criar uma Academia Brasileira de Letras. Machado desde o princípio apoiou a idéia e compareceu às reuniões preparatórias e, no dia 28 de janeiro de 1897, quando se instalou a Academia, foi eleito presidente da instituição, cargo que ocupou até sua morte, ocorrida no Rio de Janeiro em 29 de setembro de 1908. Sua oração fúnebre foi proferida pelo acadêmico Rui Barbosa. É o fundador da cadeira nº. 23, e escolheu o nome de José de Alencar, seu grande amigo, para ser seu patrono. Por sua importância, a Academia Brasileira de Letras passou a ser chamada de Casa de Machado de Assis.




UMA CRIATURA


Sei de uma criatura antiga e formidável,
Que a si mesma devora os membros e as entranhas,
Com a sofreguidão da fome insaciável.

Habita juntamente os vales e as montanhas;
E no mar, que se rasga, à maneira de abismo,
Espreguiça-se toda em convulsões estranhas.

Traz impresso na fronte o obscuro despotismo.
Cada olhar que despede, acerbo e mavioso,
Parece uma expansão de amor e de egoísmo.

Friamente contempla o desespero e o gozo,
Gosta do colibri, como gosta do verme,
E cinge ao coração o belo e o monstruoso.

Para ela o chacal é, como a rola, inerme;
E caminha na terra imperturbável, como
Pelo vasto areal um vasto paquiderme.

Na árvore que rebenta o seu primeiro gomo
Vem a folha, que lento e lento se desdobra,
Depois a flor, depois o suspirado pomo.

Pois esta criatura está em toda a obra;
Cresta o seio da flor e corrompe-lhe o fruto;
E é nesse destruir que as forças dobra.

Ama de igual amor o poluto e o impoluto;
Começa e recomeça uma perpétua lida,
E sorrindo obedece ao divino estatuto.

Tu dirás que é a Morte; eu direi que é a Vida.


***


Círculo vicioso


Bailando no ar, gemia inquieto vagalume:
"Quem me dera que eu fosse aquela loira estrela
Que arde no eterno azul, como uma eterna vela!"
Mas a estrela, fitando a lua, com ciúme:

"Pudesse eu copiar-te o transparente lume,
Que, da grega coluna à gótica janela,
Contemplou, suspirosa, a fronte amada e bela"
Mas a lua, fitando o sol com azedume:

"Mísera! Tivesse eu aquela enorme, aquela
Claridade imortal, que toda a luz resume"!
Mas o sol, inclinando a rútila capela:

Pesa-me esta brilhante auréola de nume...
Enfara-me esta luz e desmedida umbela...
Por que não nasci eu um simples vagalume?"...


***


Carolina


Querida, ao pé do leito derradeiro
Em que descansas dessa longa vida,
Aqui venho e virei, pobre querida,
Trazer-te o coração do companheiro.

Pulsa-lhe aquele afeto verdadeiro
Que, a despeito de toda a humana lida,
Fez a nossa existência apetecida
E num recanto pôs o mundo inteiro.

Trago-te flores - restos arrancados
Da terra que nos viu passar unidos
E ora mortos nos deixa e separados.

Que eu, se tenho nos olhos malferidos
Pensamentos de vida formulados,
São pensamentos idos e vividos.

quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

HILDA HILST (1930-2004)

Hilda Hilst foi a única filha do fazendeiro de café, jornalista, poeta e ensaísta Apolônio de Almeida Prado Hilst, filho de Eduardo Hilst, imigrante originário da Alsácia-Lorena, e de Maria do Carmo Ferraz de Almeida Prado. Sua mãe, Bedecilda Vaz Cardoso, era filha de imigrantes portugueses. Em 1932, seus pais se separaram. Em plena Revolução Constitucionalista, Bedecilda mudou-se para Santos, com Hilda e Ruy Vaz Cardoso, filho do seu primeiro casamento. Em 1935, Apolônio foi diagnosticado como paranóico esquizofrênico.

Em 1937, Hilda ingressou como aluna interna do Colégio Santa Marcelina, em São Paulo, onde cursou o primário e o ginasial, com desempenho considerado brilhante. Nesse ano, a mãe lhe revelou a doença de seu pai. Em 1945, iniciou o curso secundário no Instituto Presbiteriano Mackenzie, onde permaneceu até a conclusão do curso. Em 1948, entrou para a Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo (Largo São Francisco). Seu primeiro livro, Presságio, foi publicado em 1950. A partir de 1951, ano em que publicou seu segundo livro de poesia, Balada de Alzira, foi nomeada curadora do pai. Concluiu o curso de Direito em 1952. Na universidade, conheceu sua melhor amiga, a escritora Lygia Fagundes Telles. Em 1966, mudou-se para a Casa do Sol, uma chácara próxima a Campinas, onde hospedou diversos escritores e artistas por vários anos. Ali dedicou todo seu tempo à criação literária.

Hilda Hilst escreveu por quase cinqüenta anos, tendo sido agraciada com os mais importantes prêmios literários do Brasil. Em 1962, recebeu o Prêmio PEN Clube de São Paulo, por Sete Cantos do Poeta para o Anjo (Massao Ohno Editor, 1962). Mudou-se para a Casa do Sol, construída na fazenda, onde passou a viver com o escultor Dante Casarini, em 1966. Em setembro do mesmo ano, morreu seu pai. Dois anos depois, Hilda casou-se com Dante. Em 1969, a peça O Verdugo arrebatou o Prêmio Anchieta, um dos mais importantes do país na época. No mesmo ano, a cantata Pequenos Funerais Cantantes, composta por seu primo, o compositor Almeida Prado, sobre o poema homônimo de Hilda, dedicado ao poeta português Carlos Maria Araújo, conquistou o primeiro prêmio do I Festival de Música da Guanabara.

A Associação Paulista de Críticos de Arte (Prêmio APCA) considerou Ficções (Edições Quíron, 1977) o melhor livro do ano. Em 1981, Hilda Hilst recebeu o Grande Prêmio da Crítica para o Conjunto da Obra, pela mesma Associação Paulista de Críticos de Arte. Em 1984, a Câmara Brasileira do Livro concedeu o Prêmio Jabuti, idealizado por Edgard Cavalheiro (1959) a Cantares de Perda e Predileção (Massao Ohno - M. Lydia Pires e Albuquerque editores, 1983), e, no ano seguinte, a mesma obra recebeu o Prêmio Cassiano Ricardo (Clube de Poesia de São Paulo). Rútilo Nada, publicado em 1993, pela editora Pontes, levou o Prêmio Jabuti como melhor conto. E, finalmente, em 9 de agosto de 2002, foi premiada na 47ª edição do Prêmio Moinho Santista na categoria Poesia.

A escritora ainda participou, a partir de 1982, do Programa do Artista Residente, da Universidade Estadual de Campinas - UNICAMP.

Assuntos tidos como socialmente controversos, por exemplo, o lesbianismo, a homossexualidade e a pedofilia, foram temas abordados pela autora em suas obras. No entanto, conforme a própria escritora confessou em sua entrevista ao Cadernos de Literatura Brasileira, seu trabalho sempre buscou, essencialmente, retratar a difícil relação entre Deus e o homem.

Muitas de suas obras se esgotaram e não eram encontradas até que a Editora Globo republicou vários títulos. Após seu falecimento o amigo Mora Fuentes liderou a criação do Instituto Hilda Hilst (http://www.hildahilst.com.br/). O IHH tem como primeira missão a manutenção da Casa do Sol, seu acervo e o espírito de ser um porto seguro para a criação intelectual.



QUE ESTE AMOR NÃO ME CEGUE NEM ME SIGA...

Que este amor não me cegue nem me siga.
E de mim mesma nunca se aperceba.
Que me exclua do estar sendo perseguida
E do tormento
De só por ele me saber estar sendo.
Que o olhar não se perca nas tulipas
Pois formas tão perfeitas de beleza
Vêm do fulgor das trevas.
E o meu Senhor habita o rutilante escuro
De um suposto de heras em alto muro.

Que este amor só me faça descontente
E farta de fadigas. E de fragilidades tantas
Eu me faça pequena. E diminuta e tenra
Como só soem ser aranhas e formigas.

Que este amor só me veja de partida.


***



CHAMAMENTOS AO AMIGO


Se te pareço noturna e imperfeita
Olha-me de novo. Porque esta noite
Olhei-me a mim, como se tu me olhasses.
E era como se a água
Desejasse

Escapar de sua casa que é o rio
E deslizando apenas, nem tocar a margem.

Te olhei. E há tanto tempo
Entendo que sou terra. Há tanto tempo
Espero
Que o teu corpo de água mais fraterno
Se estenda sobre o meu. Pastor e nauta

Olha-me de novo. Com menos altivez.
E mais atento.


***


PRELÚDIOS-INTENSOS
PARA OS DESMEMORIADOS DO AMOR

I

Toma-me. A tua boca de linho sobre a minha boca
Austera. Toma-me AGORA, ANTES
Antes que a carnadura se desfaça em sangue, antes
Da morte, amor, da minha morte, toma-me
Crava a tua mão, respira meu sopro, deglute
Em cadência minha escura agonia.

Tempo do corpo este tempo, da fome
Do de dentro. Corpo se conhecendo, lento,
Um sol de diamante alimentando o ventre,
O leite da tua carne, a minha
Fugidia.
E sobre nós este tempo futuro urdindo
Urdindo a grande teia. Sobre nós a vida
A vida se derramando. Cíclica. Escorrendo.

Te descobres vivo sob um jogo novo.
Te ordenas. E eu deliquescida: amor, amor,
Antes do muro, antes da terra, devo
Devo gritar a minha palavra, uma encantada
Ilharga
Na cálida textura de um rochedo. Devo gritar
Digo para mim mesma. Mas ao teu lado me estendo
Imensa. De púrpura. De prata. De delicadeza.

II

Tateio. A fronte. O braço. O ombro.
O fundo sortilégio da omoplata.
Matéria-menina a tua fronte e eu
Madurez, ausência nos teus claros
Guardados.

Ai, ai de mim. Enquanto caminhas
Em lúcida altivez, eu já sou o passado.
Esta fronte que é minha, prodigiosa
De núpcias e caminho
É tão diversa da tua fronte descuidada.

Tateio. E a um só tempo vivo
E vou morrendo. Entre terra e água
Meu existir anfíbio. Passeia
Sobre mim, amor, e colhe o que me resta:
Noturno girassol. Rama secreta.

ÉRICO NOGUEIRA (1979- )

Érico Nogueira nasceu em Bragança Paulista em 1979. Poeta e estudioso da Antigüidade greco-latina, ganhou o “Prêmio Governo de Minas Gerais de Literatura” de 2008 com O Livro de Scardanelli e é, também, autor de Dois, com o qual foi um dos finalistas do prêmio Jabuti de 2011. sua primeira coletânea de poemas. Atualmente vive em São Paulo, onde trabalha como tradutor e professor de línguas e literaturas clássicas e escreve para a revista Dicta&Contradicta.

 

 

 

 

ALTIVEZ

Há quem escolha a vida, e de que morte
a vida morra, e onde e quando quase;
há quem não tenha boa nem má fase
porque não liga: aceita a sua sorte.

Se a luz arder ou não arder, é tudo igual;
circula o sangue, se oxigena o cérebro,
e a mão escreve o que hão de comentar no féretro,
quer faça chuva então, ou faça sol.

O que se foi, se foi – o sol luzido
e o vento e o raio e o tronco ao meio dividido;
a vida é um quase nada, é quase um sopro: é barro
que, modelado ou não, é sujo e caro.


*** 

AS PÊRAS DE DIANA

As pêras que colhi
da vaguidão de insossos minerais,
pensei mas não comi;
então não pude mais
que olhá-las e pensar comê-las mais.

As coloquei num cesto
para que mão alguma as machucasse;
e me era indigesto
notar, se examinasse,
que tinham marcas como se apanhassem.

À noite, famulento,
tomei e simplesmente as pus na boca;
que grande o meu contento
mesmo onde a carne é pouca;
pensar e não comer, que idéia louca.


***

 

IN DÜRFTIGER ZEIT

Havia um tempo em que eu andava triste,
como lagarto em rocha estatelado:
trazia mais que o mundo sobre o rabo,
o que existe, e o que não existe.
Fui passear, a ver se me esquecia
do que pesava assim sobre meus “ombros”;
ora na merda, ora nos escombros,
fuçava tudo e nada recolhia.
“Outro soneto, então, meu caro Érico?
você só presta par tais bobagens?”
- me disse alguém (se gente) em tom pilhérico,
que vinha com meu rosto nas miragens.
A disciplina do deserto é esta:
não dá de graça, e o que te der não presta.


GUILHERME DE ALMEIDA (1890-1969)

Guilherme de Andrade e Almeida (Campinas, 24 de julho de 1890 — São Paulo, 11 de julho de 1969) foi advogado, jornalista, crítico de cinema, poeta, ensaísta e tradutor brasileiro. Entre outras realizações, foi um dos maiores responsáveis pela divulgação do haikai no Brasil. Combatente na Revolução Constitucionalista de 1932. Sua obra maior de amor a São Paulo foi seu poema Nossa Bandeira. Ainda, o poema Moeda paulista Foi presidente da Comissão Comemorativa do Quarto Centenário da cidade de São Paulo. Guilherme de Almeida pertenceu só episodicamente ao movimento de 1922. Não bastasse sua produção poética, suas atitudes comprovam essa afirmação: foi o primeiro "Modernista" a entrar para a Academia Brasileira de Letras (1930). Em 1958, foi coroado o quarto "Príncipe dos Poetas Brasileiros" (depois de Bilac, Alberto de Oliveira e Olegário Mariano). Encontra-se sepultado no Mausoléu do Soldado Constitucionalista, na capital de São Paulo.




SONETO

Quando a chuva cessava e um vento fino
franzia a tarde tímida e lavada,
eu saía a brincar, pela calçada,
nos meus tempos felizes de menino.

Fazia, de papel, toda uma armada;
e, estendendo meu braço pequenino,
eu soltava os barquinhos, sem destino,
ao longo das sarjetas, na enxurrada...

Fiquei moço, e hoje sei, pensando neles,
que não são barcos de ouro os meus ideais:
são feitos de papel como aqueles,

perfeitamente, exatamente iguais...
— Que os meus barquinhos, lá se foram eles!
Foram-se embora e não voltaram mais!


***


MORMAÇO

Calor. E as ventarolas das palmeiras
e os leques das bananeiras
abanam devagar
inutilmente na luz perpendicular.
Todas as coisas são mais reais, são mais humanas:
não há borboletas azuis nem rolas líricas.
Apenas as taturanas
escorrem quase líquidas
na relva que estala como um esmalte.
E longe uma última romântica
— uma araponga metálica — bate
o bico de bronze na atmosfera timpânica.


***



FILOSOFIA
(
HAIKAI)

Lutar? Para quê?
De que vive a rosa? Em que
pensa? Faz o quê?




quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

SEBASTIÃO DA ROCHA PITA (1660-1738)

Nascido no ano de 1660 na Bahia, hoje cidade de Salvador, Sebastião da Rocha Pita foi um importante historiador e poeta do século XVII. É autor de, dentre outras, uma importante obra intitulada História da América Portuguesa (1730), produzida em um período em que a capacidade de contar a História de Portugal e do império luso-brasileiro compunham um quadro de preocupações centrais de um reino atribulado em legitimar-se frente a outras nações - onde o domínio da história e sua forma de escrita como iniciativa institucional congregaria em si essa função. Como um historiador de prestígio, compunha a ordem de letrados na Academia Real de História Portuguesa (1720-1736), ocupando o cargo de acadêmico supranumerário. No cenário brasileiro, foi membro e um dos fundadores da Academia Brasílica dos Esquecidos (1724) participando ativamente como poeta e historiador nas atividades realizadas nessa congregação, que pode ser concebida como um local privilegiado para se pensar e formular a história da América Portuguesa, em um período no qual “ o movimento academicista ajudou a desencadear uma nova percepção sobre o estatuto político do território colonial, estimulando assim, a reflexão sobre a natureza dos laços que prendiam a América ao Reino: amarras simultaneamente jurídicas, familiares, lingüísticas, econômicas e culturais. Formado na Escola de Jesuítas da Bahia e mestre em Artes, o nome de Rocha Pita figura na lista de nomes de brasileiros formados na Universidade de Coimbra elaborada por Francisco Morais, tendo ido aos 16 anos. A formação em Portugal era um costume daqueles que tinham um prestígio social na colônia e que compunham assim, o quadro de letrados brasileiros. Ostentou ainda o título de coronel do regimento privilegiado de ordenanças, foi fidalgo da casa real, cavaleiro da ordem de Cristo e vereador em Salvador. Pai de três filhos, com Ana Cavalcanti, morre em 1738, na cidade de Cachoeira, onde desde o casamento fixou residência.






SONETO
                                                    

O desvelo maior tem aplicado
Fílis para esquecer um bem perdido,
Mas como pode o bem ser esquecido,
Quando o próprio desvelo o faz lembrado?

Como pode o discurso desvelado
Ver-se do que imagina dissuadido?
Lembrar-se de esquecer traz no sentido,
E vem o esquecimento a ser cuidado.

Se da perda o descuido não tomasse
Por empresa, essa mágoa que padece
Fora possível, que lhe não lembrasse.

Mas a memória em Fílis permanece,
Pois se o descuido de cuidado nasce,
Do que quer esquecer se não esquece. 


***



SONETO JOCOSO 

Pondero a emudecida formosura
De Fília, sem temer que impertinente
Possa, no meu soneto, meter dente,
Pois carece de toda a dentadura.

Se, por cobrir a falta, esta escultura
Tão muda está que não parece gente,
Estátua de jardim será somente,
Se de pano de raz não for figura.

O Senhor Secretário quer que a creia
Bela sem dentes; eu lho não concedo:
Desdentada é pior do que ser feia,

E em silêncio só pode causar medo,
Ser relógio do sol para uma aldeia,
Para um povo estafermo do segredo.


***



SONETO


A ver do Sol o novo nascimento,
a nova Lua veio prontamente
um e outro Planeta no Ocidente
trazendo o seu efeito, e movimento,

o Sol em raios grande luzimento,
a Lua em águas copiosa enchente
assistindo a Academia mais ciente,
e concorrendo a dar-lhe o fundamento.

Para encher ao Congresso de favores
mais se expende um Planeta, outro mais arde,
o dia repartindo em seus primores.

Ambos fazem do seu obséquio Alarde
um em cristais, e outro em resplendores,
a Lua de manhã, e o Sol de tarde. 
  




EMÍLIO DE MENEZES (1866-1918)

Emílio Nunes Correia de Meneses (Curitiba, 4 de julho de 1866 — Rio de Janeiro, 6 de junho de 1918); jornalista e poeta brasileiro, imortal da Academia Brasileira de Letras e mestre dos soentos satíricos. 

Era filho de Emílio Nunes Correia de Meneses e de Maria Emília Correia de Meneses, único homem dentre oito irmãs. Seu pai era também um poeta. Faz seus estudos iniciais com João Batista Brandão Proença, e depois no Instituto Paranaense. Sem ser de família abastada, trabalha na farmácia de um cunhado e, ainda com dezoito anos, muda-se para o Rio de Janeiro, deixando em Curitiba a marca de uma conduta já distoante ao formalismo vigente: nas roupas, no falar e nos costumes.

Boêmio, na capital do país encontra solo fértil para destilar sua fértil imaginação, satírica como poucos. A amizade com intelectuais, entretanto, fez com que tivesse seu nome afastado do grupo inicial que fundara a Academia. Torna-se jornalista e, por intercessão do escritor Nestor Vítor, trabalha com o Comendador Coruja, afamado educador. Em 1888 casa-se com uma filha deste, Maria Carlota Coruja, com quem tem no ano seguinte seu filho, Plauto Sebastião.

Mas Emílio não estava fadado para a vida doméstica: neste mesmo ano separa-se da esposa, mantendo um romance com Rafaelina de Barros.

Autor de veros mordazes, eivados de críticas das quais não escapavam os políticos da época, mestre dos sonetos, Emílio de Meneses é portador de uma tradição - iniciada com o Brasil, em Gregório de Matos. Para Glauco Mattoso, o poeta paranaense é o principal poeta satírico brasileiro após Gregório de Matos; foi o maior satírico do soneto brasileiro. Apelidado "rei do trocadilho" e "o último boêmio", ficou também famoso por epigramas em trova. Boemia e irreverência foram, segundo consta, o motivo da má vontade de Machado quanto à admissão do gordo na Academia.

Tendo sido nomeado para o recenseamento, como escriturário do Departamento da Inspetoria Geral de Terras e Colonização, em 1890, Emílio aposta na especulação da falácia econõmica do Encilhamento, criada pelo Ministro da Fazenda Ruy Barbosa: como muitos, fez rápida fortuna, esbanja e, terminada a farsa, como todos os outros investidores, vai à falência. Não muda, entretanto, seus hábitos. Continua o mesmo boêmio de sempre, a povoar os jornais da época com suas percucientes anedotas.





A
ROMÃ

Mal se confrange na haste a corola sangrenta
e o punício vigor das pétalas descora.
Já no ovário fecundo e intumescido, aumenta
o escrínio em que retém os seus tesouros. Flora!

E ei-la exsurge a Romã. Fruta excelsa e opulenta
que de acesos rubis os lóculos colora
e à casca orbicular, áurea e eritrina ostenta
o ouro do entardecer e o paunásio da aurora!

Fruta heráldica e real, em si, traz à coroa
que o cálice da flor lhe pôs com o mesmo afago
com que a Mãe Natureza os seres galardoa!

Porém a forma hostil, de arremesso e de estrago,
lembra um dardo mortal que o espaço cruza e atroa
nos prélios ancestrais de Roma e de Cartago!


***


UM PAULISTA NARCISISTA a Amadeu Amaral


Dizem que, às vezes, quer se achar bonito,
mas, nem sendo Amadeu e sendo amado,
mas muito amado mesmo, eu não hesito:
se não é feio é bem desengraçado.

Entretanto se o vejo (isto é esquisito)
através de um soneto burilado,
e mais que belo, afirmo em alto grito,
é o próprio Apolo que lhe fica ao lado.

Mais comprido que a universal história,
este Leconte, com seu ar caipira,
me deixa uma impressão nada ilusória.

Quando ele ao alto a inspiração atira,
com a cabeça a topar no céu da glória,
é um guindaste a guindar a própria lira.
                                                                        
***


IMPRESSÕES DE VIAGEM

(a Monna Delza, que declarou que no Rio
as portas e janelas das casasnunca são fechadas)


Como é bela a mentira quando nasce
de uma formosa boca feminina!
Nem nos faz o rubor subir à face,
tanto é discreta, delicada e fina.

Se o que a Monna declara, declarasse
o Belisário Távora, imagina
o leitor que esta coisa assim ficasse,
sem protestos da crítica ferina?

À Delza agradecemos a carícia
das suas doces impressões de viagem,
nas quais não há nem sombras de malícia.

Mas cá no seio da camaradagem,
se assim fosse, que glória a da polícia
e que vergonha para a gatunagem!


LUÍS PIMENTEL (1950- )

Luís Pimentel nasceu no sertão baiano, entre Itiúba e Gavião, em 1953. Jornalista e escritor, é carioca por adoção, tendo trabalhado em diversas redações de jornais e revistas do Rio de Janeiro. Autor de duas dezenas de livros publicados, entre obras infanto-juvenis, de contos, de poesia, de textos de humor e sobre fatos e personagens da música brasileira, como "As miudezas da velha", Prêmio Jorge de Lima, 1990, "O calcanhar da memória", 2004, e "Grande homem mais ou menos", Prêmio Cruz e Sousa. Outros livros do autor: "Todas as cores do mar", 2007; "Luiz Gonzaga", 2007; "Um cometa cravado em tuas coxas", 2007; "Contos para ler ouvindo música", 2005; "Wilson Batista"; "Entre sem bater: O humor na imprensa brasileira: do Barão de Itararé ao Pasquim 21" e "Piadas para sacanear corintiano: Para alegria de palmeirense"..





Colheita

Acredito na floresta e na pradaria e na noite dentro da qual o milho cresce.
H. D. Thoreau



Porque nada é em vão
– a foice, o pão, a bala perdida –
estamos cada dia mais estéreis,
espantalhos no campo, expostos
às bicadas e aos ferrões.
Da unha que arrebenta
ao dente amolecido,
nenhum saldo positivo
é creditado aos cabelos
que perderam a cor.

Porque a vida é curta, sonsa e cínica
e é incauto o amor,
toda nudez será aproveitada
em benefício impróprio.
O estômago seguirá doendo,
a mãe gemendo reminiscências
contra Deus e suas relíquias,
os amigos morrendo distraidamente
como se ainda jogássemos bolas de gude.
O patrão, a mulher e o filho,
todos pensando que me têm,
enquanto os sentinelas no hospício
não pensam em nada,
apenas esperam que eu me acalme
para debulharem, grão por grão,
até minha última espiga.

***



Neblina e mormaço

O velho está quieto e cansado.
Feito um animal, um burro de carga.

Está triste, está só e mal-amado.
Ninguém lhe redime, nada o absolve.

Nos olhos do velho, uma chuva fina.
No peito, neblina. Mormaço nas costas.

O velho não deve, não teme, não foge.
Mas identifica o calor nas veias:

como um descompasso, uma coisa feia.
O velho já teve a vida no braço.

Quando a luz se apaga, sonha dias antigos.
Uma calça curta, uma estrada inteira,

um carro de bois, certa pasmaceira,
um pai que era duro, um cão que era meigo,

um calor-castigo, porcos e galinhas,
enxada no ombro, espinhos na pele,

um cabrito enjeitado, que o velho-menino
tratava com zelo – mamadeira e carinho no pêlo.

Quando o dia se acende, vem tudo de novo:
levanta em silêncio, caminha com modos,

se lava com métodos, se enxuga com calma,
se arrasta sem júbilos ao café com leite,

ao remédio certo, ao jornal sem cura,
ao final da fila, ao sinal da espera.

Vai à janela e contempla o céu, ainda o mesmo.
Não faz qualquer pedido, qualquer promessa.


***


Enigma

Para onde fogem os pássaros
em sua agonia?
Quando falham as asas,
onde eles as escondem?

Como enfrentam a morte
quando se anuncia?

Será que se escondem,
como os elefantes,
nos montes longínquos?

Onde eles se exilam?
Onde se desnudam?
Como se aniquilam?

Que bater de assas
diz que o pássaro em chamas,
tem o bico trêmulo?

Como se despena?
Despenca do galho?
Vira luz efêmera?

O pássaro em pânico
não lamenta a sorte.
Não celebra a morte,
pois só sabe a vida.

Qual será o canto
de sua despedida?