quarta-feira, 22 de agosto de 2012

GILBERTO FREYRE (1900-1987)


Sociólogo, antropólogo e escritor, Gilberto de Mello Freyre nasceu no Recife, Pernambuco, no dia 15 de março de 1900, na antiga Estrada dos Aflitos (atual Avenida Rosa e Silva), filho do professor e juiz de direito Alfredo Freyre e de Francisca de Mello Freyre. Estudou o primário e o secundário no Colégio Americano Gilreath, no Recife (1908-1917), onde participou ativamente da sua sociedade literária, sendo redator-chefe do jornal O Lábaro, editado por aquela instituição de ensino. Em 1918, viajou para os Estados Unidos, onde fez seus estudos universitários: bacharelado em Artes Liberais, com especialização em Ciências Políticas e Sociais, na Universidade de Baylor e mestrado e doutorado em Ciências Políticas, Jurídicas e Sociais, na Universidade de Columbia, onde defendeu a tese Vida social no Brasil em meados do século XIX. Viajou para vários países europeus, retornando ao Brasil, em 1923, preferindo continuar morando na sua terra natal, o Recife, em vez de ir para o sul do País. Considerado um pioneiro da Sociologia no Brasil, foi um dos idealizadores do I Congresso Brasileiro de Regionalismo, do qual resultou a publicação Manifesto regionalista de 1926, contrário à Semana de Arte Moderna de 1922 e valorizando o regionalismo nordestino em confronto com as manifestações da "cultura européia". De 1927 a 1930, foi chefe de gabinete do então governador de Pernambuco, Estácio Coimbra. Em 1933, publicou seu livro mais conhecido Casa-grande & senzala, que iria depois ser publicado por vários países como Argentina (1942); Estados Unidos (1946); França (1952); Portugal (1957); Alemanha e Itália (1965); Venezuela (1977); Hungria e Polônia (1985), entre outros. Foi eleito deputado federal constituinte, em 1946. Quando deputado, foi autor do projeto que criou o Instituto Joaquim Nabuco de Pesquisas Sociais, hoje Fundação Joaquim Nabuco. Além de escritor, foi também pintor e jornalista. Dirigiu os jornais recifenses A Província e o Diario de Pernambuco. Colaborou com a revista O Cruzeiro (Rio de Janeiro) e vários periódicos estrangeiros. Foi membro do Conselho Federal de Cultura desde a sua criação, diretor do Centro Regional de Pesquisas Educacionais e presidente do conselho-diretor da Fundação Joaquim Nabuco. Recebeu vários prêmios literários e o título de Doutor Honoris Causa de diversas universidades brasileiras e estrangeiras. Da Rainha Elizabeth II, da Inglaterra, recebeu o título de Cavaleiro do Império Britânico. É autor de dezenas de livros, entre os quais, Casa-grande & senzala (1933), obra considerada fundamental para a compreensão da formação social brasileira; Sobrados e mucambos (1936); Nordeste (1937); O mundo que o português criou (1940); Ingleses no Brasil (1948); Aventura e rotina (1953); Ordem e progresso (1959); Vida, forma e cor (1962); Homem, cultura e trópico (1962); Oliveira Lima, Dom Quixote Gordo (1968); Além do apenas moderno (1973); Tempo de aprendiz (1979); Rurbanização: que é? (1982); Apipucos: que há num nome? (1983); Insurgências e ressurgências (1983); Modos de homem e modas de mulher (1987); Ferro e civilização no Brasil (1988). Morreu no Recife, no dia 18 de julho de 1987, sendo sepultado no Cemitério de Santo Amaro.





VENTOS DA TARDE


As mangueiras
o telhado velho
o pátio branco
as sombras da tarde cansada
até o fantasma da judia rica
tudo esta à espera do romance começado

um dia sobre os tijolos soltos
a cadeira de balanço será o principal ruído
as mangueiras
o telhado
o pátio
as sombras
o fantasma da moça
tudo ouvirá em silêncio o ruído pequeno.

***



JANGADA TRISTE

Ao longe, mui longe, no horizonte,
além, muito além daquele monte,
como ave que voa desdenhada,
flutua tristemente uma jangada.

Nos zangados soluços do oceano,
quase desaparece o canto humano
de quem no mar e céu inda confia
porque em terra tudo lhe é melancolia.

Isso de terra firme e mar traiçoeiro
 nem sempre é certo para o jangadeiro
mais preso ao fiel sal que à incerta areia.

Mistura ao grande azul as suas mágoas
e encontra no vaivém das verdes águas
consolo às negras dores cá da terra.


***


BAHIA DE TODOS OS SANTOS
E DE QUASE TODOS OS PECADOS
 

Bahia de Todos os Santos (e de quase todos os pecados)
casas trepadas umas por cima das outras
casas, sobrados, igrejas, como gente se espremendo pra sair num
retrato de revista ou jornal
(vaidade das vaidades! diz o Eclesiastes)
igrejas gordas (as de Pernambuco são mais magras
toda a Bahia é uma maternal cidade gorda
como se dos ventres empinados dos seus montes
dos quais saíram tantas cidades do Brasil
inda outras estivessem para sair
ar mole oleoso
cheiro de comida
cheiro de incenso
cheiro de mulata
bafos quentes de sacristias e cozinhas
panelas fervendo
temperos ardendo
o Santíssimo Sacramento se elevando
mulheres parindo
cheiro de alfazema
remédios contra sífilis
letreiros como este:
Louvado seja Nosso Senhor Jesus Cristo
(Para sempre! Amém!)
automóveis a 30$ a hora
e um ford todo osso sobe qualquer ladeira
saltando pulando tilintando
para depois escorrer sobre o asfalto novo
que branqueja como dentadura postiça em terra encarnada
(a terra encarnada de 1500)
gente da Bahia! preta, parda, roxa, morena
cor dos bons jacarandás de engenho do Brasil
(madeira que cupim não rói)
sem rostos cor de fiambre
nem corpos cor de peru frio
Bahia de cores quentes, carnes morenas, gostos picantes
eu detesto teus oradores, teus otaviosmangabeiras
mas gosto das tuas iaiás, tuas mulatas, teus angus
tabuleiros, flor de papel, candeeirinhos,
tudo à sombra das tuas igrejas
todas cheias de anjinhos bochechudos
sãojoões sãojosés meninozinhosdeus
e com senhoras gordas se confessando a frades mais magros do que
eu
O padre reprimido que há em mim
se exalta diante de ti Bahia
e perdoa tuas superstições
teu comércio de medidas de Nossa Senhora e do Nossossenhores do
Bonfim
e vê no ventre dos teus montes e das tuas mulheres
conservadoras da fé uma vez entregue aos santos
multiplicadores de cidades cristãs e de criaturas de Deus
Bahia de Todos os Santos
Salvador
São Salvador
Bahia
Negras velhas da Bahia
vendendo mingau angu acarajé
Negras velhas de xale encarnado
peitos caídos
mães de mulatas mais belas dos Brasis
mulatas de gordo peito em bico como para dar de mamar a todos os
meninos do Brasil.
Mulatas de mãos quase de anjos
mãos agradando ioiôs
criando grandes sinhôs quase iguais aos do Império
penteando iaiás
dando cafuné nas sinhás
enfeitando tabuleiros cabelos santos anjos
lavando o chão de Nosso Senhor do Bonfim
pés dançando nus nas chinelas sem meia
cabeções enfeitados de rendas
estrelas marinhas de prata
tetéias de ouro
balangandãs
presentes de português
óleo de coco
azeite-de-dendê
Bahia
Salvador
São Salvador
Todos os Santos
Tomé de Sousa
Tomés de Sousa
padres, negros, caboclos
Mulatas quadrarunas octorunas
a Primeira Missa
os malês
índias nuas
vergonhas raspadas
candomblés santidades heresias sodomias
quase todos os pecados
ranger de camas-de-vento
corpos ardendo suando de gozo
Todos os Santos
missa das seis
comunhão
gênios de Sergipe
bacharéis de pince-nez
literatos que lêem Menotti del Picchi e Mário Pinto Serpa
mulatos de fala fina
muleques
capoeiras feiticeiras
chapéus-do-chile
Rua Chile
viva J. J. Seabra morra J. J. Seabra
Bahia
Salvador
São Salvador
Todos os Santos
um dia  voltarei com vagar ao teu seio moreno brasileiro
às tuas igrejas onde pregou Vieira moreno hoje cheias de frades
ruivos e bons
aos teus tabuleiros escancarados em x (esse x é o futuro do Brasil)
a tuas a teus sobrados cheirando a incenso comida alfazema
cacau.
 




quarta-feira, 15 de agosto de 2012

LUIZ GAMA (1830-1882)

Luiz Gama era filho de escravos, e foi vendido pelo pai, em 1840, por causa de uma dívida de jogo. Comprado em leilão pelo alferes Antonio Pereira Cardoso, passou a viver em cativeiro em Lorena SP. Em 1847 foi alfabetizado por Antonio Rodrigues do Prado Júnior, hóspede de Antonio Pereira Cardoso. No ano seguinte fugiu da fazenda e foi para São Paulo SP. Lá casou-se, por volta de 1850, e freqüentou o curso de Direito como ouvinte, mas não chegou a completá-lo. Em 1864, fundou o jornal Diabo Coxo, do qual foi redator. O periódico era ilustrado pelo italiano Angelo Agostini, considerado marco da imprensa humorística em São Paulo. Entre 1864 e 1875 colaborou nos jornais Ipiranga, Cabrião, Coroaci e O Polichileno. Fundou, em 1869 o jornal Radical Paulistano, com Rui Barbosa. Sempre utilizou seu trabalho na imprensa para a divulgação de suas idéias antiescravistas e republicanas. Em 1873 foi um dos fundadores do Partido Republicano Paulista, em Itu SP. Nos anos seguintes, teve intensa participação em sociedades emancipadoras, na organização de sociedades secretas para fugas e ajuda financeira a negros, além do auxílio na libertação nos tribunais de mais de 500 escravos foragidos. Por volta de 1880, foi líder da Mocidade Abolicionista e Republicana. Os poemas de Luís Gama estão vinculados à segunda geração do Romantismo. Entretanto, segundo o crítico José Paulo Paes, "distanciando-se dos literatos da época pelo seu realismo de plebeu, Luiz Gama deles se distanciava também pela concepção que tinha da literatura. Para ele, ser poeta não era debruçar-se sobre si mesmo, num irremediável narcisismo, mas voltar-se para o mundo, medi-lo com olhos críticos, zurzir-lhe os erros, as injustiças, as falsidades.".








A CATIVA


Como era linda, meu Deus!
Não tinha da neve a cor,
Mas no moreno semblante
Brilhavam raios de amor.

Ledo o rosto, o mais formoso
De trigueira coralina,
De Anjo a boca, os lábios breves
Cor de pálida cravina.

Em carmim rubro esgastados
Tinha os dentes cristalinos;
Doce a voz, qual nunca ouviram
Dúlios bardos matutinos.

Seus ingênuos pensamentos
São de amor juras constantes;
Entre as nuvens das pestanas
Tinha dois astros brilhantes.

As madeixas crespas, negras,
Sobre o seio lhe pendiam,
Onde os castos pomos de ouro
Amorosos se escondiam.

Tinha o colo acetinado
— Era o corpo uma pintura —
E no peito palpitante
Um sacrário de ternura.

Límpida alma — flor singela
Pelas brisas embalada,
Ao dormir d'alvas estrelas,
Ao nascer da madrugada.

Quis beijar-lhe as mãos divinas,
Afastou-mas — não consente;
A seus pés de rojo pus-me,
— Tanto pode o amor ardente!

Não te afastes, lhe suplico,
És do meu peito rainha;
Não te afastes, neste peito
Tens um trono, mulatinha!...

Vi-lhe as pálpebras tremerem,
Como treme a flor louçã
Embalando as níveas gotas
Dos orvalhos da manhã.

Qual na rama enlanguescida
Pudibunda sensitiva,
Suspirando ela murmura:
Ai, senhor, eu sou cativa!...

Deu-me as costas, foi-se embora
Qual da tarde ao arrebol
Foge a sombra de uma nuvem
Ao cair a luz do sol. 


***



MEUS AMORES



Meus amores são lindos, cor da noite
Recamada de estrelas rutilantes;
Tão formosa creoula, ou Tétis negra
Tem por olhos dois astros cintilantes.

Em rubentes granadas embutidas
Tem por dentes as pérolas mimosas,
Gotas de orvalho que o inverno gela
Nas breves pétalas de carmínea rosa.

Os braços torneados que alucinam,
Quando os move perluxa com langor.
A boca é roxo lírio abrindo a medo,
Dos lábios se distila o grato olor.

O colo de veludo Vênus bela
Trocara pelo seu, de inveja morta;
Da cintura nos quebros há luxúria
Que a filha de Cineras não suporta.

A cabeça envolvida em núbia trunfa,
Os seios são dois globos a saltar;
A voz traduz lascívia que arrebata,
— É coisa de sentir, não de contar.

Quando a brisa veloz, por entre anáguas
Espaneja as cambraias escondidas,
Deixando ver aos olhos cobiçosos
As lisas pernas de ébano luzidas.

Santo embora, o mortal que a encontra pára;
Da cabeça lhe foge o bento siso;
Nervosa comoção as bragas rompe-lhe,
E fica como Adão no Paraíso.

Meus amores são lindos, cor da noite,
Recamada de estrelas rutilantes;
Tão formosa creoula, ou Tétis negra,
Tem por olhos dois astros cintilantes.

Ao ver no chão tocar seus pés mimosos,
Calçando de cetim alvas chinelas,
Quisera ser a terra em que ela pisa,
Torná-las em colher, comer com elas.

São minguados os séculos para amá-la,
De gigante a estrutura não bastara,
De Marte o coração, alma de Jove,
Que um seu lascivo olhar tudo prostrara.

Se a sorte caprichosa em vento, ao menos,
Me quisesse tornar, depois de morto;
Em bojuda fragata o corpo dela,
As saias em velame, a tumba em porto,

Como os Euros, zunindo dentre os mastros,
Eu quisera açoitar-lhe o pavilhão;
O velacho bolsar, bramir na proa,
Pela popa rojar, feito em tufão.

.........................................

Dar cultos à beleza, amor aos peitos,
Sem vida que transponha a eternidade,
Bem que mostra que a sandice estava em voga
Quando Uranus gerou a humanidade.

Mas já que o fato iníquo não consente,
Que amor, além da campa, faça vasa,
Ornemos de Cupido as santas aras,
Tu feita em fogareiro, eu feito em brasa. 



***



COLEIRINHO

Assim o escravo agrilhoado canta.
                                                Tibulo 






Canta, canta Coleirinho,
Canta, canta, o mal quebranta;
Canta, afoga mágoa tanta
Nessa voz de dor partida;
Chora, escravo, na gaiola
Terna esposa, o teu filhinho,
Que, sem pai, no agreste ninho
Lá ficou sem ti, sem vida.

Quando a roxa aurora vinha
Manso e manso, além dos montes,
De ouro orlando os horizontes,
Matizando as crespas vagas,
— Junto ao filho, à meiga esposa
Docemente descantavas,
E na luz do sol banhavas
Finas penas — noutras plagas.

Hoje, triste já não trinas,
Como outrora nos palmares;
Hoje, escravo, nos solares
Não te embala a dúlia brisa;
Nem se casa aos teus gorjeios
O gemer das gotas alvas
— Pelas negras rochas calvas —
Da cascata que desliza.

Não te beija o filho tenro,
Não te inspira a fonte amena,
Nem da lua a luz serena
Vem teus ferros pratear.
Só de sombras carregado,
Da gaiola no poleiro
Vem o tredo cativeiro,
Mágoa e prantos acordar.

Canta, canta Coleirinho,
Canta, canta, o mal quebranta;
Canta, afoga mágoa tanta
Nessa voz de dor partida;
Chora, escravo, na gaiola
Terna esposa, o teu filhinho,
Que, sem pai, no agreste ninho
Lá ficou sem ti, sem vida. 







ANTONIO CARLOS SECCHIN (1952 - )

Antonio Carlos Secchin nasceu no Rio de Janeiro em 10 de junho de 1952. Filho de Sives Secchin e de Victoria Regia Fuzeira Secchin. Até os 6 anos morou em Cachoeiro de Itapemirim. Desde 1959 reside no Rio de Janeiro. É Doutor em Letras pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (1982). Professor de Literatura Brasileira das Universidades de Bordeaux, (1975-1979), Roma (1985), Rennes (1991), Mérida (1999),Nápoles (2007), Paris Sorbonne (2009) e da Faculdade de Letras da UFRJ, onde foi aprovado (1993), por unanimidade, com nota máxima, em concurso público para professor titular. Total de 15 prêmios nacionais, destacando-se: 1.o lugar, categoria “ensaio”, do Instituto Nacional do Livro (1983); Prêmio Sílvio Romero, da Academia Brasileira de Letras, 1985, ambos para João Cabral: a Poesia do Menos; Prêmio Alphonsus de Guimaraens, da Fundação Biblioteca Nacional (2002); Prêmio de Poesia da Academia Brasileira de Letras (2003); Prêmio Nacional do PEN Clube do Brasil (2003), atribuídos a Todos os Ventos como melhor livro de poesia.  A Ilha. Rio de Janeiro: edição do autor, 1971 (plaquete fora do comércio). Ária de Estação. Rio de Janeiro: São José, 1973. Elementos. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1983. Diga-se de Passagem. Rio de Janeiro: Ladrões do Fogo, 1988. Poema para 2002. Rio de Janeiro: Cacto Arte e Ciência, 2002 (livro-objeto fora do comércio, tiragem de 50 exemplares). Todos os Ventos. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2002. 50 Poemas Escolhidos pelo Autor. Rio de Janeiro: Galo Branco, 2006.





CONFESSIONÁRIO


Não posso dar-me em espetáculo.
A platéia toda fugiria
antes mesmo do segundo ato.
Um ator perplexo misturaria
versos, versões e fatos.
E um crítico, maldizendo a sua sina,
rosnaria feroz
contra minha verve
sibilina.


***



SETE ANOS DE PASTOR


Penetro Lia, mas Raquel é quem me move,
e faz meu corpo desatar toda alegria.
Se tenho Lia, minha pele não navega
nada além de nada em névoa fria.

Sete anos galopando em Lia e tédio,
sete anos condenado ao gozo escuro.
Raquel me tenta, e se me beija Lia
minha boca é não, e minha mão é muro.

Labão, o puto, perdoai-me nesse instante,
adoro a dor que doer em minha amante.
Vou cravar-lhe um punhal exausto e certo,

doar seu sangue ao livro e à ventania.
Quieta Lia será terra em que os cavalos
vão pastar, sob a serra e o deus do dia. 


***



VER 


O dia. Arcos da manhã
em nuvem. Riscos de luz
como vidros arriados.

O claro. A praia armada
entre a sintaxe do verde.

Áreas do ar. Aves
navegando as lajes
do azul. 

JUÓ BANANÉRE (1892-1933)

JUÓ BANANÉRE, pseudônimo de Alexandre Ribeiro Marcondes Machado. Bananére é um dos raros casos de poeta exclusivamente humorístico (outros são, em geral, autores "sérios" e "tristes" que se permitem alguma pausa para descontração num poema "menor"), sua importância transcende a sátira e a paródia e se conecta a procedimentos modernistas como a subversão métrica e o poema-piada. Mais singular é o fato de vazar sua obra no macarrônico ítalo-paulistanês (ou luso-carcamano, como refere Idel Becker), caricaturando o sotaque da mais arraigada colônia européia na metrópole. Ainda segundo Becker, este engenheiro civil era um entusiasta da arquitetura colonial. Fundador do semanário O Pirralho e do Diário do Baixo Piques (“Semanale di grande impurtanza. Proprietá di una suciatá anônima cumpletamente discunhecida. Direttore: Cav. Uff. Juó Bananére"), deixou um único livro, La Divina Increnca (1925), reunindo desde trovas até contos e textos teatrais, passando, naturalmente, pelo soneto, cujo coreto sai definitivamente bagunçado. Segundo Otto Maria Carpeaux, "Juó Bananére é um produto legítimo, mas, antes de tudo, produto completo da velha cidade, do Largo de S. Francisco, da Avenida S. João, do Brás, da Barra Funda. No seu cancioneiro paulistano, tudo isso está presente"; "Juó Bananére pode ser considerado como precursor do modernismo, para o qual contribuiu, desmoralizando os deuses parnasianos. Mas também foi precursor de outros modernismos mais radicais: de modificações sociais que só hoje são plenamente percebidas em São Paulo e no Brasil." Na galeria dos tipos satirizados pelo poeta dialetal estão um presidente da República Velha (o marechal Hermes da Fonseca, referido como Hermeze ou Dudu), sua noiva Nair de Teffé (referida como Nairia), um vereador paulistano (o coronel José Piedade, referido como Garonello ou Piedadó e também presente na sátira de outro poeta, Moacir Piza) e um professor da Faculdade de Direito (Spencer Vampré, referido como Vapr'elli).







UVI STRELLA
[de Bilac em "Ouvir estrelas"]


Che scuitá strella, né meia strella!
Vucê stá maluco! e io ti diró intanto,
Chi p'ra iscuitalas moltas veiz livanto,
I vô dá una spiada na gianella.

I passo as notte acunversáno co'ella,
Inguanto che as otra lá d'un canto
Stó mi spiano. I o sol come un briglianto
Nasce. Oglio p'ru céu: — Cadê strella?!

Direis intó: — Ó migno inlustre amigo!
O chi é chi as strellas ti dizia
Quano illas viéro acunversá contigo?

E io ti diró: — Studi p'ra intendela,
Pois só chi giá studô Astrolomia,
É capaiz de intendê istas strella.



***



SUNETTO CRÁSSICO [de Camões em "Sete anos de pastor"]


Sette anno di pastore, Giacó servia Labó,
Padre da Raffaela, serrana bella,
Ma non servia o pai, che illo non era troxa nó!
Servia a Raffaela p'ra si gazá co'ella.

I os dia, na esperanza di un dia só,
Apassava spiáno na gianella;
Ma o páio, fugino da gumbinaçó,
Deu a Lia inveiz da Raffaela.

Quano o Giacó adiscobri o ingano,
E che tigna gaído na sparrella,
Ficô c'un brutto d'un garó di arara.

I incominció di servi otros sette anno
Dizeno: Si o Labó non fossi o pai della
Io pigava elli i lí quibrava a gara.



***




A DIFÚNTIMA

pra memória da Juòquina



Deitada num gaxó di quinta crasse,
Branga i gilada uguali da sorbeta,
A bocca della pareci chi afalassi
Con ciúme di io cazá co'a Marietta.

Molhér ch'io amê come ninguê ti amassi,
Fui indisgançá na úrtima valeta
Co'as monzinha erguida ingoppa a face
Branga i gilada uguali da sorbeta.

Se tu mi amassi inveiz di mi inganá,
Si fossi fiér inveiz di mi traiçoá,
Si non tivessi stado tó fogueta,

Tu certamente aóra non staria
No o fondo do gaxó gilada i fria,
Branga i gilada uguali da sorbeta.


quarta-feira, 8 de agosto de 2012

GLAUCO MATTOSO (1954- )

Glauco Mattoso, pseudônimo de Pedro José Ferreira da Silva, é um escritor brasileiro. Seu nome artístico é um trocadilho com glaucomatoso, termo usado para os que sofrem de glaucoma, doença que o fez perder progressivamente a visão, até a cegueira total em 1995. É também uma alusão a Gregório de Matos, de quem se considera herdeiro na sátira política e na crítica de costumes. Glauco cursou biblioteconomia na Escola de Sociologia e Política de São Paulo e Letras Vernáculas na USP. Nos anos 70, participou da resistência cultural à ditadura militar através do grupo dos "poetas marginais". Além de editar o fanzine poético-panfletário Jornal Dobrabil (trocadilho com o Jornal do Brasil e o formato dobrável dos folhetos satíricos), colaborou em diversos periódicos da imprensa alternativa, tais como o tablóide gay Lampião e o humorístico O Pasquin. Na década de 80, publicou trabalhos em revistas como Chiclete com bananaTralhaMil PerigosSomTrêsTop RockStatus e Around, ensaios e críticas literárias no Jornal da Tarde, além de diversos volumes de poesia e prosa. Em 1982, edita a Revista Dedo Mingo, como um suplemento do Jornal Dobrabil. Nos anos 90, perde por completo a visão em decorrência do glaucoma de que sofria há anos. Deixa de lado a criação gráfica história em quadrinhos e poesia concreta) e passa a dedicar-se a escrever letras de músicas e à produção fonográfica. Com o professor da USP Jorge Schwartz, ganha o Prêmio Jabuti pela tradução que ambos fazem da obra inaugural de Jorge Luis Borges, Fervor de Buenos Aires. Nos anos mais recentes, retorna à criação de poesia escrita e textos virtuais, produzindo textos e poesias para a internet, colaborando em revistas eletrônicas e impressas, tais como a Caros Amigos. A obra de Glauco Mattoso caracteriza-se pela exploração de temas polêmicos, tais como a violência e a discriminação. O autor tem a reputação de "poeta maldito", uma espécie de "Boca do Inferno" moderno ou Bocage pornográfico do século XX. É autor, entre tantos livros, de: Apocrypho Apocalypse (1975) - coletânea com outros poetas; Memórias de um Pueteiro (1982); O Glosador Motejoso (2003); Centopéia: Sonetos Nojentos & Quejandos (1999); Cavalo Dado: Sonetos cariados (2004)...








#6 MANIFESTO COPROPHAGICO [1977/1999]

A merda na latrina desse bar
da esquina de officina cheiro tem.
De fina serpentina tem, tambem,
si folga com rotina combinar.

Cocô com cocaina, em tal logar,
commum é tanto quanto ter alguem
cagado as hemorrhoidas. Alli vem
o povo do Brasil todo cagar.

Cocô kosmopolita, palindromico,
até kaleidoscopico e mutante,
se caga no latino reino momico.

Vagina americana avessa, cante
meu verso a merda metrica, com comico
cynismo, e faça a antithese de Dante!


***


#9 CENSURADO [1999] (*)

Sabendo que a censura não me trava,
pediram-me um soneto sem calão
p'ra pôr na anthologia de salão
que o tal do [censurado] organizava.

Queriam até tonica na oitava,
mas nada de recurso ao palavrão.
Usei o ingrediente mais à mão,
porem sem [censurado] não passava.

Desisto. Quanto mais remendos metto,
mais ropto vae ficando o [censurado].
Poema não é texto de pamphleto

p'ra ter que se estampar todo truncado!
Pois esta [censurado] de soneto
que va p'ra [censurado] [censurado]!


***



#21 BIBLICO (I) [1999] (*)

No Livro dos Juizes é contada
A historia de Sansão, um cabelludo
Tão forte que foi rei do valetudo,
E um bello dia não valia nada.

Trahido por Dalilah, sua amada,
Virou escravo até do mais miudo;
Perdeu cabello e olho, e sobretudo
O orgulho de jamais levar pisada.

Tambem eu sou careca, cego e servo
De todo philisteu que me espezinha;
Mas desde a meninice inda conservo (*)

O trauma de ser judas da turminha.
Não fui Sansão, e nem siquer preservo
A fé de ter de volta o que não tinha.