sexta-feira, 8 de maio de 2015

MARIA DA CONCEIÇÃO PARANHOS (1944- )

Baiana de Salvador, a poetisa Maria da Conceição Paranhos publica desde o final dos anos 60, tanto em edições solo como participante de coletâneas. Em 1969, ela conquistou o prêmio Arthur Salles com seu livro de estréia em poesia,Chão Circular. Formada em letras, é doutora em teoria da literatura e também escreve ensaios e contos. Em 1967, ao lado de nomes como Myriam Fraga, Ruy Espinheira Filho, Antonio Brasileiro e Florisvaldo Mattos, participou da antologia Moderna Poesia Bahiana [sic], publicada pelas Edições Tempo Brasileiro. Para o crítico Carlos Machado: “Maria da Conceição desenvolve um lirismo centrado na reflexão sobre a vida, o passar do tempo os acidentes do amor, a insônia, a convivência difícil. Os poemas aqui selecionados pertencem ao livro As Esporas do Tempo, de 1996. 






ESCUTA



Ocorre que há uns lapsos na história,
há uns lapsos. Então vêm, videntes,
relatar histórias conhecidas
em noites longas de calor, insônia.
Ouvimos. Pacientemente.
Sob discursos jazem outras vozes.

Necessário cantar.
Animais se aninham ao nosso ânimo,
baixam seu brado à espera da canção.
E os leões de pedra dos portões
deixam rolar os globos que os sustentam.

Falamos línguas obscenas.
Não. Endureceu-se o ouvir.
Indefinidamente?
Afrontar a rija espada dos confrontos,
permitir soluções, se o peito arfa
curvado de rajadas imprudentes.
Se não se deixa a alma nesses lances
em que transidos vagamos dementes,
como afrontar as rugas, decifrar mensagens
(não correm ventos nas paisagens mortas,
largadas ao relento)?

Necessário é amar.
Primeiro e último tormento.


***



ILHA ILUMINADA


A vida surge rara,
ressurge das fenestras,
uma explosão contida,
um girassol sedento
imóvel na moldura.
Vigiam olhos d’água —
aberto azul turquesa,
piscina de desejo
a refletir o alto.

Cá dentro, hospital,
o choro dos nascidos.
Também meu ventre abriu-se,
menino, numa rosa.
De bruços na varanda,
medito e reencontro
um corpo tumescido,
a face repartida
nos ritos da espécie
e sua garra firme
e minha solidão.

Retomo minha voz:
embargo, engasgo,
tosse, difícil
redenção.

Suor, em fio, escorre
da sede de voar.
Janela tão pequena,
qual ilha iluminada,
afronta a escuridão
dos blocos, argamassa,
em fila, ameaça.

Eu grito, de paixão.



***




DESVELANDO O TEMPO


Ocultem os outros
a palavra tempo
em poemas curtos
com tal tema, centro.

A palavra tempo
deve ser usada
tantas vezes quanto
impuser nossa alma.

A palavra tempo
descerra suas portas
de argila e de vento,
suas linhas tortas.

Escrever o tempo
permite retornos:
ligeiros transtornos,
fugaz contratempo.

Porque tempo, tempo,
tempo passa, corre;
se você não dorme,
ele pára, lento.

Importa saber
com visão preclara
o que quer dizer
o tempo, que exala.


FELIPE D'OLIVEIRA (1891-1933)

Nasceu em Santa Maria da Boca do Monte, Rio Grande do Sul. Com Marcelo Gama, Zeferino Brasil, Álvaro Moreyra, Alceu Wamosy e outros, integrou o grupo simbolista do Rio Grande do Sul (o Simbolismo surge neste Estado em 1902, com via sacra, de Marcelo Gama). Embora tenha dialogando com o Modernismo, Felipe d'Oliveira, segundo Regina Zilberman, "permanece sobretudo um criador simbolista" que dá ênfase "à manifestação de uma temática marcada pela carência de conciliação existencial com a circunstância social e a vida pública, determinando a anulação destas em termos de representação literária". Algumas de suas principais obras poética são Vida extinta (1911) e Lanterna verde (1927).






O salto da morte


A melodia murmura
à porta do rancho
derrama uma alma
na paisagem viva
e a paisagem viva
inspira e expira
o ar fino da noite
pelos brônquios sonoros
da gaita monótona.

Os sapos calaram
e escutam, pensando
que a Mãe-d'Água dos sapos
está cantando perto
no brejo da charneca
entre os nenúfares.

Os bois sonolentos
descerrando lentos
os olhos tímidos
olham o campo longo
batido de luar
e pasmam de já ser
autora pois luz melodiosa
eles entendem o dia só
quando o sol acorda
a voz dos pássaros
adormecidos.

A gaita monótona
insufla um hálito
de pulmão humano
no ar que trescala
na noite clara.

As frondes das árvores
movem o gesto que marca
compasso como cabeças
atentas à orquestra.
As duas janelas ladeando
a porta do rancho
calmo têm a doçura
dos olhos ingênuos
e sorriem no ouro
das candeias que enchem
de ouro fluido
a sala caiada.

E da trepadeira
posta em mantilha
sobre o teto de sapé
sobe o cheiro morno
do jasmim branco
que a música faz
mais tépido
 como um perfume
sobre a pele.

A gaita monótona
alonga o perfume
na noite oblonga
e a claridade unânime
é luar e perfume
dissolvidos na música.

Súbito, um acorde
mais cheio, mais forte,
soprado em ofego
ressoa e se cala
até o fim do espaço,
no fim da paisagem.
Só o luar vazio
persiste sobre
a terra estática...

E, dentro do luar,
pênsil dos astros,
fica oscilando,
compassado,
o silêncio noturno,
como um trapézio
balançado de onde
rolou para morrer
no tombo trágico
o saltimbanco atônito.



***


ENCRUZILHAMENTO DE LINHAS


Núcleo de convergência no bojo da noite oval.
Lanterna Verde
(amêndoa fosforescente
dentro da casca carbonizada)

Longitudinal, centrífugo,
o trem racha em duas metades
a  espessura do escuro
e, cuspindo pela boca da chaminé
as estrelas inúteis à propulsão,
atira-se desenfreado
nos trilhos livres.

Mas se o maquinista fosse daltônico
a locomotiva teria parado.

        
***

 
O Epitáfio que não foi Gravado



Todos sentiram quando a morte entrou
com um frêmito apressado de retardatária.
A que tinha de morrer, — a que a esperava, —
fechou os olhos
fatigados de assistirem ao mal-entendido da vida.

Os que a choravam sabiam-na sem pecado,
consoladora dos aflitos,
boca de perdão e de indulgência,
corpo sem desejo,
voz sem amargor.

A que tinha de morrer fechou os olhos fatigados,
mas tranquilos...
Porque os que a choravam nunca saberiam
o rancor sem perdão de sua boca,
o desejo saciado de seu corpo,
o amargor de sua voz,
a sua angustia de arrastar até o fim a alma postiça que lhe
                                                                  [fizeram,
o seu cansaço imenso de abafar, secretos, na carne ansiosa,
a perfeição e o orgulho de pecar.

A que tinha de morrer fechou os olhos para sempre
e os que a choravam
nunca souberam de alguém que foi de todos junto ao leito
                            [à hora do exausto coração parar
o mais distante,
o mais imóvel,
o que não soluçou
o que não pôde erguer as pálpebras pesadas,
o que sentiu clamar no sangue o desespero de sobreviver,
o que estrangulou na garganta o grito dilacerado do solitário,
o que depós, sobre a serenidade da morte purificadora,
a redenção do silêncio,
como uma pedra votiva de sepulcro.








EMMANUEL SANTIAGO (1984 - )


Emmanuel Santiago é mineiro de São Lourenço. Poeta e crítico literário, é autor de Pavão bizarro (poesia) e A narração dificultosa (crítica).






Origami

a Tati A. Toumouchi



De papel de seda finíssimo,
fiz teu corpo: fibra a fibra
modelado na pétala, forma
de pura textura e volume.

Sobre a límpida e mínima
película, moldei teus seios
em torneios e volutas,
lívidos torvelinhos,

e os dedos se dedicaram
a cada minúcia sinuosa
na delicada dobradura do
sexo, desdobrando lábios
em abismos, labirintos.

Assim te concebo: nua
e toda nuances, criada
da lâmina de sal e espuma
do mar, como as ondas,

que se espiralam peroladas
durante a queda (tens
a idêntica consistência
de uma onda do mar).



***





Soneto filosofante com chavão de ouro



Bem já dizia o sábio Salomão:
é vaidade, vaidade das vaidades,
tudo que ao peito humano persuade
a tanto esforço inútil, nulo e vão,

pois, que de teu suor, não restarão
os frutos, nem o pó, sequer saudade;
tudo se perde e, tão logo se evade,
deixa para trás uma atroz lição:

nada fica, nem fama, nem dinheiro,
nem há, no mundo inteiro, o que persista;
os últimos igualam-se aos primeiros,

anulam-se as derrotas e as conquistas,
que, nesta vida, é tudo passageiro,
exceto o cobrador e o motorista.


***





Sonho recorrente
ou seis passos para um poema surrealista


Assim se sucedeu naquele sonho:
era noite quando uma jovem moça
perguntava-me as horas. Eu lhe disse:
“Não sei não, senhorita, mas é tarde;
não há ninguém na rua, não há nada”.
Ela, então, deu um tiro na cabeça.

Era noite de novo; na cabeça
a sensação de estar vivendo um sonho
como se caminhasse sobre o nada.
Chegou-se a mim aquela jovem moça:
“Morri, ressuscitei; é muito tarde.
Mate-me agora mesmo!”, ela me disse.

Era de noite quando alguém me disse:
“Veja só, estourei minha cabeça
e não posso emendá-la, pois é tarde!”,
e tudo se passava como num sonho.
Diante de mim, aquela jovem moça
estava morta; não dizia nada.

De noite outra vez, não se via nada.
Do escuro, soou uma voz que disse:
“Não se esqueça daquela jovem moça
que levou um balaço na cabeça!”.
Lembrei-me vagamente de algum sonho,
mas não pude retê-lo. Era tarde.

De noite. Muito escuro. Muito tarde.
Já não me lembro mais de quase nada
e vejo as coisas turvas, feito um sonho.
Só sei que certa vez alguém me disse:
“Cuidado! Não atire na cabeça!”.
No chão, jaz o cadáver de uma moça.

Percebo-me: sou uma jovem moça
andando por aí — tarde, bem tarde.
Estou morta e não tenho mais cabeça;
nas mãos, trago um revólver e mais nada.
“Não há ninguém na rua”, alguém me disse.
Não sei se sou real nem sei se sonho.

        É sempre o mesmo sonho, a mesma moça,
        algo que alguém me disse muito tarde,

        um tiro e só. Mais nada na cabeça.

sábado, 18 de abril de 2015

WLADIMIR SALDANHA (1977 - )

Wladimir Saldanha nasceu em 1977, em Salvador. Estreou com As culpas do poema (Scortecci, 2012), livro distinguido com o X Prêmio Literá­rio Asabeça para a Região Nordeste, categoria poesia. Esse primeiro título seria incorporado ao volume Culpe o vento (7Letras, 2014). Lançou ainda Lume Cardume Chama (7Letras, 2014) − obra selecionada para publicação pela Fundação Cultural da Bahia. Teve poemas publicados nas revistas Ângulos e Iararana e no extinto Suplemento Cultural do jornal A Tarde. Participou das antologias portuguesas Poetas na surrealidade em Es­tremoz (2007) e DiVersos – Poesia e Tradução (2008). Recebeu menção honrosa do Prê­mio SESC de Literatura 2011-2012, categoria livro de contos. Possui formação jurídica, área em que trabalha, sendo também mestre e doutor em Letras pela UFBA. Seu terceiro livro de poemas, Cacau inventado, tem lançamento previsto para o primeiro semestre de 2015, pela Editora Mondrongo, de Ilhéus. Wladimir Saldanha também escreve crítica literária, tendo colaborado com os jornais Rascunho e A Tarde, e desenvolve projetos de tradução. Uma amostra do seu trabalho pode ser acessada no blog Quinze para as Doze: http://quinzedoze.blogspot.com.br/










ICTIOMANCIA


Não venham me dizer que o peixe que veio dentro
do outro
é “como se fosse” o que não pesquei.

Não venham me dizer que o peixe deglutido
pelo maior
e que se revelou em meio a vísceras, foi o meu.

Se voltei para casa, mãos abanando, voltei sem peixe.
Se voltei
com um olho torto para o do colega, do tio ou pai,

voltei sem peixe − sem peixe e vesgo. Não venham
na pedra da pia
me oferecer a cria escarlate, que não foi gerada

pelo ventre: nem digerida. Desse, que veio dentro
do outro
não quero o louro, ramo de louro, feito de coentro.


(De Lume Cardume Chama. Rio de Janeiro: 7Letras, 2014.)



***


SÓ HÁ VERÃO NA MINHA RÚSSIA


Se guardei a sombra de meu pai,
colei-a no passo de um qualquer,
a quem sigo, sim, por onde vai
calcando essa relíquia sem fé.

Mas a sombra de meu pai, puída,
de repente se descola desse alguém
e ei-la que se faz também
órfã de quem tem pai na vida.

E cato a sombra, para o oportuno
uso ao sol, que me encandeia,
com ser sozinho, no diuturno
suplício dessa vã careta-meia

que quer sorrir, mas se obumbra
no meio-dia que palmilho.
Catar do pai a sombra, o filho,
e entesourar sua penumbra

para grudá-la a um par qualquer
de sapatos, de tênis, de saltos
altos − pois pode ser mulher
o pai sem pé nos meus retratos

e cuja sombra dou à súcia
dos que passam, sem jamais pedir...
Só há verão na minha Rússia.
Inventa um vento, Wladimir!


(De Culpe o vento; Rio de Janeiro: 7Letras, 214.)



***



ADONIAS DE VOLTA – SONETO XII



Neste elevado, avisto os cacaueiros
subindo longe a Serra Temerosa,
e a ilha que é o charco, pelo avesso;
e a falta, na paisagem, de uma rosa

que há mais de mês me trouxe o que não quero,
embora eu antevisse o aguaceiro:
de chuva – o que precisa a Temerosa;
de choro – o que dissolve rosto e Rosa.

A ilha pelo avesso que era o charco
semelha agora já não ser a ilha,
pois se desdobra em água e terra; e barco

deixa de ser, ao longe, uma novilha.
Sem Rosa, o destemor parece parco:
desaba um cacaueiro pela trilha.


(Da série Adonias de volta, IN Cacau inventado. Ilhéus: Mondrongo, 2015.)



EUCLIDES DA CUNHA (1966-1909)

Engenheiro, militar, físico, naturalista, jornalista, geólogo, geógrafo, botânico, zoólogo, hidrógrafo, historiador, sociólogo, professor, filósofo, poeta, romancista e ensaísta, Euclides da Cunha nasceu em Cantagalo, no Rio de Janeiro. Filho de Manuel Rodrigues da Cunha Pimenta e Eudóxia Alves Moreira da Cunha. Órfão de mãe desde os 3 anos, passa a viver em casas de parentes em Teresópolis, São Fidélis e Rio de Janeiro. Em1883 ingressa no Colégio Aquino, onde foi aluno de Benjamin Constant, que muito influenciou a sua formação introduzindo-lhe à filosofia positivista. Em 1885, ingressa na Escola Politécnica, e no ano seguinte, na Escola Militar da Praia Vermelha, onde novamente encontra Benjamin Constant como professor. Contagiado pelo ardor republicano dos cadetes e de Benjamin Constant, professor da Escola Militar, durante uma revista às tropas atirou sua espada aos pés do ministro da Guerra Tomás Coelho. A liderança da Escola tentou atribuir o ato à "fadiga por excesso de estudo", mas Euclides negou-se a aceitar esse veredito e reiterou suas convicções republicanas. Por esse ato de rebeldia, foi julgado pelo Conselho de Disciplina. Em 1888, desligou-se do Exército. Participou ativamente da propaganda republicana no jornal A Província de S. Paulo. Proclamada a República, foi reintegrado ao Exército recebendo promoção. Ingressou na Escola Superior de Guerra e conseguiu tornar-se primeiro-tenente e bacharel em Matemáticas, Ciências físicas e naturais. Casou-se com Ana Emília Ribeiro, filha do major Sólon Ribeiro, um dos líderes da proclamação da República. Em 1891, deixou a Escola de Guerra e foi designado coadjuvante de ensino na Escola Militar. Em 1893, praticou na Estrada de Ferro Central do Brasil. Durante a fase inicial da Guerra de Canudos, em 1897, Euclides escreveu dois artigos intitulados A nossa Vendeia que lhe valeram um convite d'O Estado de S. Paulo para presenciar o final do conflito como correspondente de guerra. Isso porque ele considerava, como muitos republicanos à época, que o movimento de Antônio Conselheiro tinha a pretensão de restaurar a monarquia e era apoiado por monarquistas residentes no país e no exterior. Em Canudos, Euclides adota um jaguncinho chamado Ludgero, a quem se refere em sua Caderneta de Campo. Fraco e doente, o menino é levado para São Paulo, onde Euclides entrega-o a seu amigo, o educador Gabriel Prestes. O menino é rebatizado de Ludgero Prestes. Euclides deixou Canudos quatro dias antes do fim da guerra, não chegando a presenciar o desenlace. Mas conseguiu reunir material para, durante cinco anos, elaborar Os Sertões: campanha de Canudos (1902). Os Sertões foi escrito "nos raros intervalos de folga de uma carreira fatigante", visto que Euclides se encontrava em São José do Rio Pardo liderando a construção de uma ponte metálica. O livro trata da campanha de Canudos (1897), no nordeste da Bahia. Nesta obra, ele rompe por completo com suas ideias anteriores e pré-concebidas, segundo as quais o movimento de Canudos seria uma tentativa de restauração da Monarquia, comandada à distância pelos monarquistas. Percebe que se trata de uma sociedade completamente diferente da litorânea. De certa forma, ele descobre o verdadeiro interior do Brasil, que mostrou ser muito diferente da representação usual que dele se tinha. Euclides se tornou internacionalmente famoso com a publicação desta obra-prima que lhe valeu vagas para a Academia Brasileira de Letras e para o Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro. Divide-se em três partes: A terraO homem e A luta. Nelas Euclides analisa, respectivamente, as características geológicas, botânicas, zoológicas e hidrográficas da região, a vida, os costumes e a religiosidade sertaneja e, enfim, narra os fatos ocorridos nas quatro expedições enviadas ao arraial liderado por Antônio Conselheiro. Em agosto de 1904, Euclides foi nomeado chefe da comissão mista brasileiro-peruana de reconhecimento do Alto Purus, com o objetivo de cooperar para a demarcação de limites entre o Brasil e o Peru. Esta experiência resultou em sua obra póstuma À Margem da História, onde denunciou a exploração dos seringueiros na floresta. Euclides partiu de Manaus para as nascentes do Purus, chegando adoentado em agosto de 1905. Prosseguindo os estudos de limites, escreveu o ensaio Peru versus Bolívia, publicado em 1907. Escreveu, também durante esta viagem, o texto Judas-Ahsverus, considerado um dos textos mais filosófica e poeticamente aprofundados de sua autoria. Após retornar da Amazônia, Euclides proferiu a conferência Castro Alves e seu tempo, prefaciou os livros Inferno verde de Alberto Rangel e Poemas e canções de Vicente de Carvalho. Visando a uma vida mais estável, o que se mostrava impossível na carreira de engenheiro, Euclides prestou concurso para assumir a cadeira de Lógica do Colégio Pedro II. O filósofo Farias Brito foi o primeiro colocado, mas a lei previa que o presidente da república escolheria o catedrático entre os dois primeiros. Graças à intercessão de amigos, Euclides foi nomeado. Após a morte de Euclides, Farias acabaria ocupando a cátedra em questão. A esposa de Euclides, conhecida como Anna de Assis, veio a tornar-se amante de um jovem cadete 17 anos mais novo do que ela chamado Dilermando de Assis. Ainda casada com Euclides, teve dois filhos de Dilermando. Um deles morreu ainda bebê. O outro filho era chamado por Euclides de "a espiga de milho no meio do cafezal", por ser o único louro numa família de morenos. Aparentemente, Euclides aceitou como seu esse menino louro. A traição de Anna desencadeou uma tragédia em 1909, ao que Euclides entrou armado na casa de Dilermando dizendo-se disposto a matar ou morrer. Dilermando reagiu e matou Euclides, mas foi absolvido pela justiça militar ao ser julgado. Entretanto, até hoje o episódio permanece em discussão. Dilermando mais tarde casou-se com Anna. O casamento durou 15 anos. O corpo de Euclides foi velado na ABL. O médico e escritor Afrânio Peixoto, que assinou o atestado de óbito, mais tarde ocuparia sua cadeira na Academia.
















Robespierre


Alma inquebrável – bravo sonhador
de um fim brilhante, de um poder ingente.
De seu cérebro audaz – a luz ardente
é que[?] gerava a treva do Terror...

Embuçada num lívido fulgor
su’alma colossal – cruel – potente
rompe as idades, lúgubre – tremente –
cheia de glórias, maldições e dor!

Há muito já que ela – soberba ardida
afogou-se – cruenta e destemida –
num dilúvio de luz – Noventa e três...

Há muito já que emudeceu na história
mas, ainda hoje a sua atroz memória
é o pesadelo mais cruel dos reis!...


***


Danton

Parece-me que o vejo – iluminado –
erguendo delirante a grande fronte –
de um povo inteiro o fúlgido horizonte
cheio de luz, de idéias constelado...

De seu crânio – vulcão – a rubra lava
foi que gerou essa sublime aurora –
noventa e três e a levantou sonora
na fronte audaz da populaça brava...

Olhando para a história – um séc’lo é a lente
que mostra-me o seu crânio resplandente
do passado através o véu profundo...

Há muito que tombou – mas inquebrável
de sua voz o eco formidável
estruge ainda na razão do mundo!...


***



Marat


Foi a alma cruel das barricadas...
Misto de luz e lama... se ele ria
As púrpuras gelavam-se e rangia
Mais de um trono se dava gargalhadas...

Fanático da luz... porém seguia
Do crime as torvas, lívidas pisadas –
Armava à noite aos corações ciladas –
Batia o despotismo à luz do dia...

No seu cér’bro tremendo negrejavam
Os planos mais cruéis e cintilavam
As idéias mais bravas e brilhantes.

Há muito que um punhal gelou-lhe o seio...
Passou... deixou na história um rastro cheio

De lágrimas e luzes ofuscantes...

RENATA PALLOTTINI (1931 - )


Renata Monachesi Pallottini é poetisa, romancista, contista, autora de literatura infantil e juvenil, dramaturga, tradutora, ensaísta, roteirista e professora. Estuda Direito na Universidade de São Paulo - USP e filosofia na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo - PUC/SP, formando-se, respectivamente, em 1951 e 1953. Ainda em 1951 começa a trabalhar como revisora na Tipografia Pallottini, de sua família, onde, no ano seguinte, quase manualmente, imprime seu primeiro livro de poemas, Acalanto. Ingressa no curso de artes cênicas da Escola de Arte Dramática da Universidade de São Paulo - EAD/USP. Forma-se em 1964 e dá início à carreira de docente, tradutora e estudiosa de teatro e televisão. Faz sua estréia na prosa de ficção com o livro de contos Mate é a Cor da Viuvez, de 1974, e dez anos depois lança seu primeiro trabalho para o público infantil, Tita, a Poeta. Em 1991, viaja a Cuba como professora visitante da Escuela Internacional de Cine y Television. Entre muitas de suas outras obras, destacam-se: Monólogo Vivo; Chocolate Amargo; Esse vinho vadio e A menina que queria ser Anja...











EM OBRAS DE MISTÉRIO

Entreguei minha infância em inversões de ócio.
(Eu disse: em inversões de ócio).
 A tristeza imensa e muda das paixões infantis!
Sequer cresci.
         Que grande diferença! Minha mão direita
mais de uma oitava.
         Hoje o piano é um rastro sob o pó.

Mas não diremos saudade o que é apenas melancolia
da tarde, sob o azul da tarde (o fim da tarde...)

Bebendo vitamina e não absinto,
sentindo um vago rumor longínquo e não o fim de tudo
(minuto degolado ao gume de um ponteiro).



***


FINAL


Eu te perdi como uma coisa irremediável.
Na luminosa e grave tarde eu te perdi.
Eras o único ser. E agora és sombra,
enquanto as longas ruas se incorporam
ao que do sonho resta.

Eras cilício e rosa,
mas nunca foste verdade.

Olha: o sol colhe retas pelo espaço,
meus dedos se projetam e estendem lâminas
onde se ferem meus pensamentos.

Perdi-te, e Deus não me reencontrou.
Quem sou não sabe de si mesmo, e assim prossigo,
pois te perdi e nada mais importa.

Lembra-te: mais um dia. O tempo cai
como folhas de aço, e uma, e outra...
Entre uma e outra a Hora te roubou
ao meu tempo interior.
                            Perdi-te
e fico, e nada me concedes,
nem coração, nem mesmo alguma vida...

Tu chegas pelo trem de nunca-e-meia
e eu sempre de partida,
de partida!



***




LAMENTAÇÃO DOS FILHOS


Do infinito nascemos
para um termo preciso.
De infindas, as penas,
de vago, o aviso.

Nados mornos, frágeis,
de entre dois gemidos.
Quando a morte, a eterna?
Quando o Conhecido?

Que isto já nos cansa,
a nós, os malformados,
desde a distante infância
frutos destinados.

Somos os que a vida
fez limite amargo.
De infindas, só as penas,
de vago, o aviso vago.

sábado, 14 de março de 2015

ANTONIO NAHUD (1972 - )

Nasceu nas Terras do Sem Fim, em Itabuna. Teve forte influência do espírito cultural do dos anos oitenta (poesia, rock, MPB, teatro experimental, cinema independente, política, pop-art, literatura marginal). Iniciou-se na literatura aos quatorze anos, ganhando prêmios literários e publicando onze livros, entre eles “O Aprendiz do Amor” (1993), “Ficar Aqui Sem Ser Ouvido Por Ninguém” (1998), “ArtePalavra – Conversas no Velho Mundo” (2003), “Um Sentido para a Vida – Uma Biografia de Diógenes da Cunha Lima” (2004), “Se Um Viajante Numa Espanha de Lorca” (2005), “Suave é o Coração Enamorado” (2006), “Livro de Imagens” (2009) e “Pequenas Histórias do Delírio Peculiar Humano” (2012). Viajou meio-mundo, morando doze anos na Europa e atuando como correspondente dos jornais Folha de S. Paulo, A Tarde (BA) e O Tempo (MG). Entrevistou muitas personalidades, entre elas quatro prêmios Nobel de Literatura. Colaborou com revistas brasileiras (Cult, Continente Multicultural etc.), portuguesas (Focus, Veludo etc.) e espanholas. Publicou três livros em Portugal. Foi repórter da TV Manchete, assessor de comunicação da Petrobrás, produtor de peças e shows. Trabalhou em campanhas políticas, apresentou e dirigiu o programa de TV “Fina Estampa”. Participou de encontros literários, feiras e bienais no Brasil e na Europa. Mora em Natal, no Rio Grande do Norte, há cinco anos, onde atua como assessor de comunicação, produz atividades culturais diversas, edita a revista “Ícone – Turismo & Cultura no Nordeste” e os blogues www.ofalcaomaltes.com  (cinema clássico) e www.cinzasdiamantes.blogspot.com  (literatura e outras artes). Em 2012, recebeu o Título de Cidadão Natalense. Em 2013, seu “Pequenas Histórias do Delírio Peculiar Humano” ganhou o Troféu Cultura de Melhor Livro do Ano publicado no Rio Grande do Norte. 











A UM DEUS AZUL


Viajei de carro e de comboio, de navio,
de avião, e com meus benditos pés.
Continentes, planaltos, desertos.
Dormindo sobre fendas e abismos
com as feras a rondar a poesia
à vastidão da dor e da esperança.
Verão de aventura, amor, rebeldia,
nas águas profundas do nordeste.
Ao deus azul da juventude,
ergo a bandeira da liberdade
que ainda hoje reverencio.


***




OLHARES QUE AMO


Olhares são marés vivas
que cintilam no mundo.
Alguns há que assustam.
Outros, tão frágeis, suaves,
duram marcas profundas
na grande arena da vida.
São esses raros, delicados,
que amo.



COISAS


Reúno fragmentos de coisas.
Coisa é uma lua cheia,
os lugares e dias de sol e chuva,
contos de fadas e de dragões,
a solidão e monstros inquietos,
o rompante da natureza,
o silencio, o que nasce de nós,
perto, ao redor e tão longe.
Coisa como o êxtase dos versos de Hilda Hilst,
como um colar que se quebra,

pérolas tilintando a rolar pelo chão da delicadeza.