sexta-feira, 3 de julho de 2015

LEONOR SCLIAR-CABRAL (1929 - )

Leonor Scliar-Cabral nasceu em PortoAlegre, capital do Rio Grande do Sul. É doutora em Lingüística pela Universidade de São Paulo. Estudou fonoaudiologia e lecionou diversos cursos pedagógicos. Em 1991 foi eleita, na Universidade de Toronto, presidenta da Sociedade Internacional de Psicolingüística Aplicada. Foi presidente da União Brasileira de Escritores de Santa Catarina. Participa da construção de um banco de dados sobre a língua portuguesa. Entre muitas de suas obras publicadas: Sonetos (Florianópolis: NoaNoa, 1987); Romances e Canções Sefarditas  (São Paulo: Massao Ohno, 1990);  Memórias de Sefaradoutro (Florianópolis: Athanor, 1994); De Senectute Erotica (São Paulo: Massao Ohno, 1998, edição bilíngüe com trad. francesa por Marie-Hélène Torres); Poesia Espanhola do Século de Ouro (Florianópolis: Letras Contemporâneas, 1998); “O outro, o mesmo” (trad. poética, In J.L. Borges, Obra Completa, São Paulo: Globo, 1999); Cruz e Sousa, o poeta do desterro (versão poética para o francês com Marie-Hélène Torres das legendas do filme de Sylvio Back, Rio de Janeiro: Sete Letras, 2000) e O sol caía no Guaíba, Porto alegre: Bestiário, 2006. Prepara a publicação em 5 línguas dos sonetos Sagração do alfabeto. 





ZÁYIN


Defrontam-se os guerreiros na batalha
entre a tese e a antítese, entre o bem
contra o mal, entre o apoio e o desdém,
paralelas opostas por navalhas

que desferem os golpes e retalham
as hostes inimigas e detêm-se
diante da diagonal enfim refém
das pontas sobrepostas que a entalham.

Durante sete luas pelo obscuro
mar, a quilha fenícia o reversível
traçado vacilante e inseguro

vai semeando com os dedos espalmados:
só o que a pupila vê, o inacessível
e sua infinita tela descartados.


***


 
CHET


Barreira, muro ou grade, dominó,
tu abafas a voz subentendida
da qual depende a concha escolhida
para ouvir. Amordaça-nos o agora,

prisioneiros que somos como Jó
dos espaços estreitos, da guarida
sem futuro, da ação sempre impedida
pelos braços atados. O algoz

é o relógio imutável do mutismo,
condenando-a à prisão de ser silente
ou de ser a vassala do grafismo

da letra precedente. Garroteados,
só o porvir liberta essa torrente
subterrânea e o fogo represados.


***


SHAVOUT EM GRANADA


Teus pés pequenos sobem alamedas
pelos jardins de Alhambra e suas roseiras
antes que a lua cheia.

Romãs maduras pendem do teu cesto
e dos vinhedos cachos de uvas frescas,
antes que a lua cheia.

Com a perfumada flor de laranjeira
ornarás de guirlandas as estrelas
antes que a lua cheia

e as campinhas soem suas bênçãos
e o Rabi Yosef já comece a ler
antes que a lua cheia.

Antes que tinta em sangue a lua cheia
estanque essa fonte para sempre
de uma inconclusa e eterna fortaleza.


ARAYLTON PÚBLIO (1965 - )



Araylton Públio é natural de Urandi, Bahia, mas há muito fincou suas raízes em Feira de Santana, onde se licenciou em Letras com Inglês e fez mestrado em Literatura e Diversidade Cultural, na Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS) e atua como professor. Para falar a verdade, Araylton é um artista de múltiplas faces. Há muito vem atuando como dramaturgo, diretor teatral e ator. Seus palcos: Feira de Santana e São Paulo. Paralelamente, jamais deixou de fazer suas incursões no terreno da poesia. Publicando sempre em jornais e revistas, e em seus livros, cujos principais títulos são Trovadores (Edições MAC, 2007); Sinais de transe (Edições MAC, 2007) e Canção dos corações foragidos (Salvador: Secretaria de Cultura e Turismo do Estado da Bahia, Fundação Cultural do Estado da Bahia, EGB, 1998.). 





SE É QUINZE DE NOVEMBRO...


Se troveja Deus está zangado
Se cai um garfo é uma mulher chegando
Estou cá no meu quarto escrevendo poemas
Que são borboletas que rapto

Uma amarela e preta aparece-me desde a infância
Uma fada sorrateira que contemplo em paciência

Se estou triste é porque sou Cristo
Se penso muito e pouco faço, não existo
Sou a metáfora alojada em mim
De asas pretas e amarelas...
Revoando enlouquecida


***


 
AI CAI


Troveja sobre nós
O céu se movimenta
Em caravelas azuis

Um instante de luz quebra o espaço
A chuva a cair sobre nós
Cai, cai, o tempo
Estamos a sós

A carruagem do destino que nos carrega
Está sem cocheiro


***


 
A CHEIA


Posta no olho do céu de prata
Lua enche os olhos d'água
Fica cheia a madrugada
Com pingos de estrelas pelas portas

A sete mil distâncias de mim
Mar de prata estancado
A grande chuva já se foi
Firmamento do espelho invertido

Uma estrela te segue
Ouço a tua derrama por dentro
Posta no centro do mar sedentário
Em ti eu saio, e me encho


WALQUÍRIA RAIZER (1980 - )

Walquíria Raizer é acreana, graduou-se em Ciências Sociais pela Universidade Federal do Acre e especializou-se em Jornalismo Político pelo Centro Educacional Uninorte. Devido ao  engajamento pessoal com as manifestações culturais, tem o histórico profissional voltado para a política cultural. Defende a poesia como matéria-prima de todas as artes. Publicou O segundo ponto das reticências, em 2007.












RETICÊNCIAS


vou escrever qualquer coisa
que não pareça
nada
( ! )
esse tudo
é mesmo
o que
(devasta)



***



KATAUÊ


O miolo dentro da casca
(pão)

O miolo dentro
( da casca)

A casca virando

O miolo
O miolo
Miolo

Poderia
Correr
Sem
Léguas
(cem)

Um colar de castanha elétrica
Uma flor amarela
Muru

(estou tão acremente despida hoje que o açai perdeu a cor)



***


ACELERAÇÃO



...é como se tudo tivesse
girando
Um giro calmo
(e calculado)

Um giro bom
(pro mundo)

Mas o mundo
(é grande)
E não precisa de mim
( e de ti)

Mas eu, querida
Eu preciso do mundo
E ele está aí
(flertando)
        


domingo, 14 de junho de 2015

NÍSIA FLORESTA BRASILEIRA AUGUSTA [DIONÍSIA GONÇALVES PINTO] (1810-1885)


Filha do português Dionísio Gonçalves Pinto com uma brasileira, Antônia Clara Freire, nasceu em uma pequena cidade do Rio Grande do Norte, tendo sido foi batizada como Dionísia Gonçalves Pinto. No entanto, ficaria conhecida pelo pseudônimo de Nísia Floresta Brasileira Augusta. Floresta, o nome do sítio (fazenda) onde nasceu. Brasileira é o símbolo de seu ufanismo, uma necessidade de afirmação da nacionalidade de quem vivera quase três décadas na Europa. Augusta é uma recordação de seu segundo marido, Manuel Augusto de Faria Rocha, com quem se casou em 1828, pai de sua filha Lívia Augusta. Em 1828, o pai de Nísia havia sido assassinado no Recife, para onde a família havia se mudado. Em 1831 publica em um jornal pernambucano (Espelho das brasileiras) uma série de artigos sobre a condição feminina. Do Recife, já viúva, com a pequena Lívia e sua mãe, Nísia vai para o Rio Grande do Sul onde se instala e dirige um colégio para meninas. O início da Guerra dos Farrapos interrompe seus planos e Nísia resolve fixar-se no Rio de Janeiro, onde funda e dirige os colégios Brasil e Augusto, conhecidos pelo alto nível de ensino. Em 1849, por recomendação médica leva sua filha que havia se acidentado gravemente, para a Europa. Ali permaneceu por um longo tempo, morando a maior parte do período em Paris. Em 1853, publicou Opúsculo Humanitário, uma coleção de artigos sobre emancipação feminina , que foi merecedor de uma apreciação favorável de Auguste Comte, pai do Positivismo. Esteve no Brasil entre 1872 e 1875, em plena campanha abolicionista liderada por Joaquim Nabuco, mas quase nada se sabe sobre sua vida nesse período. Retorna para a Europa em 1875 e em 1878 publica seu último trabalho Fragments d’un ouvrage inédit: Notes biographiques. Nísia morreu de pneumonia e foi enterrada no cemitério de Bonsecours. Em agosto de 1954, quase setenta anos depois, os despojos foram levados para sua cidade natal, que já se chamava Nísia Floresta. Primeiramente foram depositados na igreja matriz, depois foram levados para um túmulo no sítio Floresta, onde ela nasceu. A Empresa Brasileira de Correios e Telégrafos marcou a data com o lançamento de um selo postal. Direitos das mulheres e injustiça dos homens, primeiro livro escrito por ela, e o primeiro no Brasil a tratar dos direitos das mulheres à instrução e ao trabalho, inspirado no livro da feminista inglesa Mary Wollstonecraft: Vindications of the Rights of Woman. Nísia não fez uma simples tradução, ela se utiliza do texto da inglesa e introduz suas próprias reflexões sobre a realidade brasileira. Não é, portanto, o texto inglês que se conhece ao ler estes Direitos das mulheres e injustiça dos homens. Nesta tradução livre, temos talvez o texto fundante do feminismo brasileiro, se o vemos como uma nova escritura, ainda que inspirado na leitura de outro. Foi esse livro que deu à autora o título de precursora do feminismo no Brasil e até mesmo da América Latina, pois não existem registros de textos anteriores realizados com estas intenções, mas ela não parou por ai, em outros livros ela continuará destacando a importância da educação feminina para a mulher e a sociedade. São eles: Conselhos a minha filha, de 1842; Opúsculo humanitário, de 1853; A Mulher, de 1859. Em seu livro Patronos e Acadêmicos - referente às personalidades da Academia Norte-Riograndense de Letras, Veríssimo de Melo começa o capítulo sobre Nísia da seguinte maneira: “Nísia Floresta Brasileira Augusta foi a mais notável mulher que a História do Rio Grande do Norte registra”.
















AQUI SOB ESTA ABÓBODA


Aqui sob o zimbório, onde um santo viveu,
Eu cismo sobre o nada... E a lama entristeceu...
E vem-me ao coração, assim, desiludido,
Santa recordação do meu filho querido...
A lembrança dos meus é orvalho enluarado
Suavizando o calor do meu peito abrasado.
Da vida no espinhal, de minha mãe a imagem
É perfume de flor, é verde de ramagem...
Branca e doce visão aos pés do altar pendida,
Intercedendo aos céus pela filha dorida,
Que chora de amargor, ante o vício e o pecado,
Enquanto escuta da alma um som nunca estudado...
Brando e divino som, que ao coração me vem
Como réstias do sol, como um sopro do Bem...
Seria a tua prece, ó mãe, o teu cicio
Que em mim repercutindo, eu sinto que alivio?
Deus fazendo vibrar seráfica oração,
Harmonia do céu, dentro do coração?
Ó mãe, esposo e pai, ó trindade primeira,
Que eu recordo, entre o crepe e a flor da laranjeira,
Como estrelas brilhando em rosários de luz,
Um clarão derramai aos pés da minha Cruz!...


***


Improviso
                                              ao distinto literato e grande poeta
                                                     Antônio Feliciano de Castilho

 Vate sublime, que os primeiros sonhos 
Da juventude minha hás embalado, 
Quando às margens do fresco Beberibe 
Os teus primores d’arte eu decorava 
Às ilusões entregue dessa idade, 
Em que os risos de amor tanto seduzem! 
Tu nos deixas enfim! e as plagas nossas 
Ao verem-te sair gemem saudosas; 
Gemem os corações dos brasileiros, 
Que como meu reter-te não puderam 
Nesta terra que ufana te incensara 
Se o gênio aqui tivesse um templo seu! 
Inclina triste a fronte, ó pãor-de-açúcar, 
Ao poeta que passa! ao gênio deve 
A matéria imponente assim curvar-se. 
Embalde indiferente ela se ostente, 
A grande inteligência, que mar afora 
Lá se vai!...nos corações nossos deixando 
Da pungente saudade a dor acerba! 


***


A Lágrima de um Caeté

(Fragmento)




Lá quando no Ocidente o sol havia
seus raios mergulhado, e a noite triste
denso ebânico véu já começava
vagarosa a estender por sobre a terra;
pelas margens do fresco Beberibe,
em seus mais melancólicos lugares,

azados para a dor de quem se apraz
sobre a dor meditar que a Pátria enluta!

Vagava solitário um vulto de homem,
de quando em quando ao céu levando os olhos
sobre a terra depois triste os volvendo...
Não lhe cingia a fronte um diadema,
insígnia de opressor da humanidade...
armas não empunhava, que os tiranos
inventaram cruéis, e sob as quais
sucumbe o rijo peito, vence o inerte,
mata do fraco a bala o corajoso,
mas deste ao pulso forte aquele foge...
caia-lhe dos ombros sombreados
por negra espessa nuvem de cabelos,
arco e cheio carcaz de simples flechas:
adornavam-lhe o corpo lindas penas
pendentes da cintura, as pontas suas
seus joelhos beijavam musculosos
em seu rosto expansivo não se viam
os gestos, as momices, que contrai
a composta infiel fisionomia
desses seres do mundo social,
que devorados uns de paixões feras,
no vício mergulhados falam outros
altivos da virtude, que postergam
de Deus os sãos preceitos quebrantando!
Orgulhosos depois... ostentar ousam
de homem civilizado o nome, a honra!...

(...)

Era um homem sem máscara, enriquecido
não do ouro roubado aos iguais seus,
nem de míseros africanos d'além-mar,
às plagas brasileiras arrastados
por sedenta ambição, por crime atroz!
Nem de empregos que impudentes vendem,
a honra traficando! o mesmo amor!!
Mas uma alma, de vícios não manchada,
enriquecida tinha das virtudes
que valem muito mais que esses tesouros.
Era da natureza o filho altivo,

tão simples como ela, nela achando
toda a sua riqueza, o seu bem todo...
O bravo, o destemido, o grão selvagem,
o Brasileiro era... - era um Caeté! -
era um Caeté, que vagava
na terra que Deus lhe deu,
onde Pátria, esposa e filhos
ele embalde defendeu!...

(...)

Ó terra de meus pais, ó Pátria minha!
Que seus restos guardando, viste de outros
longo tempo a bravura disputar
ao feroz estrangeiro a Pátria nossa,
a nossa liberdade, os frutos seus!...
Recolhe o pranto meu, quando dispersos
pelas vastas florestas tristes vagam
0s poucos filhos teus à morte escapos,
ao jugo de tiranos opressores,
que em nome do piedoso céu vieram
tirar-nos estes bens que o céu nos dera!
As esposas, a filha, a paz roubar-nos!...
Trazendo d' além-mar as leis, os vícios,
nossas leis e costumes postergaram!
Por nossos costumes singelos e simples
em troco nos deram a fraude, a mentira.
De bárbaros nos dando o nome, que deles
na antiga e moderna História se tira. 


RIBEIRO PEDREIRA (1978 - )

Luiz Eduardo Ribeiro Pedreira nasceu em Santo Amaro. Apesar de ter passado boa parte de sua vida no município de Feira de Santana, com seus pais (também santamarenses), sempre manteve laços afetivos muito fortes com a sua terra natal, onde tem familiares e amigos.  Publicou seu primeiro livro de poemas, Saveiros de Papel, em 2015, pela Editora Mondrongo. Foi co-fundador do extinto grupo de recital Inéditos & Dispersos, com o qual gravou um disco de poemas escritos por poetas conterrâneos. Teve alguns de seus versos publicados, também, nos periódicos O Ataque (impresso e virtual) e O Trombone, ambos de Santo Amaro. Além de poeta é letrista de música popular, ainda inédito e tem canções em parceria com Paulo Gabiru, Hélio Braz, Márcio Valverde e Milton Primo, dentre outros. 








Augusto

à memória do Tio Gugu





Partiu como quem sagrara o fim
no aceitar das dores.

Acertara os ponteiros do tempo
pelas intensidades de existir

e qualquer descuido
foi mera consistência
dos passos havidos.

Para não tropeçar nas pedras
levava no bolso alguma geologia...

mas dessa vez foi tão rápido
que acabou deixando a saudade.




 ***





Pequeno tratado sobre a inveja



Hoje eu descobri
que a inveja envelhece.

Só que as rugas aparecem
não na pele, mas no olhar.




 ***


  

Soterópolis



O que me toca na Cidade da Bahia
é a contradição do centro antigo
e o que não existe mais.



CARLOS NEJAR (1939 - )

Luiz Carlos Verzoni Nejar nasceu em Porto Alegre, Rio Grande do Sul. É tradutor, advogado, promotor e procurador de justiça aposentado e, principalmente, poeta. O seu primeiro livro de poemas, Sélesis, foi lançado em 1960 e hoje conta com mais de 30 títulos, além de romances: Um certo Jaques Netan (1991), O túnel perfeito (1994), Carta aos loucos (1998), ensaios diversos e até literatura infanto-juvenil: O Menino-rio (1985), Era um vento muito branco (1987), A formiga metafísica (1988), Zão (1989), Grande vento (1997). Participou de inúmeras antologias e coletâneas de poesias e tem sua obra traduzida para diversos idiomas. Em 1989, entrou na Academia Brasileira de Letras, ocupando a cadeira de seu conterrâneo Vianna Moog. Na condição de promotor de justiça, viajou por todo o interior do Rio Grande do Sul, conhecendo palmo a palmo o pampa que avulta na sua visão poética. Participou de vários congressos e eventos internacionais de poesia. Entre alguns de seus principais livros de poesias, encontram-se: O campeador do vento (1966), Danações (1969), Ordenações (1971), Casa dos arreios (1973), O poço do calabouço (1974), A árvore do mundo (1977), Os viventes (1979), Livro de gazéis (1984), A genealogia da palavra (1989), Amar, a mais alta constelação (1991), Simon vento Bolívar (1993), Arca da aliança (1995), Sonetos do paiol, Ao sul da aurora (1997) e O poço dos milagres (2005), obra em prosa não bem recebida pela crítica. 









Abandonei-me ao vento...

 

Abandonei-me ao vento. Quem sou, pode
explicar-te o vento que me invade.
E já perdi o nome ao som da morte,
ganhei um outro livre, que me sabe

quando me levantar e o corpo solte
o meu despojo vão. Em toda parte
o vento há-de soprar, onde não cabe
a morte mais. A morte a morte explode.

E os seus fragmentos caem na viração
e o que ela foi na pedra se consome.
Abandonei-me ao vento como um grão.

Sem a opressão dos ganhos, utensílio,
abandonei-me. E assim fiquei conciso,
eterno. Mas o amor guardou meu nome.



***



Soneto aos sapatos quietos



Os pés dos sapatos juntos.
Hei-de calçá-los, soltos
e imensos, e talvez rotos,
como dois velhos marujos.

Nunca terão o desgosto
que tive. Jamais o sujo
desconsolo: estando postos,
como eu, em chãos defuntos.

Em vãos de flor, sem o riacho
de um pé a outro, entre guizos.
Não há demência ou fome.

Sapatos nos pés não comem.
Só dormem. Porém, descalço
pela alma, o paraíso. 

 

***



Aos amigos e inimigos 


De amigos e inimigos 
fui servido, 
agora estamos unidos, 
atrelados ao degredo. 

Nunca fui o escolhido 
onde os deuses me puseram. 
Nem sou deles, sou de mim 
e dos íntimos infernos. 

Não. 
Não me entreguem aos mortos, 
os filhos que me pariram 
e plasmei com meus remorsos 
no seu mágico convívio. 

De amigos e inimigos 
fui servido 
e com tão finada vida 
e alegados motivos, 
que ao dar por eles, já partira 
e quando dei por mim, não estava vivo. 
 


sexta-feira, 8 de maio de 2015

MARIA DA CONCEIÇÃO PARANHOS (1944- )

Baiana de Salvador, a poetisa Maria da Conceição Paranhos publica desde o final dos anos 60, tanto em edições solo como participante de coletâneas. Em 1969, ela conquistou o prêmio Arthur Salles com seu livro de estréia em poesia,Chão Circular. Formada em letras, é doutora em teoria da literatura e também escreve ensaios e contos. Em 1967, ao lado de nomes como Myriam Fraga, Ruy Espinheira Filho, Antonio Brasileiro e Florisvaldo Mattos, participou da antologia Moderna Poesia Bahiana [sic], publicada pelas Edições Tempo Brasileiro. Para o crítico Carlos Machado: “Maria da Conceição desenvolve um lirismo centrado na reflexão sobre a vida, o passar do tempo os acidentes do amor, a insônia, a convivência difícil. Os poemas aqui selecionados pertencem ao livro As Esporas do Tempo, de 1996. 






ESCUTA



Ocorre que há uns lapsos na história,
há uns lapsos. Então vêm, videntes,
relatar histórias conhecidas
em noites longas de calor, insônia.
Ouvimos. Pacientemente.
Sob discursos jazem outras vozes.

Necessário cantar.
Animais se aninham ao nosso ânimo,
baixam seu brado à espera da canção.
E os leões de pedra dos portões
deixam rolar os globos que os sustentam.

Falamos línguas obscenas.
Não. Endureceu-se o ouvir.
Indefinidamente?
Afrontar a rija espada dos confrontos,
permitir soluções, se o peito arfa
curvado de rajadas imprudentes.
Se não se deixa a alma nesses lances
em que transidos vagamos dementes,
como afrontar as rugas, decifrar mensagens
(não correm ventos nas paisagens mortas,
largadas ao relento)?

Necessário é amar.
Primeiro e último tormento.


***



ILHA ILUMINADA


A vida surge rara,
ressurge das fenestras,
uma explosão contida,
um girassol sedento
imóvel na moldura.
Vigiam olhos d’água —
aberto azul turquesa,
piscina de desejo
a refletir o alto.

Cá dentro, hospital,
o choro dos nascidos.
Também meu ventre abriu-se,
menino, numa rosa.
De bruços na varanda,
medito e reencontro
um corpo tumescido,
a face repartida
nos ritos da espécie
e sua garra firme
e minha solidão.

Retomo minha voz:
embargo, engasgo,
tosse, difícil
redenção.

Suor, em fio, escorre
da sede de voar.
Janela tão pequena,
qual ilha iluminada,
afronta a escuridão
dos blocos, argamassa,
em fila, ameaça.

Eu grito, de paixão.



***




DESVELANDO O TEMPO


Ocultem os outros
a palavra tempo
em poemas curtos
com tal tema, centro.

A palavra tempo
deve ser usada
tantas vezes quanto
impuser nossa alma.

A palavra tempo
descerra suas portas
de argila e de vento,
suas linhas tortas.

Escrever o tempo
permite retornos:
ligeiros transtornos,
fugaz contratempo.

Porque tempo, tempo,
tempo passa, corre;
se você não dorme,
ele pára, lento.

Importa saber
com visão preclara
o que quer dizer
o tempo, que exala.


FELIPE D'OLIVEIRA (1891-1933)

Nasceu em Santa Maria da Boca do Monte, Rio Grande do Sul. Com Marcelo Gama, Zeferino Brasil, Álvaro Moreyra, Alceu Wamosy e outros, integrou o grupo simbolista do Rio Grande do Sul (o Simbolismo surge neste Estado em 1902, com via sacra, de Marcelo Gama). Embora tenha dialogando com o Modernismo, Felipe d'Oliveira, segundo Regina Zilberman, "permanece sobretudo um criador simbolista" que dá ênfase "à manifestação de uma temática marcada pela carência de conciliação existencial com a circunstância social e a vida pública, determinando a anulação destas em termos de representação literária". Algumas de suas principais obras poética são Vida extinta (1911) e Lanterna verde (1927).






O salto da morte


A melodia murmura
à porta do rancho
derrama uma alma
na paisagem viva
e a paisagem viva
inspira e expira
o ar fino da noite
pelos brônquios sonoros
da gaita monótona.

Os sapos calaram
e escutam, pensando
que a Mãe-d'Água dos sapos
está cantando perto
no brejo da charneca
entre os nenúfares.

Os bois sonolentos
descerrando lentos
os olhos tímidos
olham o campo longo
batido de luar
e pasmam de já ser
autora pois luz melodiosa
eles entendem o dia só
quando o sol acorda
a voz dos pássaros
adormecidos.

A gaita monótona
insufla um hálito
de pulmão humano
no ar que trescala
na noite clara.

As frondes das árvores
movem o gesto que marca
compasso como cabeças
atentas à orquestra.
As duas janelas ladeando
a porta do rancho
calmo têm a doçura
dos olhos ingênuos
e sorriem no ouro
das candeias que enchem
de ouro fluido
a sala caiada.

E da trepadeira
posta em mantilha
sobre o teto de sapé
sobe o cheiro morno
do jasmim branco
que a música faz
mais tépido
 como um perfume
sobre a pele.

A gaita monótona
alonga o perfume
na noite oblonga
e a claridade unânime
é luar e perfume
dissolvidos na música.

Súbito, um acorde
mais cheio, mais forte,
soprado em ofego
ressoa e se cala
até o fim do espaço,
no fim da paisagem.
Só o luar vazio
persiste sobre
a terra estática...

E, dentro do luar,
pênsil dos astros,
fica oscilando,
compassado,
o silêncio noturno,
como um trapézio
balançado de onde
rolou para morrer
no tombo trágico
o saltimbanco atônito.



***


ENCRUZILHAMENTO DE LINHAS


Núcleo de convergência no bojo da noite oval.
Lanterna Verde
(amêndoa fosforescente
dentro da casca carbonizada)

Longitudinal, centrífugo,
o trem racha em duas metades
a  espessura do escuro
e, cuspindo pela boca da chaminé
as estrelas inúteis à propulsão,
atira-se desenfreado
nos trilhos livres.

Mas se o maquinista fosse daltônico
a locomotiva teria parado.

        
***

 
O Epitáfio que não foi Gravado



Todos sentiram quando a morte entrou
com um frêmito apressado de retardatária.
A que tinha de morrer, — a que a esperava, —
fechou os olhos
fatigados de assistirem ao mal-entendido da vida.

Os que a choravam sabiam-na sem pecado,
consoladora dos aflitos,
boca de perdão e de indulgência,
corpo sem desejo,
voz sem amargor.

A que tinha de morrer fechou os olhos fatigados,
mas tranquilos...
Porque os que a choravam nunca saberiam
o rancor sem perdão de sua boca,
o desejo saciado de seu corpo,
o amargor de sua voz,
a sua angustia de arrastar até o fim a alma postiça que lhe
                                                                  [fizeram,
o seu cansaço imenso de abafar, secretos, na carne ansiosa,
a perfeição e o orgulho de pecar.

A que tinha de morrer fechou os olhos para sempre
e os que a choravam
nunca souberam de alguém que foi de todos junto ao leito
                            [à hora do exausto coração parar
o mais distante,
o mais imóvel,
o que não soluçou
o que não pôde erguer as pálpebras pesadas,
o que sentiu clamar no sangue o desespero de sobreviver,
o que estrangulou na garganta o grito dilacerado do solitário,
o que depós, sobre a serenidade da morte purificadora,
a redenção do silêncio,
como uma pedra votiva de sepulcro.








EMMANUEL SANTIAGO (1984 - )


Emmanuel Santiago é mineiro de São Lourenço. Poeta e crítico literário, é autor de Pavão bizarro (poesia) e A narração dificultosa (crítica).






Origami

a Tati A. Toumouchi



De papel de seda finíssimo,
fiz teu corpo: fibra a fibra
modelado na pétala, forma
de pura textura e volume.

Sobre a límpida e mínima
película, moldei teus seios
em torneios e volutas,
lívidos torvelinhos,

e os dedos se dedicaram
a cada minúcia sinuosa
na delicada dobradura do
sexo, desdobrando lábios
em abismos, labirintos.

Assim te concebo: nua
e toda nuances, criada
da lâmina de sal e espuma
do mar, como as ondas,

que se espiralam peroladas
durante a queda (tens
a idêntica consistência
de uma onda do mar).



***





Soneto filosofante com chavão de ouro



Bem já dizia o sábio Salomão:
é vaidade, vaidade das vaidades,
tudo que ao peito humano persuade
a tanto esforço inútil, nulo e vão,

pois, que de teu suor, não restarão
os frutos, nem o pó, sequer saudade;
tudo se perde e, tão logo se evade,
deixa para trás uma atroz lição:

nada fica, nem fama, nem dinheiro,
nem há, no mundo inteiro, o que persista;
os últimos igualam-se aos primeiros,

anulam-se as derrotas e as conquistas,
que, nesta vida, é tudo passageiro,
exceto o cobrador e o motorista.


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Sonho recorrente
ou seis passos para um poema surrealista


Assim se sucedeu naquele sonho:
era noite quando uma jovem moça
perguntava-me as horas. Eu lhe disse:
“Não sei não, senhorita, mas é tarde;
não há ninguém na rua, não há nada”.
Ela, então, deu um tiro na cabeça.

Era noite de novo; na cabeça
a sensação de estar vivendo um sonho
como se caminhasse sobre o nada.
Chegou-se a mim aquela jovem moça:
“Morri, ressuscitei; é muito tarde.
Mate-me agora mesmo!”, ela me disse.

Era de noite quando alguém me disse:
“Veja só, estourei minha cabeça
e não posso emendá-la, pois é tarde!”,
e tudo se passava como num sonho.
Diante de mim, aquela jovem moça
estava morta; não dizia nada.

De noite outra vez, não se via nada.
Do escuro, soou uma voz que disse:
“Não se esqueça daquela jovem moça
que levou um balaço na cabeça!”.
Lembrei-me vagamente de algum sonho,
mas não pude retê-lo. Era tarde.

De noite. Muito escuro. Muito tarde.
Já não me lembro mais de quase nada
e vejo as coisas turvas, feito um sonho.
Só sei que certa vez alguém me disse:
“Cuidado! Não atire na cabeça!”.
No chão, jaz o cadáver de uma moça.

Percebo-me: sou uma jovem moça
andando por aí — tarde, bem tarde.
Estou morta e não tenho mais cabeça;
nas mãos, trago um revólver e mais nada.
“Não há ninguém na rua”, alguém me disse.
Não sei se sou real nem sei se sonho.

        É sempre o mesmo sonho, a mesma moça,
        algo que alguém me disse muito tarde,

        um tiro e só. Mais nada na cabeça.