segunda-feira, 3 de novembro de 2014

JORGE DE LIMA (1893-1953)... E OS 100 ANOS DO LIVRO "XVI ALEXANDRINOS"...

Jorge de Lima, sobre óleo de Portinari, 1937 (coleção particular)





Destinado a pequenas notas de livros didáticos criminosos, pondo-o como um poeta menor e sem interesse, e que chegam às mãos de milhões de alunos de todo o Brasil, limitando-o apenas a uma Negra Fulô insípida, Jorge Mateus de Lima (1893-1953) é, ao lado de Carlos Drummond de Andrade e Manuel Bandeira, considerado por muitos, um dos poetas mais representativos de todo o Modernismo Brasileiro.

Mas, ao contrário dos outros dois, sua poesia é, sem sombras de dúvidas, a mais intelectual e a mais profundamente formal de todo o século XX, igualando-se apenas a Fernando Pessoa, em Portugal, e ao Bruno Tolentino, aqui, no Brasil.

Todavia, passados mais de 60 anos de sua morte, nem um grande poeta foi tão boicotado, tanto na influência, como em sua importância, quanto este alagoano de União, e a crítica literária brasileira dos últimos 50 anos, medíocre e despreparada – com raríssimas exceções, é claro – tem sido, segundo César Leal (um dos que fazem parte das exceções), em seu maravilhoso Os cavaleiros de Júpiter, a principal responsável por tal desprezo, pois muito mais interessados com os processos econômico-sociais do País, deslocam todo o seu interesse àqueles autores que, imbuídos de semelhante pensamento, têm sua participação mais intensa nesta “tomada de posição”, cujo resultado não poderia ser outro, senão um barbarismo estilístico parasitário que só o pensamento marxista poderia construir, o qual, infelizmente, tem sido a face mais conhecida não só de nossa crítica literária, mas de todo o “pensamento intelectual” brasileiro até os dias de hoje.

Jorge de Lima, maior do que tudo isso, produz uma desdobrável visão da realidade, que é uma função essencial de todo grande poeta, realizando o milagre da fusão temporal, embora sinta a necessidade sempre urgente de transcrevê-lo, no dizer de Murilo Mendes, produzindo uma poesia do Espírito, no sentido mais autêntico do termo. Por estas razões, também, que não é de estranhar que os nossos críticos comunistas e os ditos poetas que nunca fizeram um soneto (não pelo facto de não gostarem, mas pela incapacidade de fazê-lo) sejam incapazes de compreender uma poesia elegante e de tão grande alcance intelectual como a de Jorge de Lima.

Sabendo que o Cristianismo, principalmente o Cristianismo Católico Europeu, está na essência mesma da Cultura Brasileira e que a Bíblia nada mais é do que o principal Mito Fundador da Cultura Ocidental, Jorge Mateus de Lima é para Literatura Brasileira, um pilar fundamental e, por isso mesmo, indispensável, na compreensão não só de a nossa cultura, mas do muito de tudo aquilo que a antecede, pois o bardo alagoano nada mais é que uma síntese de toda a Literatura Universal, além de ser um dos poetas brasileiros que, logicamente, melhor compreendeu Dante Alighieri e Luis de Camões, como a própria História do Cristianismo.

Quem duvidar, por favor, leia a obra de Jorge de Lima, mas vou logo avisando, é preciso ser um iniciado em muitas dessas coisas, para não acabar no time de ignorantes, que há mais de meio século, compõe nossa Crítica Literária.

Em seu mês de aniversário, o blog A POESIA DO BRASIL homenageia o poeta alagoano nos 100 anos da publicação de seu primeiro livro os XIV Alexandrinos.
Um abraço a todos... e muita poesia em suas vidas.








O ACENDEDOR DE LAMPIÕES


Lá vem o acendedor de lampiões da rua!
Este mesmo que vem infatigavelmente,
parodiar o sol e associar-se à lua
quando a sombra da noite enegrece o poente!

Um, dois, três lampiões, acende e continua
outros mais a acender imperturbavelmente,
a medida que a noite aos poucos se acentua
e a palidez da lua apenas se pressente.

Triste ironia atroz que o senso humano irrita:
ele que doira a noite e ilumina a cidade,
talvez não tenha luz na choupana em que habita,

Tanta gente também nos outros Insinua
crenças, religiões, amor, felicidade,
como este acendedor de lampiões da rua!




***




DOMÍNIO RÉGIO

Investiguei a Grécia em Platão e em Homero,
vi Sócrates beber a taça de cicuta...
Depois passei a Roma e analisei de Nero
na boca de Petrônio essa face corrupta.

Conheci Santo Anselmo e São Tomás, Lutero,
estudei de Voltaire a inteligência arguta
e finalmente andei como se fosse Asvero
pela Ciência e a História em requintada luta...

Mas a Arte é que me impõe o seu domínio régio
e é por isso que adoro a mão de Tintoretto
e a sublime palheta e o pincel de Correggio...

E é por isso que eu amo o verso alexandrino
e burilo, Mulher, este pobre soneto
inspirado a pensar em teu perfil divino.


***


CIPÓS

Vegetação bravia. A floresta é do norte;
coqueiros, bambuais, jequitibás frondosos
e presa à selva inteira os cipós portentosos
oprimida e sofrendo o mesmo abraço forte.

Pequenos vegetais condenados à morte
que dantes eram bons e de galhos seivosos,
agora têm alguns, raquíticos, nodosos
gravetos outros já, recurvados sem porte.

Sublime foi então este arvoredo esguio:
a pletora da selva ia outros matando
como o forte aniquila quem é doentio.

Então ele fugiu à compressão funesta,
estirou-se, alongou-se e em cipós se tornando
ei-lo feito opressor esmagando a floresta.






sexta-feira, 10 de outubro de 2014

ALEXANDRE BONAFIM (1976 - )

Nascido na capital mineira, este jovem poeta publicou o livro Biografia do deserto (2006); de lá para cá, o escritor já se lançou num bom punhado de novas empreitadas poéticas:  A Outra Margem do Tempo (2008); Sobre a Nudez dos Sonhos (2011) Sua publicação mais recente é O Secreto Nome do Sol (2013). O trabalho de Bonafim parece, até agora, trilhar essencialmente o mesmo rumo delineado desde sua primeira coletânea. É uma poesia de alta qualidade técnica e lírica. Além de poeta, é contista, cronista, crítico literário, mestre em Literatura Brasileira, e professor de literaturas portuguesas Universidade Estadual de Goiás - UEG.






A VIDA É SEMPRE SÚBITA

                     a Roseana Murray



A vida é sempre súbita,
como folha a cair na rua,
pássaro recém-nascido a despencar do ninho.

A vida é sempre susto,
choque elétrico a cortar a carne,
farpa a estilhaçar a pele.

Nada nos protege desse frio.
Nada nos ampara dessa nudez.

A vida é sempre agora,
atropelamento em esquinas vazias,
rosto a refletir o nada nos espelhos.


***






A menina morta
                                      a Cornélio Pena



De sua fotografia
a menina morta
me sorri.
Quem lhe pousou
entre os cabelos
aquela flor
de assombro?
Quem lhe maquiou
as fazes
com aquela cor
de espanto?
A menina morta
me sorri
do fundo
de um poço
da lonjura
da eternidade.
Nas suas pálpebras
de sonho
na sua testa
de sombra
reluz o mistério
da morte
a invisível tez
do silêncio.
A menina morta
canta
com a boca
amordaçada.
Ela brinca de ciranda
com a sombra das árvores
ela pula amarelinha
com a solidão das pedras.
A menina morta
só sabe abraçar
o calor do mármore
ela só sabe conversar
com o eco dos granitos.
Ninguém nota
na parede
seu rosto de névoa
sua expressão de gelo.
Há teias de esquecimento
em seus ombros.
Há poeira de memória
em seus cílios.
De sua fotografia
a menina morta
me sorri.
 Com a calma
dos séculos
ela aguarda
a chegada
de todos
os silêncios.


***



HÁ DIAS EM QUE OS PÁSSAROS TARDAM A REGRESSAR

           
                                                      a Geri Aparecida Biotto Bucioli





Há dias em que os pássaros tardam a regressar,
manhãs em que o inverno pousa, em nossa nudez,
as horas da esquecida infância. Nesses momentos,
o crepúsculo nunca se despede de nossos olhos,
as folhas não afagam o vento: somos, inteiros,
uma doce melancolia a gestar as primaveras. Há dias
em que os pássaros são a promessa de um milagre. 


VALQUÍRIA LIMA (1980 - )

Graduada em Letras Vernáculas, é especialista em Estudos Literários e Mestre em Literatura e Diversidade Cultural, pela Universidade Estadual de Feira de Santana. Estudante de Doutorado do Programa de Pós-Graduação em Literatura e Cultura pela UFBA, onde desenvolve pesquisa sobre a cultura, a literatura e o cinema contemporâneos, com destaque para as narrativas das margens. É professora de Língua e Literatura Brasileiras. Compõe o quadro docente permanente do IFBA (Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia da Bahia). É autora do livro de poemas À Deriva (Via Litterarum, 2012).










Morada


Porque o poema é assim
como a rajada do vento
não se prende, acende.

Porque o verso está em mim
na minha cor, na minha história
passa por meu ori, não se rende.

A rima aparece faceira
resistente e morante
explode, nua, insistente.

A linguagem nos ensina
e refaz.
os nós da gente!

***




Desdobrável... indobrável!


Era uma menina
de olhos sempre acesos
e coração aos pulos!
A catar conchas nas estradas secas
e imaginar rios pelas ruas.

Era uma menina
de mãos questionadoras
e alma anelante!
Como os seus cabelos – resistentes – sempre ao vento,
inconformada!

E de não aceitar sins nem nãos
nem de tremer aos moldes
querer outros acordes.
Desafiou os tempos
pelo cheiro da liberdade!

Rebelou-se
revelou-se
redirecionou-se!

Tornou-se mulher
indecifrável
desdobrável.

Guarda as tempestades.
E costura caminhos!


***

A cama


Sob o seu corpo
Não me mostro
Me sirvo
Estremecida
Farta
Prato principal.





FAUSTO CARDOSO (1964-1906)

Fausto de Aguiar Cardoso foi um advogado, poeta, filósofo e político brasileiro. Nascido em Aracaju, estado de Sergipe, formou-se em Direito pela Faculdade de Direito do Recife, escreveu para jornais em Recife e integrou o Movimento de Renovação do Pensamento Nacional que aderiu ao movimento republicano, sendo eleito deputado federal em duas legislaturas e fundou o Partido Progressista. Fausto foi assassinado no Palácio do Governo, em Aracaju, durante o movimento de 1906. Mais tarde, seus filhos vingaram a sua morte, assassinando no Rio de Janeiro o Monsenhor Olímpio Campos, no episódio conhecido como "A Tragédia de Sergipe".  A maioria de seus poemas está reunida nos volumes de Esparsos e Inéditos.






O POETA

Quando surges sonhando e tua lira canta,
Inveja abrindo vai, como esfaimado corvo,
As asas negras pelo abobadado e torvo
Horizonte, em que o Deus da rima se levanta!...

Reatas a obra a imortal da caravana santa
Dos teus mortos irmãos, vencendo o mesmo estorvo,
Tragando o mesmo fel, haurindo o mesmo sorvo
Do veneno letal, que aos cobardes quebranta!

Ornas a Terra e a Terra, ingrata, te apedreja,
Porque o Infinito tens na mente e os pões no verso,
A sustentar, cantando, intérmina peleja.

É um louco! — brada o mundo em tua luz imerso,
Mas segue o raio astral, que pelo Azul dardeja
Doirando as almas como o sol doira o Universo!

***


A AMOR

Eu sou o Amor, o Deus que a terra inteira gaba!
Vivo enlaçado em sóis pelo universo inteiro afora,
dos ódios expurgando a venenosa baba,
que os mundos desagrega, espalha e desarvora.

O tempo tudo avilta; a morte tudo acaba;
e o louro sol jamais a murcha flor colora;
novos mundos, porém do mundo que desaba
faço surgir e salto em rutilante aurora!

Causo estrelas no céu e corações na terra;
da treva arranco luz; do nada arranco vida,
e crivo de vulcões o gelo que a alma encerra!

Mudam-te o peito em mar meus lúbricos desejos,
e tua mente ondeia e fulge colorida,
como raios de luz em vergéis de beijos!

***


TAÇAS

Deslumbrado cheguei chorando à terra, um dia;
e, do lauto festim da vida, achei-me à mesa;
sempre libei cantando a taça da Alegria
embebedou-me sempre o vinho da Tristeza.

Esplêndidas visões trouxeram-me à porfia as
ânforas do Amor; e de volúpia acesa,
minha boca de boca em boca um mosto hauria,
que de tédio me encheu por toda a Natureza.

Dá-me a velhice a taça; eu das paixões prescindo;
e, ébrio, ascendo a espiral de um sonho delicioso,
no vinho da Saudade achando um gosto infindo...

Parece-me o passado um rio luminoso,
onde vogo a rever, pelas margens florindo,
a dor, que ao longe tem as seduções do gozo!






terça-feira, 2 de setembro de 2014

GREGÓRIO DE MATTOS (1633/1696),

 
Gregório de Mattos e Guerra, o “Boca do Inferno”, nascido na Bahia, foi o primeiro de nossos satíricos, e, quiçá, nosso primeiro grande poeta de facto. Homem de língua destravada e fácil veia poética. Estudou humanidades em Portugal, tendo feito o curso de leis na Universidade de Coimbra. Na terra mãe foi juiz criminal e de órfãos. Voltou ao Brasil com 47 anos, sob a proteção do arcebispo da Bahia, D. Gaspar Barata. Tantas e tais fez que não só perdeu a proteção do prelado, como ainda foi degredado para Angola. Reabilitado, voltou ao Brasil, indo para Recife, onde conquistou simpatias e viveu com menos turbulência que na Bahia. É o patrono da cadeira n.º 16 da Academia Brasileira de Letras. Além de versos satíricos e humorísticos, escreveu poesias eróticas com a maior incontinência verbal.




EPIGRAMA


Juízo anatômico dos achaques que padecia o corpo da República em todos os membros, e inteira definição do que em todos os tempos é a Bahia.





Que falta nesta cidade?... Verdade.
Que mais por sua desonra?... Honra.
Falta mais que se lhe ponha?... Vergonha.

O demo a viver se exponha,
Por mais que a fama a exalta,
Numa cidade onde falta
Verdade, honra, vergonha.

Quem a pôs neste rocrócio?... Negócio.
Quem causa tal perdição?... Ambição.
E no meio desta loucura?... Usura.

Notável desaventura
De um povo néscio e sandeu,
Que não sabe que perdeu
Negócio, ambição, usura.

Quais são seus doces objetos?... Pretos.
Tem outros bens mais maciços?... Mestiços.
Quais destes lhe são mais gratos?... Mulatos.

Dou ao Demo os insensatos,
Dou ao Demo o povo asnal,
Que estima por cabedal,
Pretos, mestiços, mulatos.

Quem faz os círios mesquinhos?... Meirinhos.
Quem faz as farinhas tardas?... Guardas.
Quem as tem nos aposentos?... Sargentos.

Os círios lá vem aos centos,
E a terra fica esfaimando,
Porque os vão atravessando
Meirinhos, guardas, sargentos.

E que justiça a resguarda?... Bastarda.
É grátis distribuída?... Vendida.
Que tem, que a todos assusta?... Injusta.

Valha-nos Deus, o que custa
O que El-Rei nos dá de graça.
Que anda a Justiça na praça
Bastarda, vendida, injusta.

Que vai pela clerezia?... Simonia.
E pelos membros da Igreja?... Inveja.
Cuidei que mais se lhe punha?... Unha

Sazonada caramunha,
Enfim, que na Santa Sé
O que mais se pratica é
Simonia, inveja e unha.

E nos frades há manqueiras?... Freiras.
Em que ocupam os serões?... Sermões.
Não se ocupam em disputas?... Putas.

Com palavras dissolutas
Me concluo na verdade,
Que as lidas todas de um frade
São freiras, sermões e putas.

O açúcar já acabou?... Baixou.
E o dinheiro se extinguiu?... Subiu.
Logo já convalesceu?... Morreu.

À Bahia aconteceu
O que a um doente acontece:
Cai na cama, e o mal cresce,
Baixou, subiu, morreu.

A Câmara não acode?... Não pode.
Pois não tem todo o poder?... Não quer.
É que o Governo a convence?... Não vence.

Quem haverá que tal pense,
Que uma câmara tão nobre,
Por ver-se mísera e pobre,
Não pode, não quer, não vence.


***

À D. Ângela


Anjo no nome, Angélica na cara
Isso é ser flor, e Anjo juntamente
Ser Angélica flor, e Anjo florente
Em quem, se não em vós se uniformara?

Quem veria uma flor, que a não cortara
De verde pé, de rama florescente?
E quem um Anjo vira tão luzente
Que por seu Deus, o não idolatrara?

Se como Anjo sois dos meus altares
Fôreis o meu custódio, e minha guarda
Livrara eu de diabólicos azares.

Mas vejo, que tão bela, e tão galharda
Posto que os Anjos nunca dão pesares
Sois Anjo, que me tenta, e não me guarda. 



***




Buscando a Cristo


A vós correndo vou, braços sagrados,
Nessa cruz sacrossanta descobertos
Que, para receber-me, estais abertos,
E, por não castigar-me, estais cravados.

A vós, divinos olhos, eclipsados
De tanto sangue e lágrimas abertos,
Pois, para perdoar-me, estais despertos,
E, por não condenar-me, estais fechados.

A vós, pregados pés, por não deixar-me,
A vós, sangue vertido, para ungir-me,
A vós, cabeça baixa, p'ra chamar-me

A vós, lado patente, quero unir-me,
A vós, cravos preciosos, quero atar-me,

Para ficar unido, atado e firme.

EURICO ALVES BOAVENTURA (1909-1974)

 
Eurico Alves Boaventura, poeta, cronista e ensaísta, nasceu em Feira de Santana, em 21 de julho de 1909. Foi um dos principais nomes do grupo modernista baiano surgido em torno da revista Arco & Flexa e um dos maiores expoentes de uma literatura modernista ainda muito desconhecida do grande público. Colaborou em vários periódicos de Salvador e do Nordeste. Deixou muitos textos inéditos, alguns deles publicados postumamente como Fidalgos e Vaqueiros (Universidade Federal da Bahia, 1989) e Poesias (Fundação Cultural do Estado da Bahia (1991)). Sua obra singular é marcada por um verso livre incisivo e seus temas variam do urbanismo típico das primeiras gerações de modernistas do Brasil ao gosto requintado e autêntico de um regionalismo que lhe era demasiadamente peculiar. Na simplicidade dos versos de Eurico Alves Boaventura é possível perceber um dos elementos próprios da cultura de Feira de Santana - a figura do vaqueiro. Na lírica nostálgica do poeta, infância e natureza estão interligadas, quando canta as peripécias do menino sertanejo. Um dos momentos mais sublimes da história do poeta é o diálogo que trava com o poeta pernambucano Manuel Bandeira, registrado no poema Escusa, pertencente ao livro Belo Belo, de bandeira.






DÍNAMO


Ralam o ar, rodopiando em roucos ronrons rudos,
as ruivas, rúbidas rodas raivosas, rápidas, ao fogaréu ...

Negras fauces monstros de fornalhas, abocanhando as sombras,
num doido torvelinho desordenadamente bruto,
de permeio às turbinas, aos êmbolos, às válvulas e a loucura
de mil garras de fogo — as alavancas víboras —
no vai-e-vem, vem-e-volta,
subindo, descendo, afogando-se na fofa negrura do óleo chiando ...

Tatala, lá fora, ao dorso polido das chaminés,
a crespa asa rascante e do grande morcego chagado
a noite.

Correm escuros arrepios no alto céu de ferrugem,
mordendo a usina ...

Mas, a um canto, possante, brutal, estouvadamente,
entre o delírio de carótidas veias e artérias de aço,
bates, rebates, fremes, latejas, precípite,
em cólera chispando,
rudo, rouco, raivoso, rasgando a noite,
— dínamo da fábrica — meu desvairado coração pulsando!

***




BALADA DA ESPERANÇA CANTADA NA CASA GRANDE


Herdei de meu pai este solar antigo ...

Sob a sua sombra, as horas se aconchegam religiosamente, ciciando preces,

ciciando preces que eu só escuto e compreendo,
e a vida pousa nua no meu pensamento ...

É pura a hora, sem desejos inúteis, sem calor de sexo
que o sol nos dá ...

Bate, dentro do luar, a cancela, bate mansamente,
ressonância de coração que envelhece na paisagem sem rancor.
Bate ao sol, bate ao luar, nos nervos crespos do mourão de baraúna, melodia de saudade, recuando até nós ...

Não haverá outros gemidos lá fora abafando a música da minha alegria.

Quando poderei sonhar no solar herdado de meu Pai?



***



ELEGIA PARA MANUEL BANDEIRA



Estou tão longe da terra e tão perto do céu,
quando venho de subir esta serra tão alta ...

Serra de São José das ltapororocas, afogada no céu, quando a noite se despe
e crucificado no sol se o dia gargalha.
Estou no recanto da terra onde as mãos de mil virgens tecem céus de corolas para o meu acalanto.
Perdi completamente a melancolia da cidade e não tenho tristeza nos olhos
e espalho vibrações da minha força na paisagem.
Os bois escavam o chão para sentir o aroma da terra,
e é como se arranhassem um seio verde, moreno.
Manuel Bandeira, a súbida da serra é um plágio da vida.

Poeta, me dê esta mão tão magra acostumada a bater nas teclas
da desumanizada máquina fria e venha ver a vida da paisagem
onde o sol faz cócegas nos pulmões que passam
e enche a alma de gritos da madrugada.
 
Não desprezo os montes escalvados
tal o meu romântico homônimo de Guerra Junqueiro
Bebo leite aromático do candeial em flor
e sorvo a volúpia da manhã na cavalgada.
Visto os couros do vaqueiroe na corrida do cavalo sinto o chão pequeno para a galopada.
Aqui come-se carne cheia de sangue, cheirando a sol.
Que poeta nada! Sou vaqueiro.

Manuel Bandeira, todo tabaréu traz a manhã nascendo nos olhos
e sabe de um grito atemorizar o sol.

Feira de Santana! Alegria!

Alegria nas estradas,
que são convites para a vida na vaquejada,
alegria nos currais de cheiro sadio, alegria masculina das vaquejadas,
que levam para a vida e arrastam também para a morte!
Alegria de ser bruto e ter terra nas mãos selvagens!
Que lindo poema cor de mel esta alvorada!
A manhã veio deitar-se sobre o sempre verde.
Manuel Bandeira, dê um pulo a Feira de Santana e venha comer pirão de leite com carne assada de volta do curral
Venha sentir o perfume de eternidade que há nestas casas de fazenda,
nestes solares que os séculos escondem nos cabelos desnastrados das noites eternas venha ver como o céu aqui é céu de verdade
e o tabaréu como até se parece com Nosso Senhor.


PATRICE DE MORAES (1968 - )

João Patrice Machado de Moraes (1968-    ), baiano, natural de Conceição do Jacuípe (Berimbau), é professor formado pela Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS). Sua primeira incursão pela literatura se deu em 1997, quando participou de uma coletânea denominada Reviravolta, Versos e Textos.  Neste mesmo ano participa do Concurso Nacional de Poesia e Prosa Castro Alves promovido pelo CEPA (Círculo de Estudo, Pensamento e Ação), Salvador, tendo recebido certificado de menção honrosa.  A poesia de Patrice de Moraes é uma poesia que sempre se quer cinética, que pretende romper os limites da impressão simplória e alçar à consubstanciação da mais pura e didática alegoria, ou seja, uma poesia que substitui o abstrato pelo aparentemente concreto, ou, como melhor definiu Coleridge, citado por César Leal em seu Os cavaleiros de Júpiter, uma “transposição de noções abstratas para uma linguagem de cores”.  Assim, cada poema de Patrice faz-se de imagens intencificadoras, dentro de um sistema que permite muito bem a isso; uma imagem representando um conceito ao qual se pretende, ou, simplesmente, comunicar, por meio de imagens puras e gradativas, o despertar dos sentidos, onde certas questões, como a do erotismo, são bem menos um assunto do que uma maneira de metaforizar, como nos dirá Jessé de Almeida Primo: “nesse sentido, sua poesia é tão erótica quanto toda poesia de qualidade deve ser, pouco importando seu assunto”. Mas é, evidentemente, o próprio poeta quem nos dá o melhor exemplo... Já publicou textos no Jornal Noite e Dia e Tribuna Feirense, ambos de Feira de Santana. É autor dos livros: Eurótico (Éros, 2005) e Minha Bahia (Mondrongo, 2013). Seus próximos livros, Amor em Carne Viva (poemas) e Conta-gotas (hai-kais) estão no prelo...






SERVIDÃO



 Não luto contra a carne: eu a respeito.
Não posso lhe negar o seu direito
de realizar-se como ser, sujeito
vivo, por natureza insatisfeito,

regido dia e noite sob o efeito
da libido, veículo eleito
pra dar à carne o físico conceito
de prazer. Quanto mais sinto no peito

convocação da carne para o leito,
mais sou file a ela, mais aceito
servi-la  ― sem mostrar-me contrafeito ―,

afinal no meu sangue flui o preceito
de insaciabilidade  ― que aproveito
até me ver esgotado, rarefeito.

***


MINHA BAHIA


POEMA  XV

 Sofrer..., mas ser da fé um puritano.
Sorrir inda que o sofrimento insista.
São esses os caminhos do otimista,
principalmente quando ele é baiano.

Viver feliz não é nenhum engano.
Sabemos que nem tudo é “terra à vista”!
Mas cada ritmo expressa uma conquista
que faz-nos liberar o lado ufano,

apimentado da baianidade
que nos tornou exemplo de saudade
no coração de quem sente a Bahia.

É o beijo de um amor que se quer ter,
reverenciando-o, e com ele assim viver
um estado em eterno estado de poesia!


***


TEU CHEIRO


 Teu corpo exala um cheiro inconfundível!
Fragmenta-se atrás dele um só desejo
em mil e um cachorros em cortejo
...farejando o intocável no impossível!

Com uma devoção inexaurível
inalo-o como um solo sertanejo
que absorve a santa chuva de sobejo
após anos de seca corrosível.

Teu cheiro para mim é o manifesto
da carne apimentada pelo gesto
do amor quimicamente transformado

...em síntese olfativa de uma luz
que sedutoramente me conduz
a um plano tão profano quão sagrado!


terça-feira, 19 de agosto de 2014

DA COSTA E SILVA (1886-1950)

Nascido em Amarante, Estado do Piauí, o poeta simbolista Antônio Francisco da Costa e Silva, conhecido apenas por Da Costa e Silva, formou-se advogado pela Escola de Direito do Recife. Foi funcionário do Ministério da Fazenda e trabalhou em vários estados, como Maranhão, Amazonas, São Paulo e Rio Grande do Sul. Na poesia, estreou com o livro Sangue (1908), ao qual se seguiram os volumes Zodíaco (1917),Verhaeren (1917), Pandora (1919) e Verônica (1927). Suas Poesias Completas já tiveram quatro edições: em 1950, 1975, 1985 e 2000. 




SOU COMO UM RIO MISTERIOSO...

Sou como um rio que, de tanto
Refletir sombras, se tornou sombrio...
Rio de dor, rio de pranto,
Ninguém sabe o mistério deste rio.

Rio de dor, rio de mágoas,
Ocultando as imagens que refletes,
Rolam em meu ser as tuas águas,
Sob a treva e o silêncio, como o Letes...



***





Elogio da Morte

A morte não me assombra, nem me assusta,
Não me causa arrepio, medo ao menos,
Pois, vendo-a como os mártires, não custa 
Vê-la também como os heróis helenos.

É a mesma deusa redentora e augusta
De sorriso velado e olhos serenos, 
Impassível e fria, porque é justa, 
Mas amável e bela como Vênus.

Sob o véu de mistério em que se encobre, 
Para dos homens se tornar temida,
Vêem-na o rude, o mau, o triste, o pobre...

Mas eu a vejo em mármore esculpida,
Com o eterno semblante calmo e nobre,
Que não muda de aspecto como a vida...

***


 VELHA INTERROGAÇÃO

Passa a vida? Continua...
Porque o tempo é que flutua,
como um rio de veludo,
sobre todos, sobre tudo...

À sua margem sonhamos:
de onde viemos? aonde vamos?

E o destino indiferente
vai impelindo a torrente...

Passa a vida? Continua...
Com o tempo quem passa é a gente.
Mas, vida, se nós passamos,

de onde viemos? aonde vamos?




SANTOS SOUZA (1919-2014)


José dos Santos Souza, nasceu em Riachuelo, Sergipe. Aos 13 anos, o menino Santo Souza já falava de amor em seus poemas. José Santo Souza um dos maiores poetas vivos do país, viveu em sua cidade natal até os 17 anos trabalhando em farmácia, e em Aracaju, ele continuou trabalhando no ramo onde aprendeu a manipular medicamentos com a mesma maestria que o conservou na função por 26 anos. Somente em 1938 ele retornou à poesia. Por puro desencanto, Santo Souza parou de escrever e foi se dedicar a música, aliás, com todo autodidatismo que lhe é peculiar. Estudou música aos 15 anos como se estivesse estudando aritmética, talvez por isso aprendeu a tocar em três meses, inclusive compondo para clarineta algumas valsas para a namorada. Autor de vários livros, todos os poemas, sendo o primeiro livro publicado Cidade Subterrânea (1953) e assim suas obras vieram sucessivamente como: Caderno de Elegias (1954); Relíquias (1955); Ode Órfica (1956); Pássaro de Pedra e Sono (1964); Oito Poemas Densos (1964); Concerto e Arquitetura (1974); Pentáculo do Medo (1980); A Ode e o Medo (1988); Obra Escolhida (1989); Âncoras de Arco (1994); A Construção do Espanto (1998); Rosa de Fogo e Lágrima (2004); Réquiem para Orféu (2005); Deus Ensanguentado (2008); Crepúsculo de Esplendores (2010)...







CANTO II


Ah, ousamos reger o mar sagrado
para onde a noite inválida se afasta
com a partitura efêmera das horas!
Treme no aquário nossas mãos. O rio
torna a mover-se, envolve nossos pés,
restaura o amor na imagem fugidia
de nossos olhos ímpios e vulgares,
e um riso antigo vem doer na bpca
da sibila cruel que nos desata
o nó da liberdade que ansiamos.

Que surpresa incontida nos impele
e faz que penetremos insubmissos
nestes vales revoltos, nestas dunas,
neste vasto silêncio encarcerado
em templos e oceanos que não vemos?
Outrora aqui tecemos com paciência
lendas heróicas, lagos, e as palavras
com que reconquistamos o segredo
da noite inicial, e construímos
com a sua tessitura a eternidade.

Aqui com nossas lágrimas regamos
chão, firmamento, rios. Dissolvemos
a luz da aurora em nossas amarguras.
E, para dissipar o espesso tédio,
dilatamos o cerco do horizonte
para além das colunas demarcadas
pelo Eterno que, agora, nos contempla
e soma o nosso esforço, esta agonia
em que nos vamos iludindo a vida
com sangue, pedra, fel e poesia.

Mas onde os nossos mares? Onde as naves
que nossas mãos domavam, contornando
suas ondas e praias, suas vozes,
a sinfonia mágica das águas,
o rodízio das noites, a cantiga dos afogados, o sorriso e o choro
das crianças perdidas, navegando
nos braços das sereias, e a tristeza
de Deus, ao perceber nosso fracasso
no mar que ele nos dera e nós perdemos?

Era vasto o domínio. Nosso olhar
limitava o destino das fronteiras
por onde a morte inútil circulava.
Calculamos o tempo e o esperdiçamos.
Fomos tardos no avanço, e cedo vimos
fugir de nossas mãos o leme, e a rota
se perdeu. Nosso canto, diluído
nas águas, já não rege o itinerário
desta sagrada luta que engendramos:
perdido o jogo, a morte nos suplanta.

                                                                                 
 ***



BALIZA


Cravar a estrela no chão
e dizer à noite: agora,
afaste-se a escuridão
que eu vou chegando com a aurora.

E fazer brotar da terra
- da terra que tudo faz –
não a treva e o ódio da guerra,
mas a luz e o amor da paz.

Que eu vim traçar nos caminhos
(invés de dor e agonia)
a rota livre dos homens
com as tintas claras do dia.


 ***



de auroras, noites e sereias


Jogo os dados no mar, como quem joga
a sorte das estrelas ou do vento,
e fico a embaralhar as ondas, como
o lúcido hierofante que desvenda

 nas cartas o destino dos mortais.
Não sei qual é a carta-chave, mas
capto o sentido exato e a voz de quem
profere a frase mágica de tudo.

 E se há no fundo náufragos que vão
com dedos ágeis folheando páginas
de noites e de auroras impossíveis, 

 na superfície há sempre olhos profanos
de peixes e sereias, traduzindo
o jogo de meus dedos sobre o mar.