quinta-feira, 4 de fevereiro de 2016

LAWRENCE SALABERRY (1965 - )



Lawrence Salaberry (Lawrence Flores Pereira) nasceu em 1965. É poeta, tradutor e professor, autor do livro de poemas Engano Especular. Traduziu Antígona, Hamlet, poemas de T. S. Eliot e outros poetas.






MARINA

Preso à noite
 nesse cais
Ouço a nave
                         lenta a ondular

E o contramestre nervoso
Pelo tombadilho.

- Certeza de volta ao lar -

Tudo sereno
                        onda boa

De tuas pernas batendo
                                             as canoas.

E noite adentro
                               a canção da aragem

Garoa
              que refresca o alento

Me lembra teu corpo amado
Entrevisto num momento
De descuido do vento.


***

Há três quadras do mar, à noite,
Do chalé da praia de Sarandi,
Uma criança podia ouvir ao longe
O clangor gutural do mar e sentir os grãos do sal
Fertilizando tudo. Teu coração batia com ele
Num misto de exaltação, medo e ansiedade....

Como se pudesse ser ali despido de meu corpo,
Como se a qualquer momento eu pudesse ser levado.
(Grato, aliás, por teres me sugado e aterrorizado!)

Ou era como amar, como encontrar de novo o interrompido?
E à noite, ao colocar os pés no chão adorado,
Ao sentir o cheio sujo das sarjetas, não conseguimos
Nos conter, e fomos até a praia para molhar os pés,
E caminhamos até a barra,
Vimos os últimos botos rompendo a película
Das águas em suave cadência. Era tudo como era.
Teria naquele dia engolido o mar, o ruído, o cheiro – a ambrosia
Que se abre dos aromas acres, dos pólipos morridos,
Como uma auréola infinita.
Parece se abrir na imaginação
Mais do que a infância é longa.
Mas havíamos mudado -
E, não sabia, o vigor do vento,
E do Mar, repercutindo os pulmões taurinos,
Era um interlúdio que ele
Representou magnificamente, antes de se virar
 Sem dizer adeus.



***


As casas são silêncios quando deixadas sós:
Arrabaldes da lembrança que a memória incita
Ao remoer-se em suas mil reprojeções.
Um quarto se liga ao outro, uma sala, uma cozinha, um corredor,
Uma troca de palavras nas escadas: as casas são silêncios
Quando deixadas sós.

E eu o invoco, o estranho quadrúpede,
Que pálido desperta do seu sono, ergue as patas,
Marcha ao lugar antigo:
No pensamento sou eu que agora contenho
Quem outrora me continha.
No pensamento
Onde outra arquitetura a projeta, talvez com as frutas do quintal
Numa eterna circulação de nascimento, corrupção e morte.
No pensamento com a régua e algumas linhas fugidias,
Difícil traçá-la ou evocá-la. Como habitar quem me habita.
Mas ela está fria agora, sem o calor do fogo. A casa é uma extensão
Em mim, que está perdido.

E onde a voz que a preenchia?
Do telhado que cobria os fundos se viam os primeiros raios.
Estrangulava-os as mamonas que no azul,
Cresciam mudas com seus grãos de espinhos, arregaçando
Estridentemente os ombros verdes no baldio, sorvendo em desvario
Os amarelos pulverizados. Eu as vi
Ao me voltar ao leste aquele dia.

A casa é uma extensão de mim que está perdida, ela é a sombra
De todas as sombras ou talvez um labirinto dedálico do sonho
Que retorna e sobressalta o insone: eu a busco
Na parede mofada, no mijo do cachorro
No vozerio-algazarra
Das crianças que saiam da escola ao lado,
Na textura suculenta das paredes, mas talvez
O fio esteja perdido que a delicada aranha retramou. Imaginar aquele olho
Que ouvia, via e escrutava pela casa.
O simples esforço de recompor teu entorno, teu aspecto baldio, teus
Paralelepípedos, tua flora de mau gosto me inebria e paralisa.
Agora, num átimo, ele surgiu.
Entre o imaginar e o que imagino
O que me falta é eu.





ENZO CARLO BARROCCO (1960 - )

Enzo Carlo Barrocco, pseudônimo de Efraim Manassés Pinheiro, nasceu em Tracuateua, Pará. É poeta, contista e pesquisador literário. Enzo caminha por vários gêneros poéticos, como o soneto, o poema livre, o hai-kai, embora, algumas vezes, tenha enveredado pelas sendas do conto. A síntese, como o próprio poeta gosta de afirmar, é a sua principal característica. Amante das artes em todas as suas vertentes, mormente à literatura, Enzo é um incansável pesquisador literário.







SONETO NOTURNO


Vem a noite de lilás e prata
pelas estradas arrastando as vestes
trazendo a lua que se mostra grata
ascendendo pelos lados lestes.

As paisagens já estão soturnas,
nos casebres, iluminação,
uma chuva que se fez noturna,
nos caminhos alguma assombração.

Tudo quieto, tudo tão parado
nesses sítios quando a noite vem
as pessoas se recolhem cedo,

pelos ermos não se vê ninguém,
não demora a madrugada rompe
um galo canta em outro sítio, além...



***


MAIS UM DIA, PORTANTO, ESTÁ CHEGANDO


Branca luz sobre as folhas
da madrugada,
o sol ainda não botou a cara ardente
sobre o mar.

Uns últimos insetos (lálias, duxas, vambratis)
vagam sob a luz dos postes.

Pelas casas pouca iluminação,
a lua lentamente vai embora,
outro dia, portanto, está chegando;
logo mais abramos as janelas.



 ***


A BAÍA ABRAÇA A ILHA


A baía abraça a ilha,
o sol ensopa julho de suor;
a linha d´água,
a tez contra o azul.

Olhos que se ajustam à paisagem,
água, céu e ilhas;
alguma embarcação,
gente translúcida
sobre o lombo branco de Mosqueiro.

Segue julho,
verão de muitas cores;
o belo mora nestas praias,
nos lábios rubros das mulheres.

SANDRO PENELU (1961 - )

Sandro Penelu nasceu em Feira de Santana. É formado em Letras Vernáculas pela Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS); é poeta, professor e músico profissional. Publicou seus primeiros trabalhos nos jornais Informativo Cultural e Feira Hoje. Depois, chegou à publicação de seis livros de poesia: Fazendo poemas – seu primeiro livro, lançado no ano de 1989; Êxodo do pretérito (1990); Astros (1991); Olhos do Universo (1993). Passos é o livro mais recente de Sandro Penelu, trazendo um poeta muito mais amadurecido e consciente, com “imagens” criadas a partir de uma estrutura moderna na poesia. Esteve também entre os vencedores dos Concursos de Poesia do SESI, 1989 e 1990, quando seus poemas participaram da coletânea publicada por aquela entidade. 








Fios de cabelos




Era uma noite de olhos e lábios
uma noite de poeiras...
Eram ventos e fantasmas
capengas como a própria vida.
Eram turvas as colinas
sem o romantismo viciado dos quintais.

Eram quatro horas da tarde
e eu não conseguia compreender o tempo,
mesmo por entre fios de cabelo
que dançavam, soltos, no ar...



***



Entre pisadas



Na contramão do infinito,
um fio de luz anuncia o tempo
e entre pisadas, estremeço,
parado, mudo, perplexo...

Na vala da vida,
crânios quebrados
gargalhando seus sarcasmos
e um homem velho
brinca, alheio à inquietude dos espaços...





***



Pedras e ruas



A rua não é mais a mesma;
a noite não é mais a mesma;
a Lua procura ansiosa;
o teu corpo que guarda um corpo.

As pedras da rua não são mais as mesmas...
Busco inútil pelo sorriso.
A roseira ainda guarda um fio de cabelo
que o vento brinca, balançando-o.

As pedras, a rua e eu
não são mais os mesmos...


terça-feira, 5 de janeiro de 2016

MARIA DO CARMO BARRETO CAMPELLO

Maria do Carmo Barreto Campello de Melo figura entre as mais importantes poetisas pernambucanas contemporâneas. Passou a infância no engenho da Torre, cujo terreno deu origem ao atual bairro da Torre, no Recife. Bacharel em Letras Clássicas e Licenciada em Didática de Letras Clássicas pela Faculdade de Filosofia do Recife, e pós-graduada com os Cursos de Especialização e de Aperfeiçoamento em Literatura e Língua Portuguesa, pela UFPE. Iniciou sua carreira poética publicando poemas no Diário da Manhã e, posteriormente, com o apoio de Esmaragdo Marroquim, no Jomal do Commercio do Recife. Publicou, a partir de 1968, vários livros de poesia: Música do SilêncioTempo Reinventado, Verdevida, Ser em Trânsito, Varadouro. Recebeu o Prêmio de Poesia Othon Bezerra de Mello (Academia Brasileira de Letras — 1970); Menção honrosa do Prêmio Manuel Bandeira (Govemo do Estado, 1978). Ocupa a Cadeira n° 22 da Academia Pernambucana de Letras.






Lição de Amor


Não te direi de amor
assim como tu queres
pois não se faz o amor, amor existe
e permeia e transcende coração e mente
e dá se dando e dando inteiramente
que despojado é o amor, sem adereços
e a pele é a melhor das vestimentas.

Não te direi
assim como o entendes
mas se eu disser de mim, direi do amor
que há quem não se dando já deu tudo
e visitou a face do teu ser impuro
e adormeceu à sombra dos teus sonhos.

Não
assim como desejas
só que me entrego à noite e ao desespero
e ferida de amor digo teu nome
e ele me cobre como uma vestidura.



***


OS TRANSEUNTES


Os homens olham a cidade
com olhos de posse.
Os homens
acrescentam
modificam          a cidade
concluem
como se fora coisa sua.

Os rios (sábios) passeiam
suas águas e tentam reter
a face que passa e
           (só por algum tempo)
povoará a paisagem.

Os transeuntes
não sentem sua própria transitoriedade,
A carne perecível e frágil passeia
        entre os edifícios tranquilos
e sólidos que se erguem e bebem o azul
no alto.
A terra guarda os passos deléveis

dos caminhantes
incônscios de sua brevidade
        ante a permanência do chão
que pisam.





***




OS CONVIDADOS


Quem faz a festa são os Convidados.
A mesa posta as frutas as flores que
acorreram dos jardins não compõem o essencial

de que se tece a trama invisível do
Encontro.

Os Convidados é que fazem a festa.
Nas garrafas de cristal, o vinho à espera.
Até a música

— que ao teu gesto irromperia —
despedaçando o silêncio
apenas
povoausenciaria a anti-sala
que o amor não compôs.

Inúltimente acenderás as luzes:
— Quem faz a festa
        são os Convidados.

Só o teu olhar ansioso que
aguarda a chegada
dos Amigos
é o pré/a/núncio da
Festa que virá
        dentro de cada Convidado.


YEDA SCHMALTZ (1941-2003)


Nasceu em Tigipió, Pernambuco, mas, ecém-nascida, foi levada para Goiás, passando a residir em Ipameri, terra do seu pai. É neta do poeta Demóstenes Cristino um dos iniciadores do modernismo em Goiás. Bacharel em Letras Vernáculas e em Direito. Professora da Universidade Federal de Goiás, Instituto de Artes. Em toda a sua vida literária ganhou muitos prêmios, como o da Associação paulista de críticos de Arte, em 1985, pelo livro Baco e Anas Brasileiras. Entre os muitos livros que publicou, encontram-se: Caminhos de mim (1964); Tempo de semear (1969); A alquimia dos nós (1974); Baco e Anas brasileiras (1985); A forma do coração (1990); Vrum, 1999; Chuva de ouro, 2000 e Urucum e alfenins – Poemas de Goyaz, 2002.






AMOR


Amor, se houve, eu tive.
De lembrar o amor
em poesia,
minha alma
sobrevive.


***


OITANTE


Alguém fabricou para mim
Uma estrela particular;
Este calor sem-fim.

Receita para se fabricar
uma estrela: é só queimar
átomos de hidro/gênio
por meio da fusão do olhar,
isto é, nuclear.

Fórmula: Bill Gates
que é igual a Olavo Bilac,
ovindo as janelas,
(E acreditar que vai brilhar, ter fé.)

Mas não se esqueça:
amai para entendê-la.
Quantos celulares fantasmas
há por aqui! Cibernéticos na linha.
Ai, que saudade que eu tenho
do tempo de Ivanhoé!



***


MINHA ALMA É TRISTE

Minha alma é triste
como o cerrado goiano.

Minha alma existe
sem ter achado o que amo.

Minha alma insiste
ao menos na beleza:

poemas feitos de hibiscos
— brincos rubros de princesa.


TELMO PADILHA (1930-1997)




Telmo Padilha nasceu em Itabuna, sul da Bahia. Foi jornalista e Membro da Academia de Letras de Ilhéus, por indicação de Adonias Filho. Destacou-se como poeta no cenário nacional e foi agraciado com muitos prêmios como Melhores Livros, da Câmara municipal de Itabuna (1956); 1º Concurso de Poesia - A Tarde; Prêmio Nacional de Poesia do Instituto Nacional do Livro (1975); Prêmio do Concurso Internacional de Poesia San Rocco, Itália (1976); 1º Prêmio do Concurso de Poesia Firmino Rocha, da Prefeitura Municipal de Itabuna (1981); e Prêmio Sosígenes Costa da Prefeitura Municipal de Ilhéus (1981). Poeta de reflexões existenciais, que constantemente indaga-se, questiona-se, numa linguagem repleta de sutilezas líricas. Inquieto, reafirma uma poética cuja temática indaga de forma intimista o viver, o morrer, a infância, a solidão e, ainda, sua relação com a realidade da sua terra, da cultura do cacau e do tempo que estabelece esta história que se escoa pelas frestas cotidianas. Sua poesia reside numa lírica lucidez, num abismo interior, entre a febre e insônia, expressa num processo criativo maduro e num estilo impecável.  Publicou os seguintes livros: Girassol do Espanto (1956); Ementário (1974); Onde tombam os pássaros (1974); Pássaro da Noite (1977); Canto Rouco (1977); O Rio (1977); Voo Absoluto (1977); Poesia Encontrada (1978); Travessia (1979); Punhal no Escuro (1980) e Noite contra Noite (1980), todos no melhor gênero da poesia.








Setembro


Mas se é setembro
e flores não acordam
o olhar antigo
entre as angústias presentes
e o desabrigo
das estações,
e não há caminhos
senão repartir
os passos de amanhã
sobre as mesmas sombras,
como sabê-lo se a mim chegas
por becos onde não há
mais que essas flores de agonia
nascidas da certeza
de que morrem os dias
à margem dos dias?


***



ITABUNA


Se não há montanhas,
como escalá-las?
Se não há florestas,
Com embrenhar-me
em sombras
que não estas?
Se não há o mar,
como falar de águas
e horizontes?

Sou o cantor
desta planície
e me abismo
em mim,
e desço aos outros
de mim,
e sofro os outros
de mim.



***




Os dias

Caminho
em tudo carne,
carne prisão cela
e o navio que não parte.

Os deveres, sim os deveres!
Salas, papéis, os poemas
dominicais. Chora o pássaro.

Os arcabouços, viseiras sempre
por tirar.

Passageiro de outro expresso,
o que não parte.

Voltar não é retornar
ao mesmo lugar.


domingo, 27 de dezembro de 2015

ONESTALDO DE PENNAFORT (1902-1987)

 
Onetaldo de Pennafort Caldas nasceu na cidade do Rio de Janeiro,  onde cursou Direito, no Rio  por volta de 1918, que não chegou a concluir. Iniciou-se na poesia com o livro Escombros Floridos, publicado em 1921. Nos anos de 1920 a 1950 foi um colaborador frequente das revistas  Fon-Fon, Careta, Autores e LivrosPara Todos e O Malho. Traduziu diversas obras, entre elas Festas Galantes, de Paul Verlaine (1934) e Romeu e Julieta, de Shakespeare. Homenageado, em 1955, com o prêmio Machado de Assis, concedido pela Academia Brasileira de Letras para o conjunto de sua obra. Sua obra poética, de tendência simbolista, tem como principais livros: Perfume e Outros Poemas (1924), Interior e Outros Poemas (1927), Espelho D’água (1928), Jogos da Noite (1931), Poesias (1957) e Poesia (1987). 








Canção


Quando murmuro teu nome,
a minha voz se consome
em ternura e adoração.

Quando teus olhos me olham,
parece eu se desfolham
as rosas de algum jardim>

Ò meu amor, se é preciso
eu direi que o teu sorriso
é doce como um olhar.

Mas é preciso que eu diga,
ó minha suave amiga,
isso que sinto e tu vês,

mas é preciso que eu diga?




***


 
Predileção


Amo os gestos estáticos, plasmados
numa atitude lenta de abandono;
certos olhares bêbedos de sono
e a poesia dos muros desbotados...

Amo as nuvens longínquas... o reflexo
na água dos foscos lampiões... as pontes...
a sufocação ríspida das fontes
e as palavras poéticas sem nexo.

Mas, sobretudo, eu amo esses instantes
em que, côo dois pesos foragidos,
os meus olhos se embrenham, distraídos,
na natureza — como dois amantes...



***



 
Cavaleiro andante


Se vais em busca da Fortuna, pára:
nem dês um passo de onde estás. . . Mais certo
é que ela venha ter ao teu deserto,
que vás achá-la em sua verde seara.

Se em busca vais do Amor, volta e repara
como é enganoso aquele céu aberto:
mais longe está, quando parece perto,
e faz a noite da manhã mais clara.

Deixa a Fortuna, que te está distante,
e deixa o Amor, que teu olhar persegue
como perdido pássaro sem ninho.

… Porém, ó negro cavaleiro andante,
se vais em busca da Tristeza, segue,
que hás de encontrá-la pelo teu caminho!



LUIZ ANTÔNIO VALVERDE (1951 - )

Luiz Antônio Valverde é duplamente graduado em Letras, Inglês e Francês, pela Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS), onde se tornou Especialista em Linguística Aplicada à Língua Inglesa, e Mestre em Literatura e Diversidade Cultural. Doutorou-se em Teoria da Literatura, pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) e é professor adjunto da Universidade Estadual de Feira de Santana. Participou da Revista Hera, de Feira de Santana, e, apesar da experiência de vida e poesia, só publicou seus livros de poemas, O exercício da loucura (Edições Cordel, 2005) e A arte de brincar com a poesia (Via Litterarum, Itabuna, 2013), no começo deste século. 







Travessia


 Pasmo de beira de rio
sofrendo vagar,
pelo que está no meio,
o impossível.

Na terceira margem do adeus
vasto céu, a suprema intriga,
onde sabemos que achar
é não ocultar o homem,
mas expô-lo por inteiro e perdido,
paralisado na travessia.




***


Bucolismo


Tens o perfume encantado.
Adoro o que ornas,
e ora renegas, amor,
louco amor,
que, de fato, renegar
é um exercício
de glórias.
Por trás do monte de feno,
ao relento, nos engalfinhamos
e o que mordes, não dói.
Afinal,
não temos como fugir
à vida
pequenas canções,
respingos de chuva.





***





Rito de passagem



Não esperem por mim.
Ante o sol que me desperta,
não desespero, ou antes
folgo em saber-me que, embora triste,
insista nas coisas que falam ao coração.

Pela manhã
o vento quente vem trazer-me alento,
eu dentro e fora do mundo,
acalento ilusões.

Visitei a cidade
nunca dantes conhecida,
a não ser de passagem,
mirada pela distância
entre eu e a estrela
longínqua
da minha infância.

A cidade esquecida
é a parábola da muralha,
espaços contidos, envelhecidos,
eu diminuto à sombra
fazendo tranças,
povoando traças,
sem abas ou asas, perambulando.

Mas o tempo
vira enfim abril,
ressurge a vida.
Nas primeiras chuvas,
idade da fuga,
e cumpra-se a audácia,
vale mais o que vai além da inércia,
deixa tardar a víbora sonolenta,
silenciosamente entrave.
Pessoas assim não contam
a não ser para nos empurrar
para além de nós,
e aí, já se vai por maio
surfar em águas claras, além,
do pequeno eu, arre injúria.



JOAQUIM OSÓRIO DUQUE ESTRADA (1870-1827)



Joaquim Osório Duque Estrada foi um poeta, crítico literário, professor e ensaísta. Duque Estrada nasceu no então município de Vassouras, no sul do Estado do Rio de Janeiro. Foi eleito em 25 de novembro, de 1915, para a cadeira número 17 da Academia Brasileira de Letras, na sucessão de Sílvio Romero, foi recebido em 25 de outubro, de 1916, pelo acadêmico Coelho Neto. Era filho do tenente-coronel Luís de Azeredo Coutinho Duque Estrada e de Mariana Delfim Duque Estrada. Era afilhado do general Osório, marquês do Erval. Estudou as primeiras letras na capital do antigo império, nos colégios Almeida Martins, Aquino e Meneses Vieira. Matriculou-se. em 1882, no imperial Colégio Pedro I, onde recebeu o grau de bacharel em letras, em dezembro de 1888. Em 1886, ao completar o quinto ano do curso, publicou o primeiro livro de versos, Alvéolos. Começou a colaborar na imprensa, em 1887, escrevendo os primeiros ensaios na Cidade do Rio, como um dos auxiliares de José do Patrocínio na campanha da abolição. Em 1888 alistou-se também nas fileiras republicanas, ao lado de Silva Jardim, entrando para o "Centro Lopes Trovão" e o "Clube Tiradentes", de que foi segundo secretário. No ano seguinte foi para São Paulo, a fim de se matricular na Faculdade de Direito, entrando nesse mesmo ano para a redação do Diário Mercantil. Abandonou o curso de Direito, em 1891, para se dedicar à diplomacia, sendo então nomeado segundo secretário de legação no Paraguai, onde permaneceu por um ano. Regressou ao Brasil, abandonando de vez a carreira diplomática. Fixou residência em Minas Gerais, de 1893 a 1896. Aí redigiu o Eco de Cataguases. Nos anos de 1896, 1899 e 1900 foi sucessivamente inspetor geral do ensino, por concurso; bibliotecário do Estado do Rio de Janeiro e professor de francês do Ginásio de Petrópolis, cargo que exerceu até voltar para a cidade do Rio de Janeiro, em 1902, sendo nomeado regente interino da cadeira de História Geral do Brasil, no Colégio Pedro II. Deixou o magistério em 1905, voltando a colaborar na imprensa, em quase todos os diários do Rio de Janeiro. Entrou para a redação do Correio da Manhã, em 1910, dirigindo-o por algum tempo, durante a ausência de Edmundo Bittencourt e Leão Veloso. Foi nesse período que criou a seção de crítica Registro Literário, mantida, de 1914 a 1917, no Correio da Manhã; de 1915 a 1917, no Imparcial; e, de 1921 a 1924, no Jornal do Brasil. Uma boa parte de seus trabalhos desse período foram reunidos em Crítica e polêmica (1924). Tornou-se um crítico literário temido. Gostava de polêmicas. De todas as censuras que fez, nenhuma conseguiu dar-lhe renome na posteridade. Como poeta, não fez nome literário, a não ser pela autoria da letra do Hino Nacional. Além do livro de estreia, publicado aos 17 anos, Flora de Maio, com prefácio de Alberto de Oliveira, reunindo poesias escritas até os 32 anos de idade. Revela sensível progresso na forma e na ideia. Conserva a feição dos poetas românticos, apesar de publicado em plena florescência do Parnasianismo, de que recebeu evidentes influxos, conservando, contudo, a essência romântica. Entre suas principais obras estão os livros: A aristocracia do espírito (1899); Flora de Maio, poesia (1902); O Norte, impressões de viagem (1909); A arte de fazer versos (1912); Dicionário de rimas ricas (1915); A Abolição, esboço histórico (1918); Crítica e polêmica (1924). Conhecido pela autoria da letra do Hino Nacional Brasileiro e sua atividade de crítico literário na imprensa brasileira do início do século XX. Foi membro da Academia Brasileira de Letras. Seu poema, de 1909, foi oficializado como letra do Hino Nacional Brasileiro por meio do Decreto nº 15.671, do presidente Epitácio Pessoa, em 6 de setembro de 1922, véspera do Centenário da Independência do Brasil.








VELHO TEMA


Fatigado viajor, que do deserto,
Ledo, percorre o areal que o sol castiga,
Busca um pouso na terra, onde se abriga,
Vendo as sombras da noite que vem perto.

Assim também, — ó minha doce amiga! —
Em meio ainda do percurso incerto,
No teu regaço, para mim aberto,
Fui repousar, exausto de fadiga...

De uma planta fatal, que em meio à trilha
Em flores perfumosas se desata,
Bebe a morte o viajor que o sonho pilha...

Assim teu beijo a vida me arrebata
— Beijo que guarda como a mancenilha
O mesmo aroma que envenena e mata!



***



Esquecimento


Se queres inda ver como escondida
Guardo no peito a tua imagem pura,
— Imagem que no céu da minha vida
É como um sol ardente que fulgura;

Convida o coração na sepultura
A viver e pulsar por ti; convida
Minh'alma para amar de novo; cura
A, que lhe abriste, cáustica ferida...

Só pedira a paixão com que me iludo
Que um raio apenas d'essa luz me desses,
E uma palavra do teu lábio mudo;

Mas nem ouves, sequer, as minhas preces;
E enquanto, para amar-te, esqueço tudo,
Tu, por um nada, o meu amor esqueces.



***


Ninho Azul

O nome da habitante... é um pecado dizê-lo:
A luz do seu olhar, o ouro do seu cabelo
Não têm rivais nos sóis nem nas manhãs serenas
E claras: é uma flor entre outras mais pequenas...

Quando ela sai de casa, um instante, a passeio,
Se deixa, descuidosa, o tesouro do seio
Fugir da renda, em toda a extensão da alameda
Erra um perfume quente e sensual que embebeda...

Acende-se o vergel ao seu encanto, como
À onda clara de luz um verdejante pomo;
E no alto da montanha, e por todo o valado,
Embaixo, em cima, o sol, mais quente e mais dourado

Rutila. Enche-lhe a veste o olor das brancas pomas...
Se pisa a alfombra, no ar uma oblata de aromas
Se eleva; e as flores vão beijar-lhe os flancos, uma
Por uma, e o róseo pé feito de jaspe e espuma...

Guarda na fina pele, em ondas voluptuosas,
A neve dos jasmins e a púrpura das rosas;
E da ânsia e do prazer toda a volúpia louca
Eletriza-lhe o seio e esbraseia-lhe a boca.

Se o vento rodomoinha em torno, ou, brisa terna,
Quer descobrir-lhe o pé e acariciar-lhe a perna,
Ou, com a fúria brutal de um desvairado amante,
Cobiçoso, se afoita a caminhar por diante,

Bebendo da alva pele o aroma capitoso
Naquele céu de carne onde lateja o gozo,
A alva do seu roupão busca logo escondê-la
Como uma nebulosa ocultando uma estrela.