quarta-feira, 22 de junho de 2016

TOMÁS ANTÔNIO GONZAGA (1744-1810)

O poeta Tomás Antônio Gonzaga, patrono da cadeira no 37 da Academia Brasileira de Letras, nasceu na cidade do Porto, em Portugal. Era filho do brasileiro dr. João Bernardo Gonzaga e de dona Tomásia Isabel Clark. Passou parte da infância no Recife e na Bahia, onde o pai servia na magistratura e, adolescente, retornou a Portugal para completar os estudos, matriculando-se na Universidade de Coimbra, onde concluiu o curso de direito aos 24 anos. Depois de formado, exerceu alguns cargos de natureza jurídica e candidatou-se a uma cadeira na Universidade de Coimbra, apresentando a tese Tratado de Direito Natural. Em 1778, foi nomeado juiz-de-fora na cidade de Beja, com exercício até 1781. No ano seguinte, no Brasil, foi indicado para ocupar o cargo de Ouvidor Geral na comarca de Vila Rica (atual Ouro Preto), em Minas Gerais. Nessa época, o poeta, aos 40 anos, dedicava poesias a Maria Doroteia Joaquina de Seixas, de apenas 17 anos, que iriam fazer parte do livro Marília de Dirceu. A família da moça, muito tradicional, opunha-se ao romance, mas aos poucos a resistência foi cedendo. Em 1789, Tomás Antônio Gonzaga foi acusado de participação na Inconfidência Mineira. Detido, foi enviado para a Ilha das Cobras, no Rio de Janeiro, partindo depois para Moçambique, onde se casou com Juliana de Sousa Mascarenhas, filha de um rico comerciante de escravos, e teve um casal de filhos. Faleceu no exílio em dia desconhecido, no mês de fevereiro de 1810. Tomás Antônio Gonzaga, cujo nome arcádico é Dirceu, escreveu poesias líricas, típicas do arcadismo, com temas pastoris e de galanteio, dirigidas à sua amada, a pastora Marília. As "liras" refletem a trajetória do poeta. Antes da prisão, apresentam a ventura do amor e a satisfação com o momento presente. Depois, trazem o infortúnio, a justiça e o destino. As Cartas Chilenas correspondem a uma coleção de doze cartas, poemas satíricos que circularam em Vila Rica poucos antes da Inconfidência Mineira. Assinadas por Critilo (leia-se Gonzaga), habitante de Santiago do Chile (leia-se Vila Rica) e endereçadas a Doroteu (leia-se Cláudio Manuel da Costa), residente em Madri. Critilo narra os desmandos do governador chileno, o Fanfarrão Minésio (leia-se, Luís da Cunha Meneses). Por muito tempo, discutiu-se a autoria das Cartas Chilenas, mas após estudos comparativos da obra com possíveis autores, concluiu-se que o verdadeiro autor é Gonzaga.







MARÍLIA DE DIRCEU (PARTE I; LIRA XXIV)


Encheu, minha Marília, o grande Jove
De imensos animais de toda a espécie
As terras, mais os ares,
O grande espaço dos salobros, rios,
Dos negros, fundos mares,
Para sua defesa,
A todos deu as armas, que convinha
A sábia natureza.

Deu as asas aos pássaros ligeiros,
Deu ao peixe escamoso as barbatanas;
Deu veneno à serpente,
Ao membrudo elefante a enorme tromba,
E ao javali o dente.
Coube ao leão a garra;
Com leve pé saltando o cervo foge;
E o bravo touro marra.

Ao homem deu as armas do discurso,
Que valem muito mais que as outras armas;
Deu-lhe dedos ligeiros,
Que podem converter em seu serviço
Os ferros, e os madeiros;
Que tecem fortes laços,
E forjam raios, com que aos brutos cortam
Os vôos, mais os passos.

Às tímidas donzelas pertenceram
Outras armas, que têm dobrada força,
Deu-lhes a Natureza
Além do entendimento, além dos braços
As armas da beleza.
Só ela ao Céu se atreve;
Só ela mudar pode o gelo em fogo,
Mudar o fogo em neve.
Eu vejo, eu vejo ser a formosura,
Quem arrancou da mão de Coriolano
A cortadora espada.
Vejo que foi de Helena o lindo rosto,
Quem pôs em campo armada
Toda a força da Grécia.
E quem tirou o cetro aos reis de Roma?
Só foi, só foi Lucrécia.


Se podem lindos rostos, mal suspiram,
O braço desarmar do mesmo Aquiles;
Se estes rostos irados
Podem soprar o fogo da discórdia
Em povos aliados;
És árbitra da terra:
Tu podes dar, Marília, a todo o mundo
A paz, e a dura guerra.



***



CARTAS CHILENAS (CARTA III)



Em que se contam as injustiças e violências,
que Fanfarrão executou por causa de uma cadeia,
a que deu princípio.


(...)
Aqui, prezado Amigo, principia
Esta triste tragédia; sim prepara,
Prepara o branco lenço, pois não podes
Ouvir o resto, sem banhar o rosto
Com grossos rios de salgado pranto.
Nas levas, Doroteu, não vêm somente
Os culpados vadios; vem aquele,
Que a dívida pediu ao Comandante;
Vem aquele, que pôs impuros olhos
Na sua mocetona: e vem o pobre,
Que não quis emprestar-lhe algum negrinho,
Para lhe ir trabalhar na roça, ou lavra.

Estes tristes, mal chegam, são julgados
Pelo benigno Chefe a cem açoites.
Tu sabes, Doroteu, que as Leis do Reino
Só mandam, que se açoitem com a sola,
Aqueles agressores, que estiverem
Nos crimes quase iguais aos réus de morte:
Tu também não ignoras, que os açoites
Só se dão por desprezo nas espáduas;
Que açoitar, Doroteu, em outra parte,
Só pertence aos Senhores, quando punem
Os caseiros delitos dos escravos.
Pois todo este Direito se pretere:
No pelourinho a escada já se assenta,
Já se ligam dos Réus os pés, e os braços;
Já se descem calções, e se levantam
Das imundas camisas rotas fraldas;
Já pegam dous verdutos nos zorragues;
Já descarregam golpes desumanos;
Já soam os gemidos e respingam
Miúdas gotas de pisado sangue.
Uns gritam que são livres: outros clamam
Que as sábias Leis do Rei os julgam brancos:
Este diz, que não tem algum delito,
Que tal vigor mereça; aquele pede
Do injusto acusador ao Céu vingança.
Não afroxam os braços dos verdugos:
Mas antes com tais queixas se duplica
A raiva dos tiranos; qual o fogo,
Que aos assopros dos ventos ergue a chama.
Às vezes, Doroteu, se perde a conta
Dos cem açoites, que no meio estava:
Mas outra nova conta se começa.
Os pobres miseráveis já nem gritam.
Cansados de gritar, apenas soltam
Alguns fracos suspiros, que enternecem.
Que é isso, Doroteu? Tu já retiras
Os olhos do papel? Tu já desmaias?
Já sentes as moções, que alheios males
Costumam infundir nas almas ternas?
Pois és, prezado Amigo, muito fraco;
Aprende a ter o valor do nosso Chefe,
Que à janela se pôs, e a tudo assiste,
Sem voltar o semblante para a ilharga;
E pode ser, Amigo, que não tenha
Esforço para ver correr o sangue,
Que em defesa do Trono se derrama.
(...)


***

SONETO XIII



Quando o torcido buço derramava
terror no aspecto ao português sisudo,
quando, sem pó nem óleo, o pente agudo
Duro, intonso, o cabelo em laço atava;

Quando contra os irmãos o braço armava
o forte Nuno1, opondo escudo a escudo;
quando a palavra, que prefere a tudo,
com a barba arrancada, João2 firmava;

quando a mulher à sombra do marido
tremer se via; quando a lei prudente
zelava o sexo do civil ruído;

feliz então, então só inocente
era de Luso o reino. Oh! bem perdido!
Ditosa condição, ditosa gente! 

D. PEDRO II (1825-1891)

Dom Pedro II (Pedro de Alcântara João Carlos Leopoldo Salvador Bibiano Francisco Xavier de Paula Leocádio Miguel Gabriel Rafael Gonzaga de Bragança) nasceu no Palácio da Quinta da Boa Vista, Rio de Janeiro, Brasil, no dia 02 de dezembro de 1825. Filho do Imperador Dom Pedro I e da Imperatriz Dona Maria Leopoldina. Ficou órfão de mãe com apenas um ano de idade. Com nove anos perdeu também seu pai. Era o sétimo filho, mas tornou-se herdeiro do trono brasileiro, com a morte de seus irmãos mais velhos. Cresceu aos cuidados da camareira-mor Dona Mariana Carlota de Verna Magalhães Coutinho, mais tarde condessa de Belmonte. No dia 2 de agosto de 1826, Dom Pedro foi reconhecido como herdeiro da coroa do império brasileiro. No dia 7 de abril de 1831, seu pai Dom Pedro I, que vinha enfrentando severa oposição política, acusado de favorecer os interesses portugueses no Brasil independente, abdica do trono e embarca de volta a Portugal, deixando Pedro como regente, com apenas cinco anos de idade. Para tutor de Pedro, seu pai nomeou José Bonifácio de Andrada e Silva. Com a abdicação e a menoridade do herdeiro do trono, foi eleita pela Assembleia, obedecendo à Constituição, uma Regência Trina até a maioridade de Dom Pedro. Estando o Senado e a Câmara de férias, foi eleita uma Regência Trina Provisória, que permaneceu de 7 de abril a 17 de junho de 1831. Em seguida foi eleita a Regência Trina Permanente, entre 1831 e 1835. A Regência Una de Feijó governou entre 1835 e 1837. E a Regência Una de Araújo Lima governou entre 1838 e 1840. Durante a menoridade, Dom Pedro teve aulas com diversos mestre ilustres, escolhidos por seu tutor José Bonifácio. Estudou caligrafia, literatura, francês, inglês, alemão, geografia, ciências naturais, pintura, música, dança, esgrima e equitação. Os liberais moderados governavam o País com dificuldades, enfrentando os que preferiam a República. Outro grupo queria a volta de Dom Pedro I. As crises se acumulavam. Em 1840 os conservadores mantinham a maioria parlamentar e fizeram aprovar a Lei de Interpretação do Ato Adicional que reduzia as conquistas feitas pelos liberais. Esses, inconformados começaram a luta pela maioridade do imperador, então com 15 anos. No dia 23 de julho de 1840, Dom Pedro II é coroado Imperador. O ato ficou conhecido como o Golpe da Maioridade. Os primeiros anos de reinado de Dom Pedro II foram de aprendizado político. Aplicava-se inteiramente aos negócios de Estado, exercia a risca a Constituição. Aos poucos o país se pacificava. No dia 3 de setembro de 1843, Dom Pedro II esperava no porto, sua futura esposa Teresa Cristina de Bourbon. O casamento era um arranjo político com Francisco I, rei das Duas Sicílias. Tiveram quatro filhos, mas só sobreviveram Isabel e Leopoldina. A vida na corte era calma. As portas do Palácio Isabel, hoje Palácio Guanabara, eram abertas quatro vezes por ano, ao corpo diplomático e à nobreza. No início de seu governo, Dom Pedro II fez viagens diplomáticas às províncias onde estavam ocorrendo conflitos. Em 1850, Dom Pedro II ainda não completara 25 anos, mas seu império já estava consolidado. A constituição de 1824, com as modificações introduzidas pelo Ato Adicional, dava ao Imperador um Governo quase autocrático. Mas Pedro II optou, sempre, pela moderação. Os partidos políticos do Império representavam a aristocracia rural e a técnica política do Imperador era revezar os partidos no poder. Essa política sobreviveu por quase vinte anos. Dom Pedro era acusado de dedicar mais tempo aos livros do que às questões políticas. O império que gozava de certa prosperidade econômica começou a perder o equilíbrio, com as guerras na região do Rio da Prata. As forças imperiais lutaram em 1850, contra Rosas e Oribe e em 1864 contra Aguirre. Em 1865, teve inicio a Guerra do Paraguai, que durou cinco anos e finalmente o Paraguai foi vencido. Ao terminar a guerra, o movimento abolicionista tomava impulso e no Rio de Janeiro fundava-se em 1870, o Partido Republicano. Na década de 70, Dom Pedro II viajou duas vezes à Europa, deixando sua filha a Princesa Isabel como Regente. Em ambos os momentos a princesa resolveu causas difíceis. Em 1871, assinou a lei do Ventre Livre e em 1875 foi resolvida a Questão Religiosa. Em 1886, Dom Pedro adoece e parte novamente para a Europa. No dia 13 de maio de 1888, com a Regência da Princesa Isabel, é assinado o decreto que acaba com a escravidão no Brasil. O ideal republicano que surgiu no Brasil em vários movimentos, como na Guerra dos Farrapos e na Revolução Praieira, só após a Guerra do Paraguai ressurgiu e se fortaleceu. No dia 15 de novembro de 1889, pela conjugação de interesses políticos, o governo imperial foi derrubado. Estava proclamada a República no Brasil. No dia seguinte organizou-se um Governo Provisório, que deu 24 horas para Dom Pedro deixar o país. Dom Pedro de Alcântara embarca com a família para Portugal. Era 17 de novembro de 1889, dois dias após a proclamação da República. Chegando em Lisboa no dia 7 de dezembro seguiu para o Porto, onde a imperatriz morreu no dia 28 do mesmo mês. Pedro, com 66 anos, segue sozinho para Paris, onde fica hospedado no Hotel Bedford, onde passava o dia lendo e estudando. As visitas à Biblioteca Nacional eram seu refúgio. Em novembro de 1891, doente não saia mais do quarto. Morreu no dia 5 de dezembro de 1891, em consequência de uma pneumonia. Seus restos mortais são transladados para Lisboa, e depositados no convento de São Vicente de Fora, juntos aos da esposa. Quando revogada a lei do banimento em 1920, os despojos dos imperadores foram trazidos para o Brasil e depositados na Catedral do Rio de Janeiro, em 1921. Em 1925, foram transferidos para Petrópolis.








NA MORTE DO MEU PROMOGÊNITO



Pode o artista pintar a imagem morta
da mulher a quem dera a própria vida;
E o amigo, na extrema despedida,
a imitar-lhe os exemplos nos exorta.

Casto e saudoso beijo inda conforta
a esposa que a ventura crê perdida;
mas dizer o que sente a alma partida
do pai a quem, ó DEUS, tua espada corta

a flor do seu futuro, — o filho amado,
quem o pode, Senhor? Si mesmo o Teu,
só morrendo, livrou-nos do pecado!...

A terra à voz do Gólgota tremeu:
e o sangue do cordeiro imaculado
até o próprio céu enegreceu!



***




TERRA DO BRASIL


Espavorida agita-se a criança,
de noturnos fantasmas com receio,
mas se abrigo lhe dá materno seio,
fecha os doridos olhos e descansa.

Perdida é para mim toda a esperança
de volver ao Brasil; de lá me veio
um pugilo de terra; e nesta creio,
brando será meu sono sem tardança...

Qual o infante a dormir em peito amigo
tristes sombras varrendo da memória,
oh, doce Pátria, sonharei contigo!

E, entre visões de paz, de luz, de gloria,
Sereno, aguardei no meu jazigo,
a justiça de Deus na voz da Historia!




***


O POETA

(GOETHE)

Prefiro a solidão.  A minha austera Musa
sempre sentiu horror dessa turba insensata;
quero longe ficar da multidão confusa,
Que a um abismo fatal as almas arrebata!

Gosto de respirar os fluidos incolores
que no espaço derrama o astro soberano;
No seio da amizade ou de castos amores
Expande-se melhor meu estro sobre-humano.

O que além contra nós baixinho se murmura,
O que chegue a aspirar uma alma delirante,
Pode a verdade ser, mas poder loucura,
Que brilha muito, mas... se apaga num instante!


GERALDO CARNEIRO (1952 - )



Geraldo Eduardo Carneiro nasceu em Belo Horizonte, capital de Minas Gerais. Três anos mais tarde, mudou-se para o Rio de Janeiro. Poeta, publicou Na Busca do Sete-Estrelo (1974, Mapa Editora), Verão Vagabundo (1980, Editora Achiamê), Piquenique em Xanadu (1988, Espaço & Tempo, Prêmio Lei Sarney de melhor livro do ano), Pandemônio (1993, Arte Editora), Folias Metafísicas (1995, Editora Relume-Dumará), Por Mares Nunca Dantes (2000, Editora Objetiva), Lira dos Cinqüent’anos (2002, Relume-Dumará) e Como um cometa (infantil), (2009, IBEP Nacional). Lançou, em setembro de 2010, Poesia Reunida, Ed. Biblioteca Nacional/Ed. Nova Fronteira. Publicou ainda Vinicius de Moraes: A Fala da Paixão (1984, Brasiliense) e Leblon: A Crônica dos Anos Loucos (1996, Rioarte/Relume-Dumará). Lançou também a tradução de alguns sonetos de W. Shakespeare, na coletânea Sonhos da Insônia (1997, Impressões do Brasil), publicada em parceria com Carlito Azevedo. Escreveu mais de duas centenas de letras para músicas de Egberto Gismonti, Astor Piazzolla, Francis Hime, Wagner Tiso e outros, gravadas por diversos intérpretes, entre os quais os acima mencionados e mais Tom Jobim, Ney Matogrosso, Gal Costa, Olivia Byington, Miúcha, Fafá de Belém, Gal Costa, Lenine, Zé Renato, Zezé Motta, Vinicius de Moraes e Michel Legrand. Foi traduzido, radiofonizado e publicado em francês, inglês, espanhol e italiano. Também com Francis Hime, escreveu poemas para a cantata Carnavais, executada em 1988, e para a Sinfonia do Rio de Janeiro de São Sebastião, encomendada pelo Governo do Estado, que estreou em 2000, no Teatro Municipal. Escreveu artigos, poemas e ensaios para a maior parte das publicações brasileiras. Teve diversos textos teatrais encenados, originais e traduções, entre os quais A Tempestade e As You Like It, ambas de William Shakespeare (encenadas em 1982 e 1985, sendo a primeira publicada pela Relume-Dumará), A Bandeira dos Cinco Mil Réis (encenada em 1986, publicada em 1992), Manu Çaruê (ópera performática com música de Wagner Tiso, encenada em 1988). Escreveu roteiros de cinema, minisséries e participou da criação do programa Você Decide, do qual foi supervisor de texto. Adaptou diversas obras literárias para a TV, entre as quais a minissérie O Sorriso do Lagarto, de João Ubaldo Ribeiro, e especiais para as séries Brasil Especial e Brava Gente.






RECADO NO AVIÃO*


busco em você o sol do meu sistema
eu circulando sempre ao seu redor.
busco em você o bem e o mal de amor
o sonho o carnaval e a dor maior

não sei em que sessão, em que cinema
você nasceu do mar como sereia,
desde que encarnação você passeia
na Ipanema da imaginação

só sei que é cedo sempre que te vejo
e acendo o sol de que o desejo é feito
e fica aqui pairando e percebendo
que até agora o mundo era imperfeito





***


CANÇÃO DO EXÍLIO


o poeta sem sua plumagem
é um deus exilado do cosmo
strip-teaser metafísico
só lhe resta sambar no inferninho
                   do caos
sob os neons do nada
sempre nu diante do espelho
sem espelho diante de si



***



AUTORRETRATO DEPRÊ


não sei mais quase nada do que fui
toda a memória vai virando escombros.
hoje me reconheço mais nos outros
poetas que freqüento desde sempre.
a face deles segue imperturbada
enquanto eu sofro as erosões do tempo.
todo poeta nasce um pouco póstumo
como volúpia de vencer a morte.
a morte, esse ser vasto e corrosivo
que nos vai corroendo desde dentro



* Todos os poemas desta postagem foram uma sugestão de meu amigo e crítico literário Jessé de Almeida Primo



sexta-feira, 20 de maio de 2016

IARA MARIA CARVALHO (1980 - )

Iara Maria Carvalho nasceu em 1980, em Currais Novos, Seridó norte-rio-grandense. É graduada em Letras e mestra em Estudos da Linguagem, pela UFRN. Atua como agente cultural em sua cidade, através do Grupo Casarão de Poesia. Como poeta, venceu o 3º Concurso de Poesia Zila Mamede (Parnamirim/RN, 2006) e obteve a 3ª colocação no Concurso Nacional de Poesia Helena Kolody (Curitiba/PR, 2010), dentre outros concursos. Como poetisa, Iara participou de várias antologias coletivas, resultantes de premiações. Sua estreia em livro-solo deu-se em 2011 com a coletânea Milagreira. Seguido de Saraivada, publicado em 2015. 





SARAIVADA



apresso o passo,
que lá vem o silêncio.

corra:
ele consome
suas melhores preces.

voar é grande
— então voe.

exploda
espalhe
ecoe.

não recolha os cacos de
memória e osso
nem amacie o dorso ferido
dos campos minados.

desfira um golpe
misericordioso
no corpo sem carne
do silêncio.

e com o sangue escorrido
escreva um livro.


***



DESFEITA

cortei cabelo,
unhas
e todos os carboidratos.

os meus pulsos,
porém,
ainda estão intactos.

***


Trajeto


fui acontecida
desde a noite de natal
quando no cimo da árvore
cravaram espinho
pedra
e mel

morri no nome
quando não pude nadar

cantar então é um enorme
cacto
na garganta.


quinta-feira, 19 de maio de 2016

BANDEIRA DE MELLO (1918 - 2008)




Poeta, ensaísta, advogado, nasceu em Caxias, Maranhão, em 1918. Foi membro da Academia de Letras do Maranhão. Obra poética:  A viagem humana (1960), O mergulhador (1963), Canções da morte e do amor (1968), Da humana promessa (1976), Uma canção à beira-mar (1977), Durante o canto (1978), A estrada das estrelas (1981), Da constante canção (1983).





UM CORPO DE MULHER



Este corpo de mulher
cálido
me atrai com seu mistério
trágico

A curva da costa
se funde
na curva da sombra

Este corpo de mulher não aterrado
Infenso ao trágico

As longas coxas morenas
confundidas com a sombra
descerram a guarda mais negra que vela no fundo
que vela um abismo
entredisfarçados pelos sobre o abismo
atrás do qual lateja o sangue estrelado
do universo


único verso



***



SONETO DA SAUDADE

A volta aos dias claros da viagem
quando meu corpo esguio adolescia
e o espetáculo do mundo transcorria
a meus olhos leveza de miragem

Quando o brilho do campo era a imagem
do que dentro de mim acontecia
era tudo manhã do mesmo dia
encontrada nas cores da paisagem

Ainda escuto vozes peregrinas
ensurdecidas distanciadas sinais
que se passaram céleres no vento

Ontem tudo tão vivo, hoje desmaia
não há asa de vôo que não caia
na laje deste meu esquecimento.


***




HOJE MANHÃ

Todo hoje tem amanhã, como o eu o objeto,
Tudo o que é será o seu futuro
A pedra o sangue o Iodo o lírio o afeto
flor humana que nasce de monturo

As estrelas brilhando em céu dileto
refervilhavam em caos prematuro
o irradiante clarão provém direto
da dor da fricção do ventre escuro

Sendo eu o que serei, serei  já sendo
inelutavelmente condenado
a meu próprio amanhã e ao de tudo

então se cumpra logo o ciclo horrendo
sendo eu o meu porvir mas apagado
no vivo mar desafogado...    mudo.


AFFONSO HELIODORO (1916 - )

Affonso Heliodoro nasceu em Diamantina, em 1916, e foi aluno da mãe do presidente conterrâneo, Júlia Kubitschek. Também trabalhou com JK no governo de Minas Gerais e coordenou as campanhas políticas do político. Mesmo após o fim do governo do ex-presidente, Heliodoro continuou a acompanhar o amigo de infância nos anos de exílio, em Paris. De volta ao DF, comandou o Memorial JK desde a abertura do espaço, em 1981, até 1997. Com 100 anos muito bem vividos, o pioneiro segue atuando na área cultural, como presidente do Instituto Histórico e Geográfico do DF.







PAZ

Esta noite tu dormias tão tranquila!
Teu respirar ritmado trazia-me aos ouvidos
músicas que ninguém ouviu.
Só eu, apaixonado, pude encantar-me
com os acordes dos anjos que,
no ritmo suave de teu sono,
tocavam, de leve, as cordas de suas harpas
e delas tiravam notas e sons celestiais.
A harmonia de teu sono encheu de paz
o nosso quarto.
Mais uma noite feliz ao lado teu.

***


 
VÊNUS CIUMENTA

Desponta lá no céu a lua cheia!
Sobe airosa e toda se enfeita.
Brincam e bailam ao seu redor
milhões de estrelas!
Vénus enciumada afasta-se do bale.
Orgulhosa, fica lá em baixo,
lá embaixo, sozinha.

Perco meus olhos pelas alturas.
Sonho.

Surpreendo-me a vogar pelo passado.
Cenas de um tempo que se foi.
Acordo e vejo as marcas que ficaram
e hoje voltam à minha realidade.


***
                                 

ACALANTO

Para embalar teu sono de menina
fiz do meu canto doce melodia.
Minh'alma ao ver-te toda se ilumina.
Se escura a noite, para mim é dia.

Teu sono leve, ao leve respirar,
é belo encanto que me alegra a alma.
Vendo-te pura e doce para amar
sinto que me seduz e a alma me acalma.

Olho-te mais e mais me asseguro:
Caminhos vários aqui me trouxeram,
ao porto desta vida em que seguro

meu pobre barco que vogava ao léu,
por mares turvos que te antecederam,
encontra em ti a terra firme e o céu.


sábado, 16 de abril de 2016

JORGE MEDAUAR (1918-2003)


Jorge Emílio Medauar nasceu em Água Preta do Mocambo, sede do então distrito de Ilhéus, hoje cidade e município de Uruçuca. Descende de pais sírio-libaneses. É da chamada “Geração de 45”. Em 1959 foi galardoado com o Prêmio Jabuti, da Câmara Brasileira do Livro na categoria "Contos/crônicas/novelas", mesmo ano que Jorge Amado ganho na categoria romance. Foi diretor geral da sucursal paulista de O Globo e, no Rio, secretário da revista Literatura. Era membro da Academia de Letras de Ilhéus e da Academia de Letras do Brasil, com sede em Brasília. Prêmio Jabuti em 1959.








Canto da minha terra

Todos cantam sua terra,
também vou cantar a minha.

Minha terra tem coqueiros,
coco mole, babaçu,
piaçaba, carnaúba,
macaxeira,  jerimum.

Minha terra tem talentos,
Castro Alves, Rui Barbosa,
meu xará, um romancista,
Jesus Cristo que é de lá.

Todos cantam sua terra.

Minha terra tem Bonfim,
cangerê, urucubaca,
Iemanjá, Oxolufã,
Pai-de-santo, candomblé.

Minha terra tem saveiros,
procissão e romaria,
pescador e jangadeiro,
lua cheia sobre o mar.

Minha terra tem jagunços,
tem tocaias e caxixes,
tem São Jorge cavaleiro,
e outros santos de valor.

Minha terra tem dendê,
mugunzá e caruru,
tapioca, acarajé,
mingau de puba e beiju.

Todos cantam sua terra,
também eu cantei a minha.


***




Autobiografia

Meu nome todo é Jorge Emílio Medauar
Filho de imigrantes árabes
Tenho ficha na polícia cidadão indesejável elemento
                                                                      [agitador
E amo gatos bichinhos miúdos sem importância
Nunca matei passarinho (uma vez fui, a mão tremeu)

Amo amizades construídas em bar esquina cabaré
O rio da minha terra
O mar onde pulo em mergulhos
Onde vejo barcos gaivotas penso em piratas
                                                        [heróis da infância
Penso em viagens conhecer tudo quanto é
                                                        [canto do mundo
Amo até porque compreendo os que me magoam
Quando nasci em Água Preta meu pai como
                                                         [qualquer pai
Se alegrou deu dinheiro aos pobres
Farinha e carne seca aos cegos de feira
Minha mãe fez promessa prometeu meu nome a
                                                        [São Jorge meu protetor
Também fui batizado crismado como cristão

Cresci aprendi sofri amei
Amei tanto que virei poeta para amar também
Esta coisa que me espreme o coração
Isto que me dá de noite de manhã a qualquer
                                                         [momento
Que me põe na mesa me obriga a chorar
A ver letras tremendo em minha frente
Gota de lágrima escorrendo pelo rosto borrando
                                                        [a página

Por hoje
- Adeus





***



Soneto          


Sabei, sabei que fiz de antigos cedros
Barcos que a infância pôs à flor das ondas:
Meu pai, que é Medauar, teceu-me as velas
E a filha dos Zaidans, que é minha mãe,

Pôs amoras de mel no tombadilho.
Nesses barcos navego, marinheiro
Fenício do Zodíaco e dos trópicos
Vermelhos de lamentos e canção

Hoje tenho lagunas onde aporto,
Tranquilamente, sob a lua branca,
O coração de Tâmara madura.

Se vos trago damascos e Kakláua
É porque recebi dos velhos árabes
Um lastro de doçura nesses barcos.


ZACARIAS MARTINS (1957 - )



Zacarias Gomes Martins nasceu em Belém do Pará e reside em Gurupi, Tocantins, desde 1983. É membro fundador da Academia Tocantinense de Letras e do Conselho Municipal de Cultura. Entre seus principais livros de poesia: Transas do Coração (1978), O poeta de Belém (1979), Poetar (1980), O Profeta da felicidade (1984), Vox Versus (1986) e Pinga-fogo (2004).




POLIVALENTE

Conserto quase tudo
mesmo que às vezes
possa provocar
alguns estragos.

Fazer o quê?
Ninguém é perfeito!


***



SORRISO ENIGMÁTICO

À noite,
ficava horas a fio
com aquele sorriso maroto,
mergulhada em seus pensamentos.
Jamais se conformou por ser apenas
uma dentadura num copo d´água!


***


 
SONHÓDROMO

Não me impeçam de viver o meu sonho.
Também tenho o direito de sonhar,
mesmo que às vezes,
isso incomode muita gente
por causa do barulho.


ODYLO COSTA, FILHO (1914-1979)

Filho do casal Odylo de Moura Costa e Maria Aurora Alves Costa, transferiu-se ainda criança do Maranhão para o Piauí, onde fez estudos primários e secundários em Teresina, os primeiros no Colégio Sagrado Coração de Jesus e os segundos no Liceu Piauiense. Desenvolveu, assim, dupla afetividade de província, fraternalmente desdobrada entre as duas cidades, e estendida a Campo Maior, no Piauí, onde nasceu sua mulher, D. Maria de Nazareth Pereira da Silva Costa, com quem se casou em 1942, sob a bênção de três poetas: Manuel Bandeira, Ribeiro Couto e Carlos Drummond de Andrade, padrinhos do casamento. Mas já aos 16 anos, em março de 1930, Maranhão e Piauí ficaram para trás e Odylo Costa, filho, em companhia dos pais, fixou-se no Rio de Janeiro, bacharelando-se em Direito, pela Faculdade Nacional de Direito da Universidade do Brasil, em dezembro de 1933. Desde os 15 anos, porém, já se revelava no jovem maranhense a vocação de jornalista, que encontrou, aliás, seu primeiro abrigo no semanário Cidade Verde, de Teresina, fundado em 1929. Por isso mesmo, em janeiro de 1931, conduzido por Félix Pacheco, entrou Odylo para a redação do Jornal do Commercio, onde permaneceu até 1943. O jornalismo, entretanto, embora ocupando boa parte de sua atividade intelectual, não o fazia esquecer a literatura e, em 1933, com o livro inédito Graça Aranha e outros ensaios, publicado no ano seguinte, obtinha o Prêmio Ramos Paz da Academia Brasileira de Letras. Em 1936, em colaboração com Henrique Carstens, publica o Livro de poemas, de 1935, seguido, nove anos mais tarde, do volume intitulado Distrito da confusão, coletânea de artigos de jornal em que, nas possíveis entrelinhas, fazia a crítica do regime ditatorial instaurado no país em 1937. Mas o jornalismo, apesar desses encontros sempre felizes com a literatura, foi na verdade sua dedicação mais intensa, exercido com notável espírito de renovação e modernidade. Deixando o Jornal do Commercio, Odylo Costa, filho, foi sucessivamente fundador e diretor do semanário Política e Letras (de Virgílio de Melo Franco, de quem foi dedicado colaborador na criação e nas lutas da União Democrática Nacional); redator do Diário de Notícias, diretor de A Noite e da Rádio Nacional, chefe de redação do Jornal do Brasil, de cuja renascença participou decisivamente; diretor da Tribuna da Imprensa; diretor da revista Senhor (1961 — 1962); secretário do Cruzeiro Internacional; diretor de redação de O Cruzeiro e, novamente, redator do Jornal do Brasil, função que deixou em 1965, ao viajar para Portugal como adido cultural à Embaixada do Brasil. Mas nem sempre, ao longo dessa extraordinária atividade, foi apenas o jornalista de bastidores, o técnico invisível. Em 1952 e 1953, exerceu a crítica literária no Diário de Notícias, onde também criou e manteve a seção "Encontro Matinal", juntamente com Eneida e Heráclio Sales. Durante prolongado período, publicou uma crônica diária na Tribuna da Imprensa. Em 1953 foi eleito membro da Academia Maranhense de Letras, sucedendo Clodomir Cardoso, jurista, escritor e político maranhense falecido em 31 de julho daquele ano. A partir de 1963, circunstâncias dolorosas levaram-no de volta a uma prática mais constante da poesia, que não abandonara de todo embora fugisse à publicação em letra de fôrma e até mesmo à leitura pelos amigos mais íntimos. E foi o maior deles, Manuel Bandeira, ao preparar a segunda edição da sua Antologia dos poetas brasileiros bissextos contemporâneos, o primeiro a ler alguns desses poemas, sobretudo os inspirados pela morte de um filho ainda adolescente, que tinha seu nome, poemas esses que Manuel Bandeira colocava entre "os mais belos da poesia de língua portuguesa". Animado ainda por Manuel Bandeira, Raquel de Queirós e outros amigos, Odylo Costa, filho, reuniu afinal seus versos em volume publicado em Lisboa em 1967. Ampliado com os poemas da Arca da Aliança e abrangendo toda a poesia do autor, saiu o volume Cantiga incompleta em 1971. Mas se a poesia foi constante presença em sua vida, a ficção também participou de sua bibliografia literária desde 1965, quando, aos 50 anos, publicou a novela A faca e o rio, traduzida para o inglês pelo professor Lawrence Keates, da Universidade de Leeds, e para o alemão por Curt Meyer-Clason. Com o mesmo título, A faca e o rio foi adaptada para o cinema pelo holandês George Sluizer. À edição portuguesa de A faca e o rio (1966), acrescentou Odylo Costa Filho, o conto A invenção da ilha da Madeira, nova e feliz experiência do ficcionista até então oculto pelo poeta, e ainda prolongada no conto História de Seu Tomé meu Pai e minha Mãe Maria, em edição fora do comércio.






A MEU FILHO

Recorro a ti para não separar-me
deste chão de sargaços mas de flores,
onde há bichos que amaste e mais os frutos
que com tuas mãos plantavas e colhias.
.
Por essas mãos te peço que me ajudes
e que afastes de mim com os dentes alvos
do teu riso contido mas presente
a tentação da morte voluntária.
.
Não deixes, filho meu, que a dor de amar-te
me tire o gosto do terreno barro
e a coragem dos lúcidos deveres.
.
Que estas árvores guardam, no céu puro,
entre rastros de estrelas, a lembrança
dos teus humanos olhos deslumbrados.



***



SONETO DE AMOR CARNAL

Há, neste amor carnal, esquecimento.
Vem de repente, bruto como a sede,
e desfaz sob a chuva e sob o vento
os afrescos e as sombras da parede.

Desmancha-se o mortal encantamento
na unidade da trama de uma rede
de veias. Desce o nada. E esse momento
é um copo d´água para a eterna sede.

Mas o que pacifica, o que transcende
e faz da vida um vinho sempre lúcido,
é a confusão das almas na saudade.

Ela que em teu cabelo a luz acende,
que o mundo a nossos olhos faz translúcido
e transverbera o chão na eternidade.



***



REZA

Meu Deus, tende pena
do que resta em mim:
nem o mundo é feio,
nem a vida, ruim.

Meu Deus, dai-me força
de amar minha sorte:
fazer luz de vida

das trevas da morte.

terça-feira, 1 de março de 2016

ESPECIAL: "CANTARES DE ARRUMAÇÃO"...

 
“CANTARES DE ARRUMAÇÃO”
(por Lucifrance Castro)



Feira de Santana, além de ser um dos mais importantes polos industriais e comerciais do Brasil, há muito deixou claro que é igualmente importante culturalmente. Uma cidade que possui bibliotecas, Filarmônicas, centros culturais, Universidades, Faculdade de Música; rica de bons músicos, de teatro, e, claro, de grandes poetas e escritores. Algo que se pode perceber pelos muitos feirenses que se têm destacado no cenário literário nessas últimas décadas.

Muitos desses mais novos nomes podem ser conferidos na antologia Cantares de Arrumação: panorama da novíssima poesia de Feira de Santana e Região (Mondrongo, Itabuna, 2015), organizada por Silvério Duque, com lançamento marcado para o dia 03 de março, quinta-feira, no Radiola Lanchonete Cultural, que fica na rua 1o de maio, no 20, no bairro São João, rua que fica de frente ao Mercantil Rodrigues da Avenida Maria Quitéria, cuja proposta não é menos que compilar, em uma mesma obra, os principais nomes da literatura feirense e região; àqueles que lançaram seus livros a partir dos primeiros anos deste século, e que vêm, cada uma à sua maneira, garantindo destaque e prestígio nos meios literários desde então.

A ideia de organizar um panorama da novíssima poesia feirense e região, segundo seu organizador, parte de um projeto muito maior e há muito posto em prática pela Mondrongo, afirma Silvério Duque. Ao lançar sua antologia: Diálogos: panorama da nova poesia Grapiúna, o poeta e editor, Gustavo Felicíssimo, audaciosamente, achou por bem da literatura baiana e de seus poetas e leitores, estender tamanho trabalho a outras regiões do Estado, e, assim, traçar, da melhor forma possível, um painel com o que de mais novo e melhor se tem feito em matéria de poesia em toda Bahia; desta forma, foram-se editando um “panorama” da poesia da região norte, chapada, oeste da Bahia, etc.

A incumbência de traçar um retrato da novíssima poesia de Feira de Santana e Região ficou com o poeta Silvério, natural de Feira, que é também músico profissional e professor de Literatura Brasileira e História da Arte. Silvério, que é autor de cinco livros de poesia (três, pelo menos, no mercado): O crânio dos Peixes (Ed MAC, 2002), Baladas e outros aportes de viagem (Edições Pirapuama, 2006), A pele de Esaú (Via Litterarum, 2010), Ciranda de Sombras (É Realizações, 2011) e Do Coração dos malditos (Mondrongo, 2013), diz que a maior dificuldade de se fazer um trabalho como esse é estabelecer critérios rígidos para compilação em um universo tão vasto de ideias, estilos e temas; por isso mesmo, segundo ele: “tive que escolher não só autores nascidos em Feira, mas autores que escolherem a ‘Princesa do Sertão’ para morar, ou se fizeram, educaram-se e se descobriram versificadores por aqui, principalmente através da UEFS”. E completa: “a antologia era para destacar os principais nomes de nossa poesia entre os novos poetas, mas escolhi poetas mais experientes por terem lançado seus primeiros livros há pouco; ou seja, estão começando agora também; são tão ‘novos’ quanto os demais”.

    Além da organização de Silvério Duque, Cantares de Arrumação conta também com capa ilustrada por Gabriel Ferreira, artista plástico nascido em Tanquinho, ou seja, completamente inserido no contexto da obra, e texto do poeta Antonio Brasileiro. Cantares de Arrumação conta com nomes de significativo destaque na atual poesia baiana como Luiz Antonio Carvalho Valverde, Sandro Penelú, Anne Cerqueira, Araylton Públio, Patrice Machado de Moraes, Fábio Bahia, Idmar Boaventura, Herculano Neto, Ísis Moraes, Ribeiro Pedreira (Dado), Ronald Freitas Anunciação, Nívia Maria Vasconcellos, Valquíria Lima, Thiago El-Chami, Wesley Correia e Clarissa Macedo. Para o poeta Antônio Brasileiro, que também prefacia a antologia, são “todos herdeiros da grande linhagem que vai de Baudelaire, na França, a Drummond, entre nós, passando por Mallarmé, Rimbaud, Valéry, Eliot e o grande Fernando Pessoa, estão (e sabem disso) imbuídos daquela certeza maior dos criadores: há sempre que perguntar pelo sentido das coisas e do mundo. Como, sobretudo, quer a grande poesia”.

O livro conta também com um estudo de seu organizador sobre a história da poesia feirense, do século passado até agora. Segundo Silvério Duque: “a ideia do estudo é unir essa produção da poesia feirense desde Aloísio Resende, no inicio do século passado, seguindo com Eurico Alves Boaventura, e revista Arco & Flexa, não esquecendo, obviamente, do grupo Hera e seus representantes, unindo-os juntamente com seus contextos histórico-culturais a esses novos nomes que se descobrem agora em Feira de Santana”. Segundo o poeta e jornalista Emanoel Freitas, “a proposta de Silvério Duque em organizar uma antologia de novos poetas feirenses é mais um testemunho do desenvolvimento cultural de nossa cidade que agora ganha um registro especial” (Viva Feira, editorial; 25 de janeiro de 2016), e está mais do que certo.

O que esperamos de um trabalho como este é que ele seja lido e estudado, independentemente de concordar ou não com as escolhas e critérios do autor, para que estudos semelhantes surjam, e que a poesia baiana, e, juntamente com ela, a feirense, alcance alturas cada vez maiores.






 Candeias, 25 de janeiro de 2015.



ANTOLOGIA


Travessia

(por Luíz Antônio Carvalho Valverde)




 Pasmo de beira de rio
sofrendo vagar,
pelo que está no meio,
o impossível.

Na terceira margem do adeus
vasto céu, a suprema intriga,
onde sabemos que achar
é não ocultar o homem,
mas expô-lo por inteiro e perdido,
paralisado na travessia.





















Pedras e ruas

(por Sandro Penelú)




A rua não é mais a mesma;
a noite não é mais a mesma;
a Lua procura ansiosa;
o teu corpo que guarda um corpo.

As pedras da rua não são mais as mesmas...
Busco inútil pelo sorriso.
A roseira ainda guarda um fio de cabelo
que o vento brinca, balançando-o.

As pedras, a rua e eu
não são mais os mesmos...

























Poema revisitado

 (por Anne Cerquiera)




Quero te dar um presente, meu amigo
aquele velho livro ou disco
porque aqui tudo é velho
até mesmo o que acaba de sair do forno
já sai condenado. Vou ler um dos meus poemas
preferidos
para você achar que a vida tem jeito
e só os poetas sofrem
como Maiakovski
ou Bukowski que queria derreter a morte
com versos
como se derrete manteiga
e ele nem tinha ilusões, veja só
sinto pena.
De mim e de você que nada somos
e desafiamos a morte no supermercado.
Quero te dar um presente, meu amigo.
Talvez uma quantia em dinheiro
que te sustente na velhice se você chegar lá
envergado desse jeito
inútil desse jeito
da mesma forma que eu
que já vivi noventa anos em quarenta
(e foram só meses)
e nem tenho nada para te oferecer
pois tudo é gasto.
Vamos ouvir música
comer bobagens
atravessar a rua sob o sol de meio dia
porque é isso que nos resta.
Sou infantil, egoísta e confusa e quero te dar um presente, meu amigo
para que você me odeie profundamente
e diga:
não sei o que fazer com isso. E assim seremos iguais mais iguais que os outros.
Numa irmandade que não nos salva
nem preserva
não é bondosa
nem misericordiosa
nem má. Não existe por códigos especiais e secretos
nem nos torna especiais ou melhores
ou piores
ou diferentes.
Não nos subtrai, nem acrescenta. Mas pela graça de Deus
não nos pede retorno.
Toma é tua essa pedra.
Verbo.
Meu amigo, não sei para que serve
e talvez seja esta sua única função. 































Trato feito

(por Araylton Públio)




Meu rei, dê-me sua licença
Vou ganhar o mundo todo
Pra pegar tudo que é meu
Só lhe rogo a dita bença
Pra ventura deste seu
Ela há de ser a bonança
E me encher de confiança
Tocha aberta contra o breu


Dê-me logo a tal licença
Não posso me demorar
Sigo reto em minha crença
“Sei que um dia vou voltar”
Por ora me espera a prenda
Que tenho de conquistar
Coragem pra qualquer senda
Sei que sua bênção dá


Não se aperreie, eu volto
Dito e feito, pode crer
De promessa, jura ou voto
Como eu posso me esquecer?
Meu rei, deixe-me ir embora
Tenho muito a conhecer
Por mundos aí afora
Desejo me embevecer


Só lhe peço essa graça
Para em paz poder partir
Vou atrás da própria caça
Melhor forma de existir
Agradeço pelo amparo
Pela consideração
Mas o meu caminho é caro
Trato feito, beijo mão











































Amor, escreve em mim teu alfabeto...

(por Patrice de Moraes)




 Amor, escreve em mim teu alfabeto.
Registra a cor local do teu traçado.
Povoa cada milímetro ofertado
como povoa a planta o arquiteto.

Implanta introdução do bem concreto
que és tu, neste papiro rasurado.
Teu desenvolvimento inacabado
fará da conclusão pseudoprojeto.

Porque tudo que almejo é ser um texto
composto à densidade do contexto
do vernáculo em ti constituído.

Um texto de idioma universal
que assente o seu império lexical
fluente à proporção que seja lido.




















HAI-KAI

(por Fábio Bahia)




Onde está da vida, a magia?
Ora, até os animais sabem
vivemo-la todos os dias.


































Elefantes

(por Idmar Boaventura)




 Há algo de mágico nos elefantes;
estes, no trapézio, são só engraçados.
Ainda assim, há algo escondido
em seus olhos:
são elefantes, ainda lembram.

Se não havemos de saltar, por que
haveríamos de saltar?
Vejo do alto os homens, e os homens doem.
Há sempre algo de triste em ser uma estrela.


























Direito prescrito

(por Herculano Neto)




nasci
com defeito de fábrica
defeito na alma

minha mãe não notou
meu pai não notou
ninguém notou

só perceberam
quando achei de me remendar
me colar
me parafusar

aí já era tarde























Ultimato

(por Ísis Moraes)




Quem navega naufraga,
meu caro Ulisses.



































Pequeno tratado sobre a inveja

(por Ribeiro pedreira (Dado))




Hoje eu descobri
que a inveja envelhece.

Só que as rugas aparecem
não na pele, mas no olhar.






























Uma outra história

(por Ronald Freitas)




Na curva daquela estrada
a escuridão não veio.

(na curva, o dia era apenas sol)

Pena que não passamos por aquele caminho,
vivemos alheios às curvas.
































Escondedouro do amor

(por Nívia Maria Vasconcellos)




O amor não está na estrela
que, ao cair, carrega o pedido sussurrado,
ele está no olhar que a percebe e espera.

Não, o amor não está nas cartas
lançadas por mãos sobre mesas postas,
ele está na tensão de quem as ouve e deseja.

Búzios, números e datas
não contêm o amor,
ele não está numa procura.

Rezas, promessas e velas
não trazem o amor,
só a esperança de encontrá-lo.

Mas, ninguém encontra o amor,
ele é (misteriosamente) despertado...
num momento de distração e abandono.












Movendo-se...

(por Valquíria Lima)




 Como o vento,
assim meus pensamentos.
Como a brisa,
sempre precisa.

Como a tempestade,
baila o meu corpo.
Como os raios,
Explodo.

E de mim
eu saio,
ensaio
e volto sempre.

Na dança da minha cabeça
No bailar dos meus olhos.

No balançar da noite
e no movimento dos dias!

















O Herege

(por Thiago El-Chami)





"Meu irmão, tu és réu desta heresia!
 Grave abjuração, incúria extrema!
 Renegaste ao teu Deus em voz blasfema!
Pagarás com teu sangue à Confraria"!

"Há um engano, senhores! Na homilia
que ora vos submeto, a Lei Suprema
em mil versos proclamo. Vede o tema!
Eis que apelo à vossa fidalguia"!

 Veio então a sentença: "o teu Destino,
ao quebrar o silêncio do Divino,
e ao fazer desta quebra o teu ofício,

será errar pelo mundo, só, perdido
e falar, sem jamais ser compreendido:
ser poeta, homem: eis o teu suplício"!



















Ação de despejo

(por Wesley Correia)




Chegaram o promotor,
                    o juiz,
                    o policial.

Só os cristais,
na prateleira empoeirada,
permanecem incólumes.































Daniel

(por Clarissa Macedo)




 Vem descendo da torre
como quem desce ao Jardim.

O semblante em asas.

Caminha forte, assombrado
de luz, coberto de si.

Na cova, onde pasmado
contempla jubas alegres,
toca o fogo que aparece:
anjo comensal da Graça.

Nessa Fé, toda em redemoinho,
já não se sabe quem é
anjo, leão, homem ou nada.

Todos voam na cova
em aurora, todos passarinhos.