sexta-feira, 30 de setembro de 2016

MARIA LÚCIA MARTINS (1966-2016)

Baiana da região de Jequié é licenciada em Filosofia pela Universidade Estadual do Rio de Janeiro e especialista em Educação Matemática e Psicopedagogia  Clínica e Institucional,  é também autora de muitos livros de poesia: Espaço perplexo (1985), Entre medos, brinquedos (1993), Tempo indômito (1990) e A condição do Pégaso (2004).









GARÇAS


Antes não havia garças. (Antes
                            dos ventos).
Restos de estrelas navegavam a noite
                            (a nuvem escura)
e se alvejavam em seixos e ossos.
                            À mesma noite
acrescentam-se sombras: eram as penas
                            e a plumagem.
As garças não eram feitas: surgiam. Leves,
                            feitas de vôo
(o vôo primeiro). Garças de asas
                            emendadas em asas,
as garças passam penhascos, além,
                            os prados cinza.
O verde inda é longe. Longe, as aves
                            adivinham a terra.
As garças descem (como atraídas) e
                            sentem a primeira
sede. A água compreendida pela
                            sede. Jamais
a informação da água: as garças gestadas
                            de puro vôo.
Nos ventos, o olhar enfastiou-se.
As garças buscam clarão de madrugadas
(ou de crepúsculos: nenhum sinal
por distinguir a cor das horas).
As garças pisam areias virgens
(imprimem sua chegada: a cruz aberta)
beiras de charcos, beiras de lagos,
restos de mar incendiados ao meio-dia.

Às vezes, as garças se animam
com o assovio dos ventos chamando
a noite. E dançam. Dançam o passado
cravado às asas. Nunca procuram
caminhos de volta: foram apagados.
 

***



AUSÊNCIA


Este meu jeito estranho
de olhar dentro de mim
e não passar nenhum encanto ao Téo,

este meu jeito canhoto
de estranhar o mar, o ar, o quarto,
e o nó, à garganta, travado
ao elevador,

dá-me a esperança de que nem tudo
é meu desajeito: é tua ausência mesmo,
refletida na curva do caminho
onde costumavas me esperar.


***


GOIABAS BRANCAS


                   Raízes se retorcem (imitam cobras)
                                                        cravadas no chão.
                   A copa faz a filigrana: os vazados verdes
                   das folhas, geometria dos galhos.

                   O sol, artesão diário, confere as goiabas
                   pelo cheiro (a polpa e o branco da casca).

                   Mil passarinhos bicam o verão
                                                        da goiabeira
                   e gritam, fartos, de mesmo alvoroço:
                   “Já é-vem, já é-vem, já é-vem...”
Querem apagar o sono da terra.

A noite se abre aos mistérios.
                   As ninfas (árvores de fartos cabelos
                   negros) se enfeitam de jóias de prata
                                                        — goiabas brancas —
                   enquanto se vestem de toda lua.



Nenhum comentário:

Postar um comentário