quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

MARCELO GAMA (1878-1915)

Marcelo Gama — cujo verdadeiro nome era Possidônio Machado — nasceu em Mostardas, no Rio Grande do Sul, em 3 de mar de 1878. Exerceu o jornalismo e empregou-se em escritórios comerciais; sonhou com o socialismo. Faleceu no Rio, por acidente, quando, ao regressar de madrugada para casa, foi projetado do bonde, onde não resistira ao sono; caiu de um viaduto de 20 metros de altura sobre linha de estrada de ferro. Foi isso no dia 7 de maço de 1915. Escreveu os livros: Via Sacra, Porto Alegre, 1902 (2ª ed., Porto Alegre, Livraria Selbach, 1918); Avatar, Porto Alegre, 1904; Noite de Insônia, Porto Alegre, 1908; Via Sacra e Outros Poemas.




SUGESTÕES DE OCASO

Não sei por que será que os aspectos de agosto
me convidam a cisma a hora do sol-posto!

Ontem fazia frio, era roxo o arrebol,
e céus e terra e tudo, as árvores e as águas,
pareciam estar carpindo as suas mágoas...
Choravam de saudade, ao ver partir o Sol.

E eu também fiquei triste, até eu, que sabia
que a treva era um instante e o Sol ressurgiria!

A natureza tem desses fundos mistérios...
Sei que uma sepultura é o nada, a eterna paz,
e entretanto, meu Deus! não me sinto capaz
de penetrar sozinho, a noite, em cemitérios!

Segredos que a razão não nos explica: o caso
é que eu participei da amargura do ocaso.

Erguendo os braços nus, despidos pelo outono,
o arvoredo guardava atitudes de prece.
O silêncio rezava. Era como se houvesse
romarias no espaço. A tarde tinha sono.

Da paisagem subia, espiralando, o incenso
que me fazia ter o coração suspenso.

E estávamos n6s dois: eu e minh'alma, ali;
eu sentado, ela em frente; e pus-me a interrogá-la...
Pois embora ela fosse um doente sem fala,
não conto, por pudor, certas coisas que ouvi.

Por Deus Nosso Senhor, que perdi toda a calma!
E haver inda quem negue a existência da alma!

Ai! como foram mas, amargas, aziagas,
as horas que passou est'alma combalida!
Mas o instante de horror maior em minha vida
foi quando eu a despi e examinei-lhe as chagas!

Depois, risquei no chão, uns sinais cabalísticos...
Lembrei-me de morrer, e pus-me a escrever dísticos.

Epitáfios assim: "Foi mau, mas morreu cedo".
E havia logo abaixo, um nome de mulher...
(A gente muita vez escreve o que não quer...)
Sepultura e noivado... Estremeci de medo.

Que se a idéia de morte as vezes nos conforta,
apavora-nos ver uma pessoa morta.

E fiquei-me a cismar. Além, a Lua triste
que tinha molhada em pranto a palidez da face...
(Que bom seria ouvir, se a Lua nos contasse,
os romances de amor a que dos céus assiste!)

Não sei por que será que os aspectos de agosto
me convidam a cisma, a hora do sol-posto!...


***



  
SONETO DE UM PAI

Vê-la crescer, florir — viço e perfume;
 já sorri; quer falar; tartamudeia;
 diz "mamãe" e "papai" sufoca o ciúme. 
 Os dentinhos lhe vêm.  Anda.  Chilreia.

 Traz a casa de risos sempre cheia.
 Vai ao colégio, mas com azedume. 
 Aborrece as bonecas.  Cresce alheia
 à formosura e à graça que resume.

De moça tem cismas e alvoroços.
Põe vestidos compridos; fala pouco,
suspira, sonha, anseia e pensa em moços.

Vê-la como fulgura numa sala...
Envaidecer-me e... chorar como um louco
quando o noivo vier arrebatá-la!


***


 CHUVA DE ESTRELAS

Li uma vez em páginas antigas
que, se uma estrela cai do céu clemente,
concede tudo o que lhe pede a gente.
Como as estrelas são nossas amigas!

Por isso agora, insone e sem fadigas,
fito os céus toda a noite atentamente.
Chovem estrelas… E eu: – Astro fulgente,
quero que eterno o nosso amor predigas!

– Faze-me bom! Conserva-lhe a doçura!
– Estrela, dá-nos paz, serenidade!
– Que a nossa filha seja linda e pura!

Doiradas ambições! Como dizê-las,
se elas são tantas? Deus, por piedade,
manda que caiam todas as estrelas!


Nenhum comentário:

Postar um comentário