segunda-feira, 5 de outubro de 2015

RONALD FREITAS (1979 - )


Ronald Freitas é baiano de Caldas de Cipó, trabalha como Diretor de Cultura do seu município, onde também milita na educação e apresenta o programa Catraca Cultural pela Rádio Milênio FM. Estudante de Letras, há algum tempo busca publicar seu primeiro livro intitulado Corpo Aflito. Participou das coletâneas: IV Prêmio Canon de Literatura, II Concurso de Poesia Amigos do Livro da Feira do Livro de Poços de Caldas, III Prêmio Cidade Poesia de Bragança Paulista, e mais recentemente da coletânea Outros Riscos, oriunda do Prêmio de Poesia Damário Dacruz, promovido pela Fundação Pedro Calmon. Ficando também com a menção honrosa no Concurso Nacional de Poesias Sérgio Monteiro Zan organizado pela Prefeitura de Ponta Grossa no Paraná, e com o 1º lugar no 9º Prêmio de Literatura Paulo Setúbal do Estado de São Paulo. Alguns poemas de Ronald Freitas podem ser encontrados na antologia Cantares de Arrumação: panorama da nova poesia de Feira de Santana e Região (Mondrongo, 2015), organizada pelo poeta Silvério Duque.

















UM CANTO A AYLAN KURDI

Ao poeta Wender Montenegro, pai.



O roxo azulado nas mãos do pequeno Aylan decretava o silêncio.
Era a cor do adeus manchando a praia
Escorrendo chumbo e indiferença ao largo Mediterrâneo.

Nenhum pássaro naquela manhã em Bodrum.
No bote, pesava sobre a criança um amontoado de pavor, esperança e sal.
Não compreendia bem toda aquela agitação
O porquê de não ter trazido sua bola
Não compreendia aquele estranho passeio da morte em família.

Entre as pernas da mãe, observava Galip, seu irmão mais velho
O pai que conversava com outros homens.

Na madrugada, desperta o pequeno peregrino encharcado pela fria imensidão.
E com o coraçãozinho estremecido, sente pela última vez a mão do pai 
que tenta em vão alcançá-lo... 
numa luta desigual com os braços hercúleos do mar.




II


[PARTE AYLAN PELA ESCURIDÃO]



Segue agora pela via imaculada dos anjos
Com as asas molhadas
Sozinho e consumido pela água impiedosa.
Não sabe dos seus pais, do seu irmão Galip,
Não sabe mesmo que estranha agonia é aquela que lhe sufoca o peito.

Não irá à escola,
Tampouco gritará gol na terra empoeirada do seu país erguido 
entre o sangue e o desespero.

Permanecerá naquela praia, deitado de bruços sobre a areia fria
Aguardando imóvel os corpos de sua mãe e do seu irmão 
que não tardarão a chegar.



***


Uma outra história


Na curva daquela estrada
a escuridão não veio.

( na curva, o dia era apenas sol )

Pena que não passamos por aquele caminho,
vivemos alheios às curvas.


 ***

Poema da Anunciação





1.

O corpo dobra-se ao peso da vida
dobra-se à curva do tempo
desenha milagres de giz.



2.

Pouco fui de filho talvez,
quanto serei de pai na ausência de mim mesmo?
nas tuas ausências, na ausência nossa de cada dia?


3.

O olhar vago percorre o quarto,
o quarto adormece e os olhos do pequeno engolem meu coração.





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