quinta-feira, 15 de dezembro de 2011

ANTONIO BRASILEIRO (1944- )




Antônio Brasileiro Borges é poeta, artista plástico e professor, além de Membro da Academia Baiana de Letras. Nasceu em Matas do Orobó, interior da Bahia, em 1944 e reside em feira de Santana desde os anos 80. Segundo a professora Alana Frietas, em seu ensaio El Fahad, Antonio Brasileiro “é poeta de muitas faces e homem de muitas artes que apresenta na sua obra poética uma reflexão lírico-filosófica acerca de um dos motivos literários mais cantados na literatura ocidental, o desconcerto do mundo e explora em sua obra esta tentativa vã de compreender a dinâmica do mundo. Filiando-se à tradição camoniana, a sua poesia reflete muitas vezes sobre a instabilidade do mundo e a fragilidade da condição humana, sendo que esta só pode ser superada pela magia da arte, daí a marca da metalinguagem na obra do autor, ele sabe que a contribuição do artista para os homens comuns é justamente a sua obra, ainda que incompreendida, ainda que seja um pobre elefante, ainda que seja inútil a poesia... O poeta se sabe gauche, se sabe deslocado das engrenagens vigentes. Porém, como não mais habita o Parnaso, ele convive com os outros homens, mas não como os outros homens, as diferenças são divisores de água, ainda que imperceptíveis...” Entre inúmeras obras publicadas, destacando-se entre eles: Caronte (romance, 1995), Antologia poética (1996), Da inutilidade da poesia (ensaio, 2002), Poemas reunidos (2005) e Dedal de areia (poesia). Recentemente lançou o livro Desta Varanda, pelo selo cartas baianas, além de ser o idealizador da revista baiana de literatura Hera.





SONETO DO AMOR PROFANO

Não me consinta o amor tanta alegria,
pois, por não merecê-la, me constrange
o peito (já uma dor, não longe, me
sussurra que este amor sem agonias
não há de consentir em tanta graça),
eis que, perdidamente, já pressinto
– e quando, e quando – que em amor perdidos
todos os lances, não há como obtê-lo
de outro modo que não por sacrifícios
e eis que este, pois, gratuita dádiva,
me chega às mãos de um modo tão profano,
de quase sempre estou de que, se o tenho,
já não o tenho por justo e dadivoso,
mas por amor que é fruto só do engano.

E não me engana o amor quando enganoso.


***


QUE DEUS GUARDE MEU PAI


Não passar. Ficar para semente.

Não era isto que meu pai queria?
Sentava-se na rede e adormecia
julgando ter domado a dama ausente.

E sonhava talvez. Talvez menino
montando burros bravos, nu, ao vento;
um homem é a sua ação sobre o destino.

Meu pai então fazia um movimento
e a rede, a adormecer, estremecia:
pequenos sustos no tempo, era só isto.

E escancarava os olhos duramente
para mostrar que se Ela o procurava
era de cara a cara que A encarava.

Que Deus guarde meu pai. Eternamente.


***


CONTEMPLAÇÃO DA NUVEM

                              Para Luís Alberto


A vida é a contemplação daquela nuvem.
E o mundo
uma forma de passar, que inventamos
para não ver que o mundo não é o mundo,
mas uma nuvem
                               passando.

E uma nuvem passando
ensina-nos mais coisas que cem pássaros
mil livros            um milhão de homens.

A vida é a contemplação daquela nuvem.
E o mundo
uma forma de passar, que inventamos
para não ver que o mundo não é o mundo,
mas uma nuvem.
                               Passando.



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